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Maria Vitória

Classificado como 3.5 de 5

Maria Vitória

2026

114 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Mário Patrocínio

O fogo que destrói também pode libertar

Em Maria Vitória, primeiro longa-metragem de ficção do português Mário Patrocínio, a adolescente-título precisa aprender a defender o próprio espaço em uma comunidade rural onde as expectativas familiares parecem determinar os limites de sua existência. Goleira de uma equipe juvenil masculina, Maria Vitória (Mariana Cardoso) treina sob a orientação rigorosa do pai, Nacho (Miguel Borges), com um sonho de se tornar uma atleta profissional. A rotina é atrapalhada pelo retorno do irmão mais velho, Bruno (Miguel Nunes), que deixou a aldeia após o incêndio que matou a mãe dos dois, para também poder viver sua sexualidade. A presença desestabilizadora do irmão e a proximidade de uma partida decisiva obrigam Maria Vitória a confrontar a autoridade paterna e a reconhecer desejos que até então não conseguia expressar.

Embora o patriarcado e machismo sejam dimensões evidentes da narrativa, Patrocínio evita tornar o tema demasiadamente ilustrativo ou os homens em personagens maniqueístas. Antes de tudo, Nacho é um homem traumatizado, que precisou cuidar da filha depois de perder a esposa, mas não aprendeu a lidar com a dor do luto nem a demonstrar afeto. A tentativa de proteger a filha se confunde com o desejo de controlar seu futuro. Bruno, por sua vez, retorna carregando as marcas de traumas mal resolvidos e atitude para desafiar a autoridade paterna, inclusive instigando a irmã a experimentar a vida. Em outras palavras, a família é constituída por personagens que procuram formas diferentes de sobreviver à mesma ausência, enquanto incapazes de compreender o que os outros estão passando.

Essa abordagem impede que Maria Vitória se limite a opor a personagem-título dos homens que tentam cercear a sua liberdade – de forma direta no pai ou indireta no irmão. As intenções de cada personagem são nobres, mas é a dificuldade de reconhecer que o amor também pode sufocar que cria os atritos. Nacho acredita saber o que é melhor para a filha, e não deixa nenhum espaço para a escolha dela. Bruno reabre uma ferida familiar e incentiva a irmã a viver a vida, embora o excesso de liberdade termine transformando-se em displicência. Já para Maria Vitória, amadurecer e emancipar-se significam perceber que obedecer não é uma demonstração de amor e que corresponder às expectativas alheias não garante a própria felicidade, muito menos a própria identidade.

O futebol oferece ao filme uma metáfora expressiva nesse sentido. A goleira ocupa uma posição singular no jogo, já que o acompanha a distância, “presa” sob as balizas, enquanto tenta impedir o avanço dos adversários. Maria Vitória vive sob uma lógica semelhante. Ela treina para proteger o gol e a si mesma das pressões familiares e sociais, ou das emoções e desejos inerentes ao amadurecimento. Sua presença é determinada pela posição, diferentemente dos companheiros de time (todos homens), livres para correr por todo o campo. Para piorar, a rotina de treinamento para alcançar a perfeição não é aplicada aos colegas de time, para quem o treino é mais diversão.

O trabalho de Patrocínio com o espaço reforça essa sensação de confinamento. A aldeia remota da Serra da Estrela é um ambiente que, verdadeiramente, reflete a melancolia e o isolamento dos personagens através da fotografia plástica de Pedro J. Márquez. Por exemplo, enquanto Maria corre pela floresta, o tronco das árvores parecem barras de uma prisão expressionista. Essa comunidade ainda favorece a conversação de costumes, preconceitos e expectativas, também reproduzidos imagética ou simbolicamente.

O melhor desses símbolos é o fogo. O incêndio que matou a mãe de Maria Vitória continua aceso o tempo inteiro. Inicialmente, diante do helicóptero que tenta enfrentá-lo, representa uma destruição irreversível e que inaugura uma cratera emocional dentro da família. E depois, retorna como imagem traumática, inclusive no pesadelo com as luvas de futebol em chamas. Entretanto, o fogo não permanece restrito à destruição. Em uma das imagens mais sugestivas do filme, diversas mulheres se reúnem em torno de uma fogueira – Retrato de uma Jovem em Chamas veio imediatamente à mente. A composição evoca um ritual coletivo, uma reunião de ‘bruxas”, na qual, cercada por mulheres, Maria atravessa uma espécie de batismo de fogo. O trauma não foi apagado, embora possa ser ressignificado.

A cena também amplia a dimensão coletiva da emancipação. Maria Vitória não conquista a sua voz apenas por meio de um confronto individual com o pai ou de uma vitória esportiva – na realidade, jamais sabemos ao certo o resultado do jogo decisivo. Ela conquista a voz primeiramente encontrando-a dentro de si. Isso me leva a uma reflexão.

Há muitos filmes sobre amadurecimento, que os estadunidenses chamam de coming of age, mas realmente todo drama humano pode ser interpretado como um amadurecimento combinado com a perda da inocência. Crescer significa encontrar a própria voz e aprender a enfrentar obstáculos para os quais não estávamos inteiramente preparados. E todo drama humano é, de certo modo, sobre crescer, afinal, este não está restrito à idade. Nacho amadurece. Bruno amadurece. Maria Vitória também, quando alcança a liberdade, mesmo diante de um ambiente no qual está cercada por homens.

A aldeia de Maria Vitória pode parecer distante, mas seus conflitos pertencem ao cotidiano de muitas famílias, dando à narrativa seu caráter universal. As cores contidas, a interpretação introspectiva de Mariana Cardoso e a sensação de aprisionamento alcançado pela fotografia ajudam a compor um universo cênico em que a emoção não vem fácil. E quando Maria Vitória começa a reivindicar o direito de sentir e, depois, decidir, o filme encontra uma capacidade de dialogar com qualquer espectador sem depender do apagamento de sua especificidade portuguesa.

Maria Vitória teve estreia nacional na Mostra Expectativa do Festival do Rio 2026.

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1 comentário em “Maria Vitória”

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