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Entrevista: Juliana Borges, diretora de Mounir

Mounir

2026

80 min

Diretor: Juliana Borges

Realizar um documentário ao longo de dez anos é, primeiramente, um exercício e um processo de escuta e entrega ao imprevisto. Quando a diretora Juliana Borges iniciou o projeto de Mounir em 2014, o ponto de partida era algo bem diferente do que se tornou o filme hoje, em 2026: a passagem do tempo e a imprevisibilidade da vida o fizeram amadurecer de forma natural e intuitiva. Um filme sobre uma certa história se transformou também em um filme sobre o próprio vínculo e a relação de confiança construída entre quem filma e quem é filmado.

Sem impor uma busca por verdades objetivas ou estáticas, Mounir abraça a subjetividade de seu protagonista, convidando o espectador a encará-lo para além dos rótulos simplistas e sem distanciamento. Ao se colocar também diante da câmera, a cineasta expõe as tensões de raça, classe e gênero que atravessam esse fazer cinematográfico, resultando em uma obra provocativa que confronta o público com suas próprias certezas e contradições diante de uma figura fascinante.

Nesta conversa, a documentarista detalha e reflete essa construção de mais de uma década, abordando os limites da autoria no cinema documental, a responsabilidade de esculpir a imagem pública do outro e as reações intensas – e muitas vezes conflitantes – que o filme tem despertado nas salas de cinema.

Mounir foi exibido na 6ª edição do CitonelaDoc e no Festival do Rio 2026.

Natália Bocanera: O filme transmite uma relação de extrema confiança entre você e o Mounir, um personagem que se mostra ávido por controlar e contar a própria narrativa. Como nasceu esse vínculo e de que forma essa base de confiança foi construída?

Juliana Borges: Eu acho que esse vínculo foi se construindo lentamente ao longo dos mais de 10 anos em que passamos juntos fazendo esse filme. Como qualquer relação de confiança que se estabelece entre duas pessoas – principalmente entre duas pessoas com backgrounds tão diferentes – foi um processo mesmo, e não algo que veio dado desde o início.

Objetivamente, Mounir e eu nos conhecemos no centro de São Paulo, nos idos de 2014, quando eu fazia uma pesquisa de personagens para um outro projeto audiovisual. Eu havia morado em Angola alguns anos antes e nessa época circulava bastante entre a comunidade africana do Centro de São Paulo. Mounir estava decidido a encontrar alguém disposto a contar a sua história.

Não acho que o Mounir seja ávido por controlar a sua própria narrativa. Tanto é que, ao longo de todos esses anos, ele nunca me pediu para ver nada do que eu havia filmado, nunca me questionou sobre qual era o filme que eu estava construindo. E de certa forma acho também que isso veio da relação de confiança que fomos criando.

Mas concordo que ele é uma pessoa com uma vontade imensa, posso dizer até com uma obstinação, de contar a sua própria história para o mundo, de mostrar para as pessoas que ele está sendo capaz de levar a sua vida para um outro caminho, diferente ao que se esperava para alguém como ele – africano, negro, pobre, refugiado. Para mostrar, como ele próprio diz no filme, que “as coisas estão melhorando para ele”. E foi essa obstinação, somada ao seu imenso carisma e à sua capacidade de contar e fabular suas próprias histórias, que prenderam minha atenção inicialmente e me fizeram acreditar que dali sairia um filme.

Desde o início estabelecemos um combinado, um combinado tácito, não dito: esse filme sobre ele não iria buscar a verdade objetiva dos fatos, mas sim a verdade subjetiva do protagonista. E foi essa verdade que eu sempre busquei para contar essa história e essa busca pela verdade do personagem que sempre norteou o meu processo de construção do filme. Até porque eu nem acredito na Verdade como uma coisa única, externa, estática. De uma certa forma eu nunca questionei as escolhas do Mounir, as escolhas do que ele queria e do que ele não queria contar, a maneira como ele contava. Sempre esteve claro – e está claro inclusive literalmente no filme – que este filme nasceu a partir da vontade do protagonista de fazer um filme sobre si próprio. Então eu sempre embarquei com ele nas suas histórias, que eu nunca sabia onde iam dar. E isso, creio eu, foi colaborando para estreitar a nossa relação de confiança e cumplicidade.

Natália Bocanera: Ainda que o filme parta de um acordo mútuo, a direção imprime o seu olhar – de forma discreta e afetuosa, mas obviamente um olhar. Como foi o exercício de equilibrar a sua autoria e o seu ponto de vista como diretora com o desejo do Mounir de assumir as rédeas da própria história?

Juliana Borges: Essa é uma excelente pergunta! Partindo da premissa de que o filme nasceu a partir do desejo do próprio personagem de fazer um filme sobre si próprio, a narrativa poderia ter seguido muitos caminhos para cumprir esse objetivo: eu poderia, por exemplo, ter proposto uma uma codireção entre personagem e diretor, poderíamos ter proposto ao protagonista escrever o roteiro do seu próprio filme, como nos filmes de Jean Rouch, ou ter criados dispositivos que mostrassem Mounir dirigindo ou atuando no seu próprio filme.

Mas eu optei por assumir a direção do filme sozinha, de ser a diretora do filme sobre o Mounir. E optei por ser personagem do filme também. Essa não era minha escolha inicial, ela foi se apresentando ao longo dos anos, e acho que de certa forma sendo indicada também pelo caminho do próprio filme. Lá pelo início do processo, o filme se chamaria “A Vida e as Vidas de Mounir” e o protagonista viveria 3 vidas, uma real e duas ficcionalizadas sobre possíveis vidas que ele poderia ter tido. Inclusive fizemos alguns testes e filmagens nesse formato, com o Mounir (na época ele era ator) encenando passagens da sua vida e cenas ficcionais. Mas eu nunca consegui dinheiro pra fazer esse filme que eu tinha escrito. Segui filmando, de forma independente, vários episódios da vida do personagem. Eu confiava muito que algum dia eu teria um filme, mesmo sem ter a menor ideia de qual seria.

E aí em 2018, quatro anos depois de iniciar as filmagens, acontece uma grande reviravolta na vida do personagem – que eu não vou revelar aqui pra quem ainda não assistiu. E de repente me vejo catapultada para dentro da história. Sem ter planejado, me torno uma personagem desse filme incerto. E a partir daí foi ficando cada vez mais claro que esse seria um filme sobre uma relação, um vínculo entre duas pessoas – a que filma e a que é filmada. Dirigido pela pessoa que filma, e, portanto, um olhar dela (meu) para essa relação.

E o Mounir sempre confiou no meu trabalho, nunca me perguntou sobre os caminhos escolhidos, sobre a demora em concluir o filme ou sobre qual seria a história a ser contada. Ele só viu o filme quando o corte estava fechado, antes de ir para a pós-produção. Infelizmente ele não estava no Brasil e não pudemos assistir juntos, eu mandei um link. Ele me ligou emocionado dizendo que tinha adorado!

Mas eu tenho certeza absoluta de que se o Mounir fosse escrever um filme sobre si próprio, ou se a gente fosse dirigir juntos um filme sobre ele, seria um filme totalmente diferente deste. Tanto é que, quando eu ligo pra ele para contar que o nosso projeto iria ser concluído depois de mais de 10 anos (essa cena está no filme), ele dispara: agora vamos fazer outro filme sobre minha vida! Quem sabe agora que o meu filme sobre a vida dele está no mundo, a gente não embarca juntos novamente para fazer o filme dele sobre a vida dele?

Mounir (Imagem: divulgação)

Natália Bocanera: Construir um documentário é também delimitar a representação pública de alguém – neste caso, um homem negro e refugiado, atravessado por marginalizações históricas. Como você enxerga sua responsabilidade, como documentarista, a respeito da formação dessa imagem de Mounir para o mundo?

Juliana Borges: Eu acho que é uma imensa responsabilidade e sempre esteve no centro das minhas atenções na hora de montar o filme. A história do Mounir é única, extremamente particular e nada óbvia, mas a trajetória dele – e a obsessão a que me referi acima em fazer o filme e contar para o mundo que ele é capaz de criar uma outra trajetória para a sua vida – representa a trajetória de milhões de outras pessoas deslocadas e refugiadas no mundo.  E precisamos falar sobre isso, ampliar as discussões sobre imigracão, refúgio, xenofobia e racismo.

O documentário convida o público a enxergar Mounir além dos rótulos de “refugiado” e “imigrante”, humanizando um indivíduo que, muitas vezes, é reduzido a uma estatística ou uma narrativa simplificada.  Falar sobre imigração a partir desta perspectiva é essencial para os tempos atuais, em  que governos de extrema direita com discursos xenófobos ascendem com força no mundo todo.

Eu não acho que esse é um filme sobre uma causa, mas certamente é um filme que amplia reflexões sobre o imigrante, sobre os imensos desafios de tantas naturezas que qualquer imigrante precisa enfrentar. E a reação do público nos festivais em que o filme foi exibido tem nos mostrado que o filme conecta com questões profundas. O que me deixa muito feliz.  

Natália Bocanera: Você é uma documentarista admirável, uma mulher que faz cinema é sempre algo a ser celebrado. Você é, também,  uma mulher branca que fez um filme sobre um homem negro. Como o próprio Mounir traz ao filme, as suas experiências, como mulher branca, e as experiências dele, como um homem negro africano, sempre serão acompanhadas de uma distância abismal. Houve, entre vocês, uma conscientização a respeito da presença dessa linha divisória? De que forma essa distância atravessou o longa?

Juliana Borges: Houve sempre um diálogo nesse sentido entre Mounir e eu, das diferenças de culturas, diferenças de gênero, diferenças de visão de mundo. Isso sempre foi falado abertamente entre nós, até porque o Mounir já estava há muitos anos no Brasil e eu já tinha tido bastante contato com culturas e países africanos antes de conhecê-lo.

E houve intenção em colocar essa distância de pontos de vista e de visão de mundo dentro do filme. O montador, o Oswaldo Santana, sempre diz que a parte mais difícil do processo de edição de “Mounir” não foi contar a história do Mounir, mas contar a história da diretora. E eu concordo totalmente com essa afirmação. Uma vez que eu me tornei personagem de filme, foi bem desafiador construir essa personagem no filme. Uma personagem que fala, que está atrás das câmeras e, ao longo do filme, também na frente, que tem um monte de julgamentos e pré-conceitos. E eu acho que isso tá no filme em diversos momentos, de maneira sutil, mas bem perceptível. Por exemplo, quando a diretora se espanta com a quantidade de sapatos de Mounir, claramente achando aquilo um exagero, e julgando aquele consumismo em excesso. Nós não queríamos construir uma “Juliana” muito inocente, nem muito apática, nem muito protagonista da história e muito menos, perfeita. Eu acho que a todo tempo o espectador tem sentimentos conflitantes tanto em relação ao Mounir quanto em relação à diretora – ora tem raiva, ora acha fútil, ora acha inocente, ora torce por ele, ora torce contra ele. E eu adoro ver essas reações, porque elas sempre são muito diferentes dependendo de quem assiste.

Natália Bocanera: No início do longa, Mounir diz algo como “Ninguém acredita em refugiados”. Isso será, de fato, muito significativo e presente na trajetória dele, como vemos. Ao expor Mounir, o longa parece confrontar a postura do próprio público, provocando reflexões quanto à tendência de duvidar do relato de uma pessoa negra. Qual tem sido a sua percepção sobre a reação do espectador a essa figura?

Juliana Borges: Escrevi a resposta acima sem ler essa pergunta e acho que o que eu tava dizendo ali se aplica aqui também. Acho que o filme provoca muitas reações conflitantes e prega algumas peças no público. Sempre fica aquela tensão no ar do que vai acontecer depois e uma certa dúvida se aquilo é verdade, é fantasia, é invenção ou é mentira. E o filme acaba sem muitas respostas objetivas sobre quem é Mounir. Para mim, ele representa a complexidade do que nos faz humanos. Ele é cheio de contradições como você é, eu sou, todos somos.

Eu acho que cada um escolhe o que quer levar da história do Mounir, e esse “o que levar”, pra mim,  acaba sendo um é um espelho da própria pessoa. É interessante perceber como a reação do público tem sido bem diversa nas sessões que já rolaram – até agora foram 5 festivais. Um parente bem bolsonarista que foi em uma das sessões da mostra Ecofalante me mandou a seguinte mensagem após o filme: “Adorei a história, mas você fez um filme sobre um picareta”. Um moçambicano radicado no Brasil achou uma linda homenagem à força e à resiliência dos africanos, e disse que o Mounir é um exemplo para ele. Uma senhora branca mais idosa detestou o filme porque achou o personagem muito consumista e bobo. Um adolescente negro achou ele o cara mais corajoso do mundo. E assim por diante. Eu acredito em refugiados e eu acredito em Mounir. Eu admiro Mounir pela sua força, perseverança e otimismo. E isso acho que está bem retratado no filme.

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