A tecnologia que promete devolver aquilo que o luto nos tirou
No drama de ficção científica de Miriam Louise Arens e Mitchell Arens, a realidade virtual se torna um refúgio para uma família devastada pela perda, enquanto a encenação procura aproximar fantasia, memória e experiência emocional.
A tecnologia não é inerentemente boa nem ruim; não na maior parte do tempo. Seus efeitos dependem dos usos que fazemos dela e da maneira como nos relacionamos com aquilo que oferece. É a partir dessa premissa que Parasita do Coração (Heartworm), a ficção científica escrita e dirigida pelo casal Miriam Louise Arens e Mitchell Arens, imagina um futuro não tão distante no qual a denominada NeuraLife permite acessar e criar realidades virtuais construídas com auxílio de inteligência artificial. Para algumas pessoas, trata-se de uma ferramenta de exploração ou fantasia; para outras, uma oportunidade de escapar de traumas emocionais. É esse segundo uso que aproxima a tecnologia do luto e transforma uma ficção científica em um drama sobre as dificuldades de permanecer presente quando a realidade parece ser insuportável.
Avena (Amber Gray) e Mark (Juan Riedinger) perderam a filha, Zamira (Ellie Reine), e tentam encontrar maneiras distintas de sobreviver à ausência. Enquanto Avena procura compreender e processar a própria dor e preservar o que ainda resta de sua família, cada vez mais Mark mergulha progressivamente na NeuraLife, em busca de uma realidade na qual a filha parece continuar existindo. Ela aceita o luto, mesmo que a duras penas; ele tem medo de enfrentá-la. A diferença entre duas maneiras de lidar com uma experiência para a qual não existe solução definitiva é o conflito central da narrativa, ou seja, conviver com aquilo que não pode ser modificado nem consertado ou construir uma alternativa que permita adiar indefinidamente a experiência plena da dor.
A narrativa convida o espectador a fazer aquilo que seus personagens encontram tanta dificuldade em realizar: permanecer presente. O luto não desaparece com o tempo – a minha mãe, há quase 40 anos chorar a morte do marido -, tampouco se resolve por meio de uma substituição virtual – não faltam exemplos cinematográficos em que isso deu errado. É preciso aprender a viver com a sua presença mas sem permitir que a dor destrua também os vínculos que sobreviveram a ela. Assim, a NeuraLife representa uma possibilidade sedutora. Se uma tecnologia consegue reconstruir ambientes, memórias e até mesmo a presença de alguém que morreu, por que aceitar a perda, por que aceitar a realidade em vez da virtualidade? O problema é que a promessa de conforto pode se transformar em uma prisão, um isolamento perpétuo, afastando aqueles ainda vivos.
O que torna a NeuraLife perigosa é a capacidade de oferecer algo desejável, não algum tecnocrata tentando roubar nossos dados nem inteligências artificiais tornando-se senciente. Neste sentido, Mark se refugia em um mundo virtual porque não aprendeu a lidar com a ausência da filha. A tecnologia é só o meio de explorar essa vulnerabilidade. Quanto mais convincente o mundo virtual, mais distante e difícil fica aceitar o mundo real. Aquilo que, inicialmente, parece aliviar o sofrimento passa a comprometer a possibilidade de enfrentá-lo. A experiência que promete preencher o vazio pode acabar se alimentando dele, igual o título do filme.
A estrutura da narrativa articula memória, presente, realidade e simulação sem demarcar fronteiras sempre claras entre esses instantes. Em determinados momentos, elementos como maquiagem, penteados e objetos cênicos ajudam a nos orientar a leitura; em outros, a encenação permite que as fronteiras fiquem borradas. Ainda assim, a estrutura não está interessada em transformar a confusão em um quebra-cabeça destinado a exibir a astúcia e inteligência dos realizadores. A mistura de temporalidades e realidades funciona como um instrumento de aproximação emocional, não de distanciamento intelectual. Mesmo quando estamos desorientados, dá pra reconhecer o estado emocional de Avena e Mark e compreender o que as move. Existe uma continuidade emocional para além da estrutura que é fragmentada e fugidia.
Já a tecnologia que sustenta o conflito permanece, em boa medida, à margem, sem que seu funcionamento seja explorado de forma particularmente detalhada. Para quem espera uma ficção científica interessada em construir um futuro ou uma tecnologia complexas, Miriam e Mitchell irão frustrá-lo. A presença da tecnologia é mais humana e psicológica, em como interfere nos relacionamentos dos personagens uns com os outros, e com a própria memória, o desejo e a ausência. A NeuraLife é o meio, não o fim da narrativa.
Em contrapartida, a fantasia encontra uma expressão mais lúdica. O filme não constrói um universo de alta fantasia, mas permite que os elementos corriqueiros com que Zamira brincava adquiram uma função simbólica. Um galho de árvore, por exemplo, assume algo da função de uma varinha de condão. Em outro momento, no mundo real (acho), Avena deixa a casa coberta em uma manta, em uma imagem que sugere a figura da Rainha Navalla, aproximando-a da personagem sobre a qual Zamira falava e tudo o que isso simboliza.
Essa capacidade de transformação depende do trabalho de câmera e da decupagem. Mitchell, que é também o diretor de fotografia, alterna enquadramentos estáveis e instáveis com a câmera na mão, planos estáticos e movimentos precisos, estabelecendo imagens austeras e formalmente admiráveis. Aos poucos, os elementos fantásticos e virtuais se integram ao cotidiano sem exigir uma ruptura formal ilustrativa.
As sessões de terapia em grupo ampliam a discussão ao apresentar o luto como uma experiência individual que também depende da presença dos outros. Avena procura um espaço de elaboração, enquanto Mark participa sem conseguir participar de todo o processo. O contraste entre eles não oferece uma fórmula, apenas evidencia experiências distintas de pessoas que compartilham o mesmo luto. Assim, a tecnologia termina agravando essa distância, em vez de aproximar o casal por meio da memória e do presente. A tentativa de recuperar Zamira ameaça tornar incompatíveis as realidades em que cada um escolheu viver.
Parasita do Coração é competente ao utilizar a ficção científica para abordar uma questão recorrente no cinema melodramático. Os diretores, em vez de condenar indiscriminadamente a tecnologia ou celebrar a capacidade humana de inventar novos mundos, estão mais atentos em reconhecer a atratividade de simulações – que, inclusive, explicam o estado da pós-verdade hoje em dia – do que em procurar alternativas na realidade. Para eles, a imaginação pode nos proteger, oferecer consolo ou criar formas de elaborar a dor, mas também pode se converter em uma fuga da vida, uma despedida precoce. A tecnologia imaginada por Miriam Louise Arens e Mitchell Arens pode até pertencer a um futuro próximo, que está bem aí na esquina, mas o drama é presente. Apesar da dor, ainda existe uma vida que merece ser vivida.
Parasita do Coração foi exibido na Mostra Expectativa do Festival do Rio.

The Technology That Promises to Give Back What Grief Has Taken Away
In Miriam Louise Arens and Mitchell Arens’s science-fiction drama, virtual reality becomes a refuge for a family devastated by loss, while the film’s visual storytelling brings fantasy, memory, and emotional experience closer together.
Technology is not inherently good or bad—not most of the time, anyway. Its effects depend on how we use it and how we relate to what it offers. Starting from this premise, Heartworm, the science-fiction film written and directed by Miriam Louise Arens and Mitchell Arens, imagines a not-so-distant future in which a technology called NeuraLife allows people to access and create virtual realities powered by artificial intelligence. For some, it is a tool for exploration and fantasy; for others, an opportunity to escape emotional trauma. It is this second use that brings technology into the realm of grief, turning a science-fiction premise into a drama about the difficulty of staying present when reality feels unbearable.
Avena (Amber Gray) and Mark (Juan Riedinger) have lost their daughter, Zamira (Ellie Reine), and struggle to find different ways of surviving her absence. While Avena tries to understand and process her pain and preserve what remains of her family, Mark increasingly immerses himself in NeuraLife, searching for a reality in which his daughter seems to still exist. She accepts grief, however painfully; he is afraid to confront it. The central conflict lies in these two different ways of dealing with an experience for which there is no definitive solution: learning to live with something that cannot be changed or fixed, or constructing an alternative that allows one to indefinitely postpone fully experiencing the pain.
The narrative invites viewers to do what its characters find so difficult: remain present. Grief does not disappear with time—my mother has been mourning her husband’s death for almost 40 years—nor can it be resolved by means of a virtual substitute. Cinema offers no shortage of examples of how badly that can go. We must learn to live with grief’s presence without allowing pain to destroy the bonds that have survived it. In this sense, NeuraLife represents a seductive possibility. If technology can reconstruct environments and memories, and even recreate the presence of someone who has died, why accept the loss? Why accept reality instead of virtuality? The problem is that the promise of comfort can become a prison, a form of perpetual isolation that distances us from those who are still alive.
What makes NeuraLife dangerous is its ability to offer something desirable, not some technocrat trying to steal our data or artificial intelligences becoming sentient. Mark retreats into a virtual world because he has not learned how to cope with his daughter’s absence. Technology is simply the means through which that vulnerability is exploited. The more convincing the virtual world becomes, the harder it is to accept the real one. What initially appears to alleviate suffering eventually undermines the possibility of confronting it. The experience that promises to fill the void may end up feeding on it, much like the film’s title suggests.
The narrative brings together memory, the present, reality, and simulation without always drawing clear boundaries between these different moments. At times, elements such as makeup, hairstyles, and props help orient our understanding; at others, the staging allows those boundaries to blur. Nevertheless, the film is not interested in turning confusion into a puzzle designed to showcase the filmmakers’ cleverness and intelligence. The intermingling of different temporalities and realities serves as a means of fostering emotional engagement rather than intellectual distance. Even when we lose our bearings, we can recognize Avena and Mark’s emotional states and understand what drives them. There is an emotional continuity that persists beneath a fragmented and elusive structure.
The technology at the heart of the conflict, meanwhile, remains largely in the background, without its workings being explored in any particularly detailed way. Viewers expecting a science-fiction film that builds a complex future or a sophisticated technological system may be disappointed by Miriam and Mitchell’s approach. Technology matters more here as a human and psychological force, through the way it affects the characters’ relationships with one another and with memory, desire, and absence. NeuraLife is the means, not the end, of the narrative.
Fantasy, by contrast, takes on a more playful form. The film does not construct an elaborate high-fantasy universe, but it allows the ordinary objects Zamira used to play with to acquire symbolic significance. A tree branch, for instance, takes on something of the function of a magic wand. In another scene, seemingly set in the real world (I think), Avena leaves the house wrapped in a blanket, evoking the figure of Queen Navalla and connecting her to the character Zamira used to talk about and everything she symbolizes.
This transformative quality depends on the cinematography and the film’s shot composition. Mitchell, who also serves as cinematographer, alternates between stable and unstable framing, handheld camerawork, static shots, and precise camera movements, creating austere and formally striking images. Gradually, the fantastic and virtual elements become integrated into everyday life without requiring an overt stylistic break.
The group therapy sessions expand the discussion by presenting grief as an individual experience that also depends on the presence of others. Avena seeks a space in which to process her loss, while Mark attends without being able to fully engage in the process. The contrast between them offers no formula for coping with grief; it simply highlights the different experiences of people who share the same loss. Technology ultimately deepens this distance rather than bringing the couple closer through their shared memories and present circumstances. Their attempt to recover Zamira threatens to make the realities they have each chosen to inhabit incompatible with one another.
Heartworm effectively uses science fiction to address a recurring subject in melodrama: the loss of a loved one. Rather than indiscriminately condemning technology or celebrating humanity’s ability to invent new worlds, the directors seem more interested in recognizing the appeal of simulations—which also helps explain the current state of post-truth politics—than in seeking alternatives in reality. Imagination can protect us, offer consolation, and help us find ways to process pain, but it can also become an escape from life, an early farewell. The technology imagined by Miriam Louise Arens and Mitchell Arens may belong to the near future, but that future is just around the corner. The drama, however, is already here. Despite the pain, there is still a life worth living.
Heartworm screened in the Expectativa section of the Rio Film Festival.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

