Escrever a respeito de A Professora de Francês justamente em outubro de 2026 soa, concomitantemente, vital e amargo. Dentre tantos outros fatores, o fanatismo religioso – que leva à ausência de senso crítico e da capacidade de formação de opinião autônoma – está conduzindo nosso país a tempos obscuros, em que o conservadorismo, o discurso oco e a falta de racionalidade configuram prato cheio para o efeito manada. Vale muito mais a palavra vazia e inflamada do que o argumento fundamentado e de qualidade para que multidões sejam influenciadas sem questionamento. São tempos, por assim dizer, do pós-debate, da pós-coerência e da pós-argumentação, nos quais não importa o cenário, não importam as circunstâncias e tampouco quão gritantes sejam os indícios de que um caminho é notoriamente prejudicial: o irracional impera em prol da fé.
É claro que esse é apenas um dos fatores do risco concreto que corre a democracia no Brasil ante a eleição do Poder Legislativo mais conservador desde a ditadura (na data deste texto, o segundo turno presidencial ainda está pendente). É evidente também que a maioria é vítima de um sistema estrutural que fomenta o próprio fanatismo religioso como um modo de controle fácil pela abdução e manipulação das formas próprias de pensamento.
Obviamente, nem todo aquele que tem fé é fanático, tampouco toda fé é nociva – pelo contrário, ela confere sentido à existência de muitas pessoas desde os primórdios de nossa existência. De todo modo, abdicar do questionamento é dar um salto largo rumo ao precipício humano. Em escala global, a tendência vem sendo delegar a tarefa de pensar a tudo o que consumimos em redes sociais e inteligências artificiais, o que nos torna presas extremamente fáceis e frágeis, especialmente, para o discurso de ódio.
E o que o cenário político atual tem a ver com A Professora de Francês em específico? Contextos políticos conservadores colocam, invariavelmente, minorias em risco. Graça (Grace Passô), protagonista da ficção dirigida por Ricardo Alves Jr., é uma professora de francês que dá aulas particulares e enfrenta a instabilidade financeira típica do profissional brasileiro sem vínculo fixo. Ela vive com a companheira – interpretada pela atriz francesa Jehnny Beth – em Belo Horizonte, quando precisa retornar à casa do pai (o sempre ótimo e cativante Rodger Rogério) em razão da debilidade da saúde dele.
Nesse contexto, Graça é uma mulher negra, lésbica e periférica – portanto, alvo direto de preconceitos conservadores e cristãos (no caso do filme, de vertente evangélica). Quando representantes desse segmento se tornam dominantes – seja no universo fílmico, seja no cenário político atual -, direitos fundamentais que resguardam as minorias passam a ser gravemente ameaçados.
Por meio do núcleo familiar de Graça, A Professora de Francês constrói um microcosmo que se espelha com facilidade na dinâmica de nossa sociedade. Como filha única que mora distante do pai, ela depende da ajuda de familiares e vizinhos, pessoas com quem cresceu e que conhece há anos, para prestar os cuidados que não consegue oferecer à distância.
Esses vizinhos, interpretados por um elenco extraordinário composto por nomes como Bárbara Colen, Rômulo Braga e Elisa Lucinda, integram um culto comunitário liderado por Tomás (Pedro Goifman), uma figura jovem vista como um profeta que afirma ter recebido o “dom da palavra”. A homossexualidade de Graça desperta a atenção hostil desse grupo que, valendo-se da proximidade e movido pela ilusão de “cura” para o que enxerga como “doença”, fecha o cerco ao redor da protagonista para oprimi-la e convertê-la.

Ricardo Alves Jr. faz de A Professora de Francês um filme de gênero – e, diante da temática, é difícil conceber que fosse diferente. Por meio do terror, constrói-se uma narrativa de tensão e estranhamento progressivos. A ida de Graça à casa do pai, um acontecimento ordinário que por si só não teria nada de incomum, ganha um tom oposto impulsionado por múltiplos recursos de linguagem: a trilha sonora evocativa – que instala um nervosismo inexplicável já na abertura com a panorâmica sobre Belo Horizonte -, os olhares profundos que dizem para além das palavras, comportamentos singulares que se dão em contextos normais, os diálogos desconexos, bem como os expressivos movimentos de câmera e zooms. Trata-se de uma combinação de elementos que ganha contornos angustiantes, transformando o desconforto em um medo muito mais concreto à medida que a tensão finalmente se elucida.
A Professora de Francês apresenta as linhas divisórias de seus três atos de forma bastante visível. A inquietação existe desde a introdução, mas a princípio, trata-se de uma crescente cuja origem desconhecemos, o que nos instiga a duvidar dos personagens a todo momento, embalados na estranheza que o filme propõe. Quando a motivação da aflição finalmente se revela e a obra incorpora seu lado fantasmagórico e espiritual, a trama fica ligeiramente menos magnética do que na primeira parte. Isso, contudo, não chega a se mostrar um problema duradouro, vistas as proporções das perseguições que Graça passa a sofrer até o desfecho.
A escolha do elenco é, certamente, crucial para o funcionamento desse escalonamento atmosférico do filme. Por primeiro, de se mencionar que essa família de vizinhos não aparenta qualquer ameaça, e inclusive, oscila entre o acolhimento e o auxílio prestado à Graça e seu pai. Há, claramente, afeto entre eles – mas o limite desse afeto é imposto pelas diferenças, que começam a ser incontornáveis diante da invasão cada vez mais incisiva da privacidade da protagonista. Ricardo Alves Jr. consegue imprimir e revelar o terror invisível a olhos nus, exumando a maldade contida no interior profundo das ditas “pessoas de bem” e traduzindo-a em imagens e sensações de perigo. Elisa Lucinda, intérprete de Lourdes, talvez seja a representante mais expressiva dessa oscilação sutil: o retrato de uma mulher amorosa com momentos de um transe aterrorizante, perceptível sobretudo na inflexão de seu tom de voz rouco.
Por segundo, é preciso aplaudir sem reservas a atuação de Grace Passô e também a de Pedro Goifman. Há muito Grace já se consolidou como uma das atrizes mais relevantes do cinema brasileiro por sua intensidade, versatilidade e, sobretudo, por sua elegância e pela expressividade marcante do olhar, que, em A Professora de Francês, revela-se fundamental para comunicar as reações físicas e psicológicas provocadas pelo gênero.
O trabalho em conjunto com Goifman constrói camadas de tensão (inclusive sexual) que se fundamentam na química entre suas interpretações. O ator confere a seu personagem uma flutuação irônica e sombria de personalidade, lançando tanto o espectador quanto a protagonista em permanente dúvida. Por trás do sorriso jovial e cativante, ele é capaz de transmitir um perigo latente – e o assovio que o acompanha e anuncia sua aproximação é, de fato, arrepiante.
A possessão, diga-se, é a maldição escolhida para traduzir o fanatismo religioso no cinema de gênero – uma representação dos processos de alienação provocados por certas vertentes em nossa própria realidade. Os personagens parecem incorporar uma perversidade que não lhes pertence por inteiro, mas que é essencialmente humana e gestada pelo fundamentalismo ultraconservador. Elementos religiosos como cantos, rezas e pregações são igualmente integrados à construção de um horror mais direto, sempre de maneira bastante sofisticada.
O discurso do amor é pretexto e disfarce para a perseguição do próximo: a ideia de cuidado vem acompanhada de imposição, opressão e anulação da existência do outro (uma história que a nossa realidade bem conhece). “A gente vai cuidar de você” é a frase mais aterradora que Graça poderia ouvir nesse contexto. A invasão e a dissolução da personalidade são trazidas literal e figurativamente por Ricardo Alves Jr. – a casa, gradativamente tomada, é a própria Graça e o último resquício de amor que lhe resta naquele lugar. Em um país acuado pelo triunfo da palavra vazia e pela vigilância da fé, A Professora de Francês se consolida como uma alegoria inquietante do nosso tempo: o retrato angustiante de uma sociedade onde salvar o outro significa, em verdade, aniquilá-lo.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

