O fogo que destrói também pode libertar
Em Maria Vitória, primeiro longa-metragem de ficção do português Mário Patrocínio, a adolescente-título precisa aprender a defender o próprio espaço em uma comunidade rural onde as expectativas familiares parecem determinar os limites de sua existência. Goleira de uma equipe juvenil masculina, Maria Vitória (Mariana Cardoso) treina sob a orientação rigorosa do pai, Nacho (Miguel Borges), com um sonho de se tornar uma atleta profissional. A rotina é atrapalhada pelo retorno do irmão mais velho, Bruno (Miguel Nunes), que deixou a aldeia após o incêndio que matou a mãe dos dois, para também poder viver sua sexualidade. A presença desestabilizadora do irmão e a proximidade de uma partida decisiva obrigam Maria Vitória a confrontar a autoridade paterna e a reconhecer desejos que até então não conseguia expressar.
Embora o patriarcado e machismo sejam dimensões evidentes da narrativa, Patrocínio evita tornar o tema demasiadamente ilustrativo ou os homens em personagens maniqueístas. Antes de tudo, Nacho é um homem traumatizado, que precisou cuidar da filha depois de perder a esposa, mas não aprendeu a lidar com a dor do luto nem a demonstrar afeto. A tentativa de proteger a filha se confunde com o desejo de controlar seu futuro. Bruno, por sua vez, retorna carregando as marcas de traumas mal resolvidos e atitude para desafiar a autoridade paterna, inclusive instigando a irmã a experimentar a vida. Em outras palavras, a família é constituída por personagens que procuram formas diferentes de sobreviver à mesma ausência, enquanto incapazes de compreender o que os outros estão passando.
Essa abordagem impede que Maria Vitória se limite a opor a personagem-título dos homens que tentam cercear a sua liberdade – de forma direta no pai ou indireta no irmão. As intenções de cada personagem são nobres, mas é a dificuldade de reconhecer que o amor também pode sufocar que cria os atritos. Nacho acredita saber o que é melhor para a filha, e não deixa nenhum espaço para a escolha dela. Bruno reabre uma ferida familiar e incentiva a irmã a viver a vida, embora o excesso de liberdade termine transformando-se em displicência. Já para Maria Vitória, amadurecer e emancipar-se significam perceber que obedecer não é uma demonstração de amor e que corresponder às expectativas alheias não garante a própria felicidade, muito menos a própria identidade.
O futebol oferece ao filme uma metáfora expressiva nesse sentido. A goleira ocupa uma posição singular no jogo, já que o acompanha a distância, “presa” sob as balizas, enquanto tenta impedir o avanço dos adversários. Maria Vitória vive sob uma lógica semelhante. Ela treina para proteger o gol e a si mesma das pressões familiares e sociais, ou das emoções e desejos inerentes ao amadurecimento. Sua presença é determinada pela posição, diferentemente dos companheiros de time (todos homens), livres para correr por todo o campo. Para piorar, a rotina de treinamento para alcançar a perfeição não é aplicada aos colegas de time, para quem o treino é mais diversão.
O trabalho de Patrocínio com o espaço reforça essa sensação de confinamento. A aldeia remota da Serra da Estrela é um ambiente que, verdadeiramente, reflete a melancolia e o isolamento dos personagens através da fotografia plástica de Pedro J. Márquez. Por exemplo, enquanto Maria corre pela floresta, o tronco das árvores parecem barras de uma prisão expressionista. Essa comunidade ainda favorece a conversação de costumes, preconceitos e expectativas, também reproduzidos imagética ou simbolicamente.
O melhor desses símbolos é o fogo. O incêndio que matou a mãe de Maria Vitória continua aceso o tempo inteiro. Inicialmente, diante do helicóptero que tenta enfrentá-lo, representa uma destruição irreversível e que inaugura uma cratera emocional dentro da família. E depois, retorna como imagem traumática, inclusive no pesadelo com as luvas de futebol em chamas. Entretanto, o fogo não permanece restrito à destruição. Em uma das imagens mais sugestivas do filme, diversas mulheres se reúnem em torno de uma fogueira – Retrato de uma Jovem em Chamas veio imediatamente à mente. A composição evoca um ritual coletivo, uma reunião de ‘bruxas”, na qual, cercada por mulheres, Maria atravessa uma espécie de batismo de fogo. O trauma não foi apagado, embora possa ser ressignificado.
A cena também amplia a dimensão coletiva da emancipação. Maria Vitória não conquista a sua voz apenas por meio de um confronto individual com o pai ou de uma vitória esportiva – na realidade, jamais sabemos ao certo o resultado do jogo decisivo. Ela conquista a voz primeiramente encontrando-a dentro de si. Isso me leva a uma reflexão.
Há muitos filmes sobre amadurecimento, que os estadunidenses chamam de coming of age, mas realmente todo drama humano pode ser interpretado como um amadurecimento combinado com a perda da inocência. Crescer significa encontrar a própria voz e aprender a enfrentar obstáculos para os quais não estávamos inteiramente preparados. E todo drama humano é, de certo modo, sobre crescer, afinal, este não está restrito à idade. Nacho amadurece. Bruno amadurece. Maria Vitória também, quando alcança a liberdade, mesmo diante de um ambiente no qual está cercada por homens.
A aldeia de Maria Vitória pode parecer distante, mas seus conflitos pertencem ao cotidiano de muitas famílias, dando à narrativa seu caráter universal. As cores contidas, a interpretação introspectiva de Mariana Cardoso e a sensação de aprisionamento alcançado pela fotografia ajudam a compor um universo cênico em que a emoção não vem fácil. E quando Maria Vitória começa a reivindicar o direito de sentir e, depois, decidir, o filme encontra uma capacidade de dialogar com qualquer espectador sem depender do apagamento de sua especificidade portuguesa.
Maria Vitória teve estreia nacional na Mostra Expectativa do Festival do Rio 2026.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



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