A atriz por trás da dama da dramaturgia brasileira
Tenho plena consciência de que isso pode soar um tanto cringe, mas, quando vejo Fernanda Montenegro no cinema, na televisão ou em algum registro de suas peças de teatro – infelizmente, nunca tive a oportunidade de assisti-la ao vivo -, minha cabeça recorda da minha mãe. Elas não se parecem fisicamente, mas há um espírito que parece aproximá-las. Caminham e vestem-se de modo parecido, e compartilham algo imaterial que não sei definir muito bem. Por isso, quando assisto a Fernanda, o documentário dirigido por Pedro Waddington, seu neto, sinto que não estou diante somente de uma das maiores atrizes brasileiras, mas também de uma figura que me permite encontrar, no cinema, minha mãe. Não sei exatamente como separar essas experiências, e sei que não preciso fazê-lo.
De todo modo, o documentário procura investigar quem é essa mulher e o que a tornou tão importante para a história da dramaturgia brasileira. Quando pensamos em interpretação, Dona Fernanda costuma ser a primeira referência que nos vem à mente. Mesmo depois de 16 anos trabalhando como crítico de cinema, ainda tenho dificuldade em identificar o instante em que esse consenso se consolidou, ou qual foi o fato gerador – talvez a indicação por Central do Brasil? -, transformando-a na grande dama de nossa cultura. Seu talento é inquestionável, mas o reconhecimento que conquistou decorre de algo que ultrapassa a capacidade de interpretar personagens. Há a raríssima combinação de humanidade, carisma, despretensão e seriedade com que compreende o seu ofício, como se a atriz carregasse uma consciência muito particular do que significa ser artista em um país que nem sempre valoriza seus artistas como deveria.
A narrativa não precisa demonstrar sua grandeza por meio de depoimentos solenes e de uma retrospectiva organizada; ela se aproxima de Dona Fernanda através do trabalho, acompanhando seus bastidores e recuperando registros de diferentes momentos da carreira, no cinema ou nos palcos. A câmera encontra uma atriz que conversa descontraidamente enquanto a equipe prepara mais uma tomada, ou que faz comentários, questiona decisões e participa ativamente do processo criativo. É uma Fernanda que continua a grande artista que é até quando abandona a personagem. Ela continua observando, opinando e experimentando.
Entre os registros apresentados estão os bastidores de Velhos Bandidos, dirigido por seu filho, Cláudio Torres, e de Casa de Areia e Vitória, ambos dirigidos por Andrucha Waddington, seu genro. A dimensão familiar é indissociável desse percurso, e Pedro, filho de Andrucha, utiliza essa proximidade para acessar momentos de intimidade que dificilmente teriam a mesma espontaneidade em um documentário realizado por alguém de fora desse círculo. Há uma familiaridade que permite à câmera permanecer próxima mesmo quando Fernanda está cansada, contrariada ou sem disposição para transformar a vida em espetáculo, e a si mesma em personagem.
Essa proximidade constitui tanto a principal virtude quanto uma das limitações do filme. Por um lado, é o que permite enxergar a atriz para além da imagem pública, acompanhando sua participação na construção das personagens e sua maneira de reagir às exigências de cada produção. Por outro, o olhar afetuoso da direção parece estabelecer limites para aquilo que o documentário está disposto a investigar. Não espero que um filme sobre Dona Fernanda desmonte sua importância e procure artificialmente aspectos negativos de sua personalidade. Mas reflito que, talvez, o afeto impeça determinadas perguntas de serem formuladas ou portas de serem abertas.
No entanto, uma das questões mais interessantes do filme está na relação ambivalente de Fernanda com o cinema. Para ela, o teatro permanece como a arte de excelência do ator, o espaço no qual a interpretação acontece diante do público e precisa se sustentar no tempo presente. O cinema, por sua vez, o seu aspecto técnico, a repetição de tomadas e a possibilidade de que o momento escolhido para a montagem não seja aquele que a atriz considera o melhor criam um cenário em que o ator é somente ferramenta, sem o poder de determinar amplamente o resultado final.
O documentário recupera situações que ajudam a compreender essa relação. Há lembranças das filmagens difíceis, de momentos em que Fernanda demonstra uma certa impaciência ao revisitar ou discutir partes de seus trabalhos. O temperamento às vezes rabugento – igual à minha mãe, inclusive- não contradiz o afeto que o filme transmite; pelo contrário, impede que a atriz seja reduzida a uma figura permanentemente disponível, sempre pronta para corresponder à imagem que o público construiu dela. Fernanda se cansa, discorda e manifesta preferências, frustra-se, mas o show tem que continuar, então continua.
A atriz não aparece só como intérprete de personagens memoráveis, mas como participante de um processo coletivo de criação, não muito diferente do que nos primórdios teatrais. Ela observa o que acontece ao redor, oferece sugestões, questiona escolhas e procura compreender aquilo que está construindo. Ela tem uma relação com a atuação que não se encerra na memorização de falas – e agora, no emprego de pontos – ou no atingimento das marcas. Interpretar envolve pensar, experimentar, negociar e descobrir possibilidades durante o próprio trabalho.
Mas o tempo também se impõe. Dona Fernanda reflete sobre a própria trajetória, sobre os amigos que enterrou e sobre a dificuldade de construir novas amizades à medida que envelhece ao lado de Ary Fontoura, com quem dividiu protagonismo. A morte deixa de ser uma possibilidade abstrata e passa a integrar o dia a dia. Cada nova peça ou filme pode ser a última, ainda que ninguém saiba quando esse momento chegará. Depois de uma vida dedicada ao trabalho, cuja história preencheria não só um filme de 2 horas, mas um tomo de 20 volumes, o futuro se torna simultaneamente uma promessa e uma interrogação. Continuar criando significa também reconhecer que não há tempo ilimitado para criar.
Criar, mesmo em um país que não valoriza a arte como poderia, não é apenas exercer uma profissão, é o encontro de uma maneira de permanecer em contato com a vida e de refletir sobre aquilo que nos constitui. E registros como este, tempestivos, não póstumos, são meios de celebrar a artista e mulher antes que a memória a transforme em monumento. Talvez Fernanda não seja o documentário no qual vamos compreender, inteiramente, o que fez Fernanda Montenegro alcançar a posição mais alta no Olimpo da cultura brasileira, mas é bem mais do que só um ponto de partida.
É um filme para refletir que o talento, por si só, não explica tudo. Existe também a maneira como ela se relaciona com o trabalho, a seriedade com que encara a profissão e a capacidade de permanecer curiosa mesmo depois de tantas décadas de experiência. Para mim, contudo, há ainda algo mais íntimo nessa imagem. Fernanda ainda está aproveitando o terceiro ato e, ainda bem, as cortinas ainda não começaram a descer.
Fernanda foi exibido na Mostra Première Brasil, fora de competição, no Festival do Rio.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


