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London

Classificado como 3.5 de 5

London

2026

90 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Victor Di Marco, Márcio Picoli

O corpo não deveria pedir licença para existir no cinema

Não é difícil perceber que existe um corpo preferido pelo cinema. É aquele corpo que protagoniza dramas, romances, comédias, filmes de ação, fantasia, terror e ficção científica, atendendo a padrões não só de beleza, bem ainda de funcionalidade e comportamento que raramente são questionados. Quando outras corporalidades tentam ocupar esse espaço, a recepção costuma ser mais resistente, como se sua presença representasse uma deturpação daquilo que entendemos como cinema. Basta lembrarmos das controvérsias em torno do cripface, quando atores sem deficiência são escalados para interpretar personagens com deficiência, e observar como personagens com corpos dissidentes estão submetidas à sua deficiência, quer dizer, sua própria existência se transforma em conflito ou instrumento para o desenvolvimento de outros personagens. São poucos os filmes que lhes permitem simplesmente amar, desejar, sorrir e viver.

London, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, é um desses filmes e parte da possibilidade de imaginar outro cinema, em que tais corpos não precisem justificar sua presença nem se tornar exemplos de superação. Premiado com o Queer Lion no Festival de Veneza de 2026, o longa acompanha o personagem-título (Di Marco), um homem com deficiência e que trabalha em uma casa de fetiches, onde atende aos desejos de seus clientes. Enquanto tenta preservar a autonomia que construiu, que embora precária, é só sua, London se vê diante da oportunidade de compreender melhor sua condição por meio de um exame médico. O diagnóstico, no entanto, representa também uma ameaça de converter um traço de sua existência na definição de quem ele é.

A liberdade do protagonista não se manifesta apenas na premissa, mas também na maneira como o filme aborda o desejo. London é amado por pessoas ao seu redor e estabelece relações que não parecem existir para atender às necessidades de empurrar a narrativa adiante. A mãe (Carla Cassapo), a irmã mais nova, a melhor amiga deficiente física (Jéssica Teixeira), a mulher mais velha com quem se relacionada (Priscila Colombi) compõem uma rede segura de relações afetivas neste estudo de personagem preocupado em explorar, investigar e permitir ser London como pessoa e corpo. Cada vínculo introduz uma experiência de intimidade, vulnerabilidade e desejo, sem que a deficiência do protagonista precise funcionar como explicação para tudo o que acontece com ele, ao menos tempo em que cada personagem também enfrenta os preconceitos enraizados em uma sociedade.

Nesse sentido, o filme não se contenta em sublinhar que pessoas com deficiência têm direito ao amor e à sexualidade; ele as mostra vivendo essas experiências, inclusive em contextos de fetiche, trabalho sexual e práticas que o cinema convencional prefere ocultar. A casa onde London trabalha – uma caverna praticamente – é um espaço em que o corpo adquire outras possibilidades de expressão, e que a narrativa tenha início ali é como se estivéssemos precisando mergulhar em um “submundo” cinematográfico para encontrar as pessoas que não encontramos nos demais filmes. Esse espaço é uma forma de insubordinação de personagens cansados de aguardar que a sociedade reconheça sua humanidade para começarem a exercê-la.

A questão do diagnóstico, entretanto, introduz uma tensão que considero simultaneamente uma das ideias mais interessantes e uma das limitações da minha experiência. É compreensível que London tema ser reduzido a um rótulo médico. Ele construiu uma vida na qual sua identidade não se resume à deficiência e não deseja que uma explicação clínica reorganize todas as suas relações – embora seu personagem explique sua distonia muscular para o espectador. Para ele, o diagnóstico pode funcionar como uma sentença. E sua resistência nasce do receio de que essa descoberta explique sua existência, confinando-a.

Quando London entra no aparelho de tomografia, seu corpo começa a se movimentar involuntariamente em razão dos espasmos musculares associados à sua deficiência. Ele precisa ser sedado para que o procedimento possa prosseguir. Há uma imagem muito expressiva nesse conflito entre o corpo e a máquina, quanto mais o protagonista tenta se submeter ao exame, mais seu organismo parece resistir. Isso adquire uma dimensão simbólica como se o próprio corpo inconscientemente recusasse qualquer tentativa de diagnóstico.

Ainda assim, existe uma ambiguidade que o filme poderia explorar com mais profundidade. O diagnóstico pode limitar uma pessoa, mas também pode oferecer informações relevantes para ela e para sua família, ajudando a entender necessidades ou possibilidades concretas. Claro, falando de onde estou é mais fácil do que de onde London vem. Mas, reflito, reconhecer isso não significa ceder ou negociar sua autonomia ou individualidade. O que me incomoda no roteiro é reduzir o personagem a uma escolha entre autonomia e autoconhecimento, como se compreender o próprio corpo em termos médicos representasse uma ameaça à liberdade conquistada. Bem, mas reconheço que posso estar falando abobrinhas.

De todo modo, ao transformar o diagnóstico no principal catalisador dramático, London corre o risco de deixar em segundo plano o que há de mais especial em seu protagonista, e que parecia ser a proposta, a possibilidade de acompanhá-lo simplesmente vivendo. É compreensível, porque o conflito termina sendo ainda a base da narrativa convencional, mas para um filme sobre corpos dissidentes, ter uma narrativa estruturalmente dissidente não seria absurdo. Sinto que a narrativa poderia confiar mais na força da mera existência de London, sem precisar conduzi-la de volta à questão que pretende contestar.

Essa limitação não invalida a dimensão política do projeto. Pelo contrário, ajuda a identificar uma contradição que existe nas maneiras como a sociedade e a arte representam a deficiência. O diagnóstico pode se tornar uma fronteira entre a pessoa e o olhar do próximo, sobretudo quando passa a determinar quem deveria ser, o que deveria desejar, ou como deveria organizar sua vida. A cidade também é parte dessa experiência como um espaço urbano onde múltiplas existências encontram-se, mas indiferente a tais existências quando fogem ao que a sociedade espera encontrar.

Embora o conflito com o diagnóstico às vezes restrinja as possibilidades de London, o trabalho de Victor Di Marco e Márcio Picoli é um relevante exercício de insubordinação artística, estética e política de enfrentamento da indiferença das cidades e dos cinemas. O cinema não precisa transformar London em um símbolo de resistência, senão dentro de sua vida. Basta permitir que seja o protagonista de sua própria história. O direito de existir dentro e fora das telas não deveria depender da capacidade de alguém justificar seu corpo, explicar sua deficiência ou corresponder ao que os outros esperam dele. E o filme encontra sua maior força quando permite que essa existência ultrapasse pela arte os limites que o mundo – também pela arte – tenta estabelecer para ela.

London foi exibido na Mostra Première Brasil: Competição de Longas-metragens Ficção do Festival do Rio 2026.

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