A banalidade do mal
A banalidade do mal é um conceito criado pela filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt, pelo qual descreve como atrocidades podem ser cometidas por indivíduos que não se percebem como monstros, mas que renunciaram à capacidade de pensar criticamente sobre suas ações e julgar suas consequências morais. A banalidade não é o equivalente à trivialidade nem à insignificância, mas que os crimes de tal monta podem ser executados como se fossem tarefas rotineiras e burocráticas, quando a obediência e o cumprimento de procedimentos substituem a consideração pela vida alheia. É um bom ponto de partida para refletir sobre NAZA.
Antes de conquistarem o Oscar por Sem Chão, em 2025, os diretores israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor já haviam conseguido conversar com os informantes das forças militares e de inteligência de Israel sobre as operações conduzidas pelo governo na Faixa de Gaza após os ataques de 7 de outubro de 2023. Esses depoimentos anonimizados fotográfica ou digitalmente de pessoas diretamente envolvidas nos mecanismos que permitiram o assassinato em massa de civis palestinos foram reunidos em um documentário que, se o mundo fosse justo, todos poderiam assistir e ter a sua humanidade desafiada e transformada. Mas se o mundo fosse justo, não haveria porque existir um documentário assim.
O título é um acrônimo empregado pela inteligência israelense para designar o número de civis que se espera que morram em um ataque aéreo às estruturas de Gaza que abrigam ou poderiam abrigar membros do grupo terrorista Hamas. O título já é demasiado perturbador em como transforma vidas humanas inocentes em uma código operacional ou em uma estatística, sobretudo quando o mundo já contabiliza mais de 73 mil palestinos mortos desde o início da guerra. Um genocídio, sim. E não é preciso ser pró-Palestina ou pró-Israel para reconhecer como é moralmente indefensável ouvir um soldado argumentar que três, quatro ou seis crianças mortas não representam um número tão significativo. Uma só criança morta em uma zona de guerra já seria um número grande demais!
Filmado durante a noite, nos telhados de Tel Aviv, o documentário de apenas 77 minutos transforma conversas clandestinas em uma investigação sobre os mecanismos políticos, tecnológicos e morais que tornam possível a desumanização. Os informantes descrevem, detalham e desenham sistemas de inteligência artificial, métodos de seleção de alvos ou critérios para calcular quantos civis morrerão em determinados ataques. Em um dos depoimentos, um informante relata que chegou a ser autorizada a morte de até 500 civis para atingir um integrante do Hamas – que, se bem me recordo, era do ‘baixo clero’. A cifra, por si só, seria suficiente para provocar repulsa, mas o que mais me impressiona é a maneira como a violência aparece submetida à lógica administrativa que Arendt havia descrito. O assassinato de inocentes já é um elemento inerente à própria metodologia de funcionamento do governo israelense.
Alguns depoimentos são até previsíveis, o que não os torna menos abomináveis ou nauseantes: os soldados descrevem suas atividades como se estivessem cumprindo missões em um videogame, concluindo tarefas e usufruindo a adrenalina de um ‘trabalho’ que, visto de longe, pode parecer o equivalente a uma injeção de dopamina. Esse processo de gamificação permite aos participantes dos ataques se distanciarem das consequências concretas das próprias decisões. Atrás de telas, sistemas automatizados e alvos em uma interface, mal percebem, ou querem perceber, que do outro lado existem famílias, crianças, prédios residenciais e pessoas tentando encontrar comida em um território devastado.
Outros depoimentos revelam mecanismos de desumanização ainda mais explícitos. O argumento de que não se trata de um ódio aos árabes, e de que os responsáveis não seriam extremistas da desumanização, torna-se particularmente frágil quando confrontado com os resultados concretos dessas operações. É até possível não se reconhecer como alguém movido pelo ódio e, ainda assim, participar voluntariamente de uma estrutura que destrói sistematicamente toda uma população. A aceitação sem questionamento torna-os tão culpados quanto quem toma as decisões.
À medida que os depoimentos se acumulam, o efeito também se acumula em nós. As palavras nos convidam a imaginar cenas que os diretores não precisam mostrar: cães devorando cadáveres, crianças cercadas pelos corpos de familiares e pessoas correndo em busca de alimentos que se tornam alvos de atiradores são imagens que fixam no imaginário do espectador. Nesse sentido, NAZA me parece mais interessado em investigar a normalização da violência do que em produzir imagens chocantes. O essencial se torna a exibição da lógica que permite que o horror continue acontecendo.
A forma cinematográfica, aliás, é o que torna essa investigação tão poderosa. Abraham e Szor filmaram os informantes à noite, e nos permitiram enxergar pouco mais do que suas silhuetas. As vozes são alteradas digitalmente. Não temos rostos reconhecíveis e muito menos expressões que guiem nossas reações. O que resta é a voz, a escuridão e o espaço urbano ao redor. Essa escolha formal cria o cenário apropriado para a confissão envergonhada de que tem participado de um genocídio.
Os diretores recorrem também a imagens de arquivo que recuperam a construção de Tel Aviv com o consequente deslocamento dos povos árabes que habitavam a região, enquanto os pronunciamentos oficiais de Benjamin Netanyahu introduzem o discurso de ódio mascarado de retórica política. Mas o mais eficiente é o contraste espacial. Tel Aviv está a 60 e tantos quilômetros de Gaza, distância que permite a coexistência entre a normalidade cotidiana de um lado e a destruição do outro. Desse lado, uma metrópole iluminada pelas luzes urbanas e dos apartamentos nos arranha-céus; do outro, apenas podemos imaginar prédios desabando sobre os corpos frágeis de civis esfomeados.
É tragicamente irônico que a vida continue acontecendo em um lugar enquanto, a poucos quilômetros dali, outras pessoas lutam para permanecer vivas. A distância entre as duas cidades se torna uma distância moral entre aqueles que conseguem continuar suas vidas e aqueles cuja existência está sendo destruída. Ou entre nós, espectadores passivos de uma tragédia já anunciada há 3 anos pelo menos. O paralelo com o regime nazista não é exagerado, desde que entendido como uma reflexão sobre os mecanismos de desumanização e a transformação de pessoas em números. Não quero comparar tragédias, muito menos ignorar as particularidade do antisssemitismo e do Holocausto. Mas perceber que sociedades capazes de recordar seus próprios traumas também podem desenvolver estruturas que reproduzem a violência contra outros povos. Foram mais de 6 milhões de judeus assassinados – um já teria sido o bastante. Da mesma forma, foram 73 mil palestinos assassinados – um já teria sido o bastante.
Não quero, com isso, negar o direito de Israel de se defender de organizações terroristas, mas o direito de defesa não concede a um Estado autorização para dirigir seu poderio militar contra populações civis. O documentário não está interessado em explorar Israel, nem a responsabilidade civil, mas os mecanismos que normalizam a destruição de vidas civis. Voltando ao parágrafo anterior, o pior, pelo menos me sinto assim, é que depois de assistir a NAZA, as nossas vidas continuarão como se nada houvesse acontecido, quer dizer, como se não houvesse crianças morrendo diariamente pelas ações de um Estado terrorista. Não sou apenas eu que considera isso, mas o próprio Netanyahu quando escreveu a sua definição de terrorismo em um livro e que se amolda, perfeitamente, a todas ações descritas pelos informantes.
Premiado com o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza e aclamado com uma ovação de 25 minutos, NAZA utiliza a escuridão como reflexo da nossa própria humanidade. É um filme difícil de assistir, mas é parte de um convite de confrontar uma realidade que, para continuar existindo, depende também da nossa capacidade de desviar o olhar.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


