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Feito Pipa

Classificado como 3 de 5

Feito Pipa

2026

93 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Allan Deberton

O cinema popular representa o Brasil no Oscar 2027

Acho que o cinema brasileiro ainda tem algum receio de filmes populares popular. E, por popular, não me refiro necessariamente às obras que alcançam grandes públicos – nesse sentido, não considero Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto filmes populares. Quero me referir a um modo de fazer cinema que emprega formas acessíveis de contar piadas, criar tensão e refletir sobre a humanidade e o drama, recorrendo a convenções e sensibilidades próximas do audiovisual televisivo, de suas chanchadas e de seus melodramas. Antes que eu seja mal compreendido, não tenho interesse em estabelecer uma separação entre críticos, cinéfilos e o público em geral, muito menos em hierarquizar uma arte supostamente elevada e outra popular. A minha questão é como essas duas dimensões poderiam se tornar indistintas, permitindo que um filme dialogue com diferentes públicos sem precisar justificar suas escolhas formais.

Se Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto ajudaram a estreitar a distância entre o cinema brasileiro autoral e espectadores que ainda precisam descobrir parte dessa produção, Feito Pipa, de Allan Deberton, procura realizar um movimento complementar: conquistar a crítica e a cinefilia partindo de uma forma popular de contar histórias. Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, o filme conta a história de Gugu (Yuri Gomes), um garoto queer que sonha em se tornar jogador de futebol e vive com a avó, Dilma (Teca Pereira), desde a morte da mãe, que ele acredita ter sido vítima de um acidente. Sua relação com o pai, Batista (Lázaro Ramos), é bastante conturbada. Ele é um caminhoneiro incapaz de se libertar das convenções machistas e homofóbicas que orientam a sua visão de mundo – e, para ser honesto, da maioria das pessoas naquela pequena comunidade. Quando a saúde de Dilma começa a se deteriorar, Gugu precisa aceitar a possibilidade de morar com o pai, a pessoa de quem gostaria de permanecer distante.

Criado livremente pela avó, Gugu nunca precisou esconder quem é. Dilma não estabelece restrições à maneira como o neto se veste, se comporta ou manifesta seus desejos. Ele também não parece interessado em pedir autorização para existir, batendo de frente inclusive com o valentão da escola quando necessário. Essa liberdade não surge como conclusão de uma jornada de autodescoberta, mas como parte da formação que recebeu. Dilma não precisa verbalizar uma cartilha de aceitação porque sua própria maneira de viver constitui o exemplo mais eloquente de existir. Ela dança, namora e aproveita a vida sem se deixar definir exclusivamente pela idade. A liberdade é uma prática, não uma concessão.

Por isso, quem espera encontrar em Feito Pipa mais um drama sobre um adolescente queer tentando construir sua identidade diante de estruturas repressivas pode se surpreender. Gugu precisa, sim, defender quem é, mas não está definido por essa necessidade. E um dos aspectos que mais admiro no filme de Deberton é a percepção de que seu protagonista já possui uma personalidade relativamente formada. Podemos imaginá-lo com 16, 18 ou 21 anos e enxergar alguém que continuará carregando consigo a segurança conquistada, ainda que precise aprender a lidar com circunstâncias para as quais não está preparado. No campo identitário, não há necessariamente algo a construir, desconstruir ou destruir. O que existe é um processo de amadurecimento, que passa pelo reconhecimento de que não é o super-herói que acredita ser, que algumas pipas depois de voarem bem alto podem também cair.

É a doença de Dilma que desencadeia toda essa transformação. À medida que a represa começa a secar e uma antiga igreja submersa reaparece, a avó perde progressivamente o contato com a realidade. O desaparecimento das águas acompanha o desaparecimento de suas referências reais, como se o reaparecimento da paisagem participasse participasse de uma regressão da memória ao passado. Para Dilma, ele retorna de uma maneira que lhe permite acreditar que a filha ainda está viva. Para Gugu, a deterioração da saúde da avó tem um efeito duplo: perde o principal vínculo afetivo que lhe ofereceu segurança e liberdade e obriga-o a aproximar-se do pai Batista.

Divulgação: Festival do Rio.

E ele não é um monstro, embora possa ser bruto, ignorante e, às vezes, cruel. É um homem que não conseguiu escapar inteiramente das expectativas de masculinidade que aprendeu a reproduzir. Sua frustração diante da possibilidade de ter uma filha e sua dificuldade em aceitar um filho que não corresponde à imagem convencional de masculinidade revelam uma limitação afetiva que ele nem sempre sabe reconhecer. Lázaro Ramos confere a Batista ambiguidade. Ele é autoritário, sim, mas também vejo a possibilidade de que venha a compreender o valor do filho. Consigo imaginá-lo, alguns anos ou mesmo décadas depois, percebendo aquilo que Gugu representa e aquilo que deixou de enxergar.

É nesse ponto que a forma escolhida por Deberton se torna relevante, e preciso retornar ao parágrafo inicial. O diretor recorre a batidas características do melodrama. A doença já aparece como a catalisadora dos conflitos. Além dela, o gesto de olhar para trás seguido por um close que parece examinar o íntimo do personagem, as pausas entre os diálogos que conferem peso ao silêncio e uma trilha sonora que orienta a experiência emocional são recursos acessíveis, mas não menos legítimos ou cinematográficos. Deberton faz melodramas, e Pacarrete é um bom exemplo disso. Ele oferece uma forma poderosa de reunir sentimentos, torná-los visíveis juntamente a conflitos e aproximar o espectador de personagens cujas experiências não são necessariamente as suas. O problema nunca está em convenções populares, mas em saber o que fazer com elas.

Minha principal ressalva está no terceiro ato, que parece interromper a narrativa antes que ela se desenvolva inteiramente – ao menos assim senti. A conclusão adquire um caráter mais escapista e lúdico, como se o filme optasse por suspender a história quando os seus conflitos ainda estavam em movimento. A imagem da represa secando, com a igreja emergindo gradualmente, oferece uma promessa visual e dramática cuja realização eu gostaria de acompanhar por mais tempo. Da mesma maneira, gostaria de permanecer com Gugu, Dilma e Batista, observando as consequências de tudo aquilo que o filme construiu. Quando os créditos começam, após um momento agridoce, a sensação é de que falta algo, mesmo que a vulnerabilidade sensível pareça ter sido momentaneamente enfrentada. O herói derrota o dragão e salva a princesa; é um tico maniqueísta, mas é assim que vejo o final interrompido.

Volto ao início. Imagino que nossa dificuldade em aceitar o cinema popular existe porque esperamos que ele demonstre alguma coisa além de sua capacidade de comunicar-se com o público. Feito Pipa não precisa ser menos melodramático, menos acessível ou menos emotivo para alcançar voos maiores. Deberton reconhece que uma narrativa popular pode tratar de questões íntimas e complexas sem complexificar os personagens ou os dramas para que muitos não consigam acessa. O que me frustra é que, em determinado momento, a forma parece se impor à experiência. Assim como Gugu precisa encontrar uma voz própria para enfrentar o mundo, o filme precisava permitir que sua voz chegasse mais longe… mas aí sou eu impondo o meu ver cinema no filme feito por Deberton.

Feito Pipa é afetivo, humano e maduro, e torço que esse voo de pipa seja longo e alcance os corações mais próximos e remotos.

O filme foi exibido Fora de Competição na Première Brasil do Festival do Rio.

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