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O Outro Lado das Redes

Classificado como 3 de 5

O Outro Lado das Redes

2026

113 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Aaron Sorkin

A liberdade de expressão transformada em produto, ou como as democracias morrem

Uma mulher branca, embriagada, está parada no acostamento de uma rodovia e é abordada por uma dupla de policiais não brancos, uma que desafia o estereótipo no momento em que a policial latina revela ser a supervisora do policial negro. Eles obedecem a todos os protocolos de abordagem, mas a mulher retira o celular do bolso e, não muito diferente do gesto de apontar uma arma de fogo à cabeça dos policiais, começa a filmar e a ameaçá-los com a publicação das imagens nas redes sociais. Como nós todos, a personagem pode transformar uma experiência em um espetáculo para as redes sociais, um procedimento rotineiro em um vídeo sensacionalista e que, como brasa, mantém a chama do engajamento social de grupos de extrema direita. A promessa de que as redes sociais seriam um tipo de ágora contemporânea tornou-se o maior pesadelo das democracias, tema debatido por Aaron Sorkin neste O Outro Lado das Redes.

O roteiro de sua autoria acompanha os capítulos finais do jornalismo impresso, e nossa memória viaja meio século antes, quando Bob Woodward e Carl Bernstein caminhavam agitados pelo saguão do The Washington Post, desvendando as relações espúrias de Richard Nixon que conduziriam à sua renúncia, retratado no clássico Todos os Homens do Presidente. Agora, as reuniões de redação não têm a mesma energia nem os debates acalorados de antigamente, muito menos os sonhos acadêmicos do jornalismo capaz de emparedar o poder. Quando o renomado jornalista investigativo Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) chega à redação do The Wall Street Journal para investigar o Facebook, apenas há desânimo e até mesmo indiferença. Ainda assim, Horwitz é capaz de fisgar a analista Frances Haugen (Mikey Madison, de Anora) como informante para descobrir até mesmo o que não procurava sobre o Facebook, e criar uma série de reportagens investigativas denominada The Facebook Files.

Mikey Madison que, ironicamente, não tem redes sociais, é a intérprete perfeita para a informante pelo misto de inadequação social combinado com arrogância intelectual. Quando afirma, mais de uma vez, que quer ajudar o Facebook, ao invés de prejudicá-lo, nós acreditamos nela, embora a cada repetição, Frances acredite menos que seja possível ajudar a implementar a sua visão igualmente idealista das redes sociais. Frances trabalha em uma equipe denominada Integridade Cívica, cuja missão deveria ser garantir que as decisões comerciais da empresa atendam aos melhores interesses da sociedade, embora gagueje ao mencionar “democracia”. É por meio dela que aprendemos o que são as Interações Sociais Significativas (ISS) e como essa mudança radical na plataforma contribuiu para modificar seu funcionamento.

Especialmente em se tratando da liberdade de expressão, um termo que muitos mal sabem definir com clareza e que se tornou uma moeda ou um chavão para que pessoas que detestam a liberdade imponham sua pauta. A bem da verdade, o compartilhamento do ódio decorrente da mudança de prioridade do engajamento não é diferente do que já vimos na televisão, como no também clássico Howard Beale de Rede de Intrigas. O ato de transformar a indignação em audiência sempre foi um negócio rentável, e até demorou para que as redes sociais se alertassem para isso. Hoje em dia, a maior diferença é a escala, velocidade e capacidade de personalizar o estímulo, fazendo com que cada usuário receba aquilo que tem maior probabilidade de mantê-lo (odiando) diante da tela. 

Aliás, após citar Todos os Homens do Presidente e Rede de Intrigas, dá pra notar que Sorkin rouba dos melhores filmes de jornalismo, e O Informante é mais um deles, em como emprega uma música erudita como acompanhamento de uma cena tensa, alternada entre os núcleos da narrativa em um momento climático. Esse cinema jornalístico é a referência, bem como uma muleta narrativa, pois se Sorkin é capaz de me fazer recordar filmes melhores, inscritos na história, ele é incapaz de tornar seu filme igualmente memorável.

Ele pode ser um roteirista habilidoso, mas é um diretor medíocre. A cena em que apresenta Wunmi Mosaku como uma especialista em crises é embaraçosa pela quantidade de informações que precisa despejar… e que ainda são redundantes, pois um flashback estabelece que Zuckerberg já havia conhecido a personagem antes. A exposição, tão eficiente quando é distribuída por diálogos ágeis e conflitos bem construídos, aqui é a obrigação que o filme precisa cumprir para ser fazer compreender pelo mesmo público que teve a cognição afetada pelas redes sociais. Sorkin é competente com palavras escritas, não com palavras visuais; sua visão de cinema é limitada e, por mais competente que sejam os departamentos da produção, a narrativa é apenas protocolar.

Algo parecido acontece com Mark Zuckerberg, (re)apresentado – ao menos após a atuação marcante de Jesse Eisenberg em A Rede Social – depois de Frances e Jeff, preparado para mais uma sabatina parlamentar. À primeira vista, parece indiferente às consequências de suas decisões; mas, na prática, o filme o retrata como um homem capaz de encarar a responsabilidade social como um problema de relações públicas. Não é tão sociopata como David Fincher havia sugerido, nem como as notícias sobre o funcionamento do Facebook nos levam a imaginar, porque Jeremy Strong parece compreendê-lo erroneamente. Claro, entendemos que Zuckerberg não gosta de ser criticado socialmente, ainda mais se esposa e filho puderem ler comentários negativos a seu respeito, mas o ator lhe empresta uma sensibilidade e um olhar marejado que não combina com esse sujeito. Humanizá-lo não significa torná-lo sensível.

Ele é inadequado, mas isso não significa que seja incapaz de compreender os mecanismos de poder dos quais se beneficia. Strong confunde a dificuldade de interação ou mesmo o complexo de inferioridade com uma espécie de fragilidade emocional, quando o filme precisa mostrar a distância entre a vulnerabilidade pessoal e o poder institucional. Ele acaba engolido pelo personagem de Bill Burr, que funciona como uma espécie de grilo falante de Pinóquio, verbalizando as verdades que os demais ao redor de Zuckerberg hesitam em dizer. É um dos problemas do filme, inclusive, que o conflito moral seja explicado por um personagem que parece existir somente para garantir que o espectador compreenda o que está em jogo. Para piorar mais, Zuckerberg parece menos vilão do que o executivo vivido por Billy Magnussen, cuja subserviência corporativa é desenhada com traços sociopatas mais evidentes.

“Todos temos voz, mas nem todos deveriam ter um microfone” é uma constatação lógica que, embora pareça um tico arrogante à primeira vista, também se torna necessária em um cenário em que fatos competem com opiniões, ou verdades com mentiras, e a participação pública é confundida com a obrigação de dar visibilizar igualmente qualquer discurso. A frase, contudo, contém uma lacuna que o filme não explora, o da moderação, que é a atividade que decide quem merece segurar o microfone. 

Pelo menos, Horwitz é um personagem interessante – apesar do intérprete. Ele é machista, e não se dá conta disso, tornando-o mais complexo do que se fosse somente o jornalista investigativo padrão. Sorkin também é, e isso não é tão bom assim. Na praia, quando Horwitz contesta o alarmismo de Frances e a interrompe, Sorkin introduz uma música no momento em que ele assume a posição de voz da sabedoria, enquanto Frances é consumida pela urgência, quase como se estivesse dizendo para o espectador quem está certo, quem está errado. Ao menos Frances não é reduzida à função de mártir, apesar de o roteiro nem sempre perceber as implicações do modo como a retrata no filme.

De todo modo, em que pese ser bastante inferior aos clássicos que homenageia, à matéria jornalística de Horwitz e ao sacrifício de Frances, O Outro Lado das Redes acerta em compreender que as plataformas não são meros espelhos da sociedade, mas que suas decisões comerciais interferem naquilo que vemos, discutimos ou acreditamos. Sorkin mastiga o quanto pode mastigar para vender a sua mensagem oportuna e contemporânea para quem gosta de narrativas edificantes em que os justos prosperam. A realidade não é bem assim. Para um filme que discute como podemos construir um espaço público em que a verdade tenha chance de competir contra mentira, desinformação ou espetáculo, talvez devesse confiar mais na capacidade do público de pensar criticamente em vez de pegá-lo na mão.

Ou talvez Sorkin não seja a melhor pessoa para segurar o microfone e contar essa história. Ao menos se houvesse moderação.

O Outro Lado das Redes estreia nos cinemas brasileiros 22 de outubro.


Freedom of Expression Turned into a Product, or How Democracies Die

A drunk white woman is standing on the shoulder of a highway when she is stopped by two non-white police officers, a pair whose presence challenges stereotypes from the outset when the Latina officer reveals that she supervises her Black colleague. They follow every protocol during the stop, but the woman pulls out her phone and, in a gesture not unlike pointing a gun at the officers’ heads, begins filming them and threatening to post the footage on social media. Like all of us, she can turn an experience into a spectacle for social media, transforming a routine traffic stop into a sensationalist video that, like an ember, keeps the flames of engagement burning among far-right groups. The promise that social media would become a kind of contemporary agora has turned into democracy’s worst nightmare, a subject explored by Aaron Sorkin in The Social Reckoning.

His screenplay follows the final chapters of print journalism, and our minds travel half a century into the past, when Bob Woodward and Carl Bernstein hurried through the lobby of The Washington Post, uncovering Richard Nixon’s corrupt connections that would eventually lead to his resignation, as depicted in the classic All the President’s Men. Today, newsroom meetings lack the energy and heated debates of the past, let alone the academic ideal of journalism as a force capable of cornering those in power. When acclaimed investigative journalist Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) arrives at The Wall Street Journal to investigate Facebook, he encounters little more than discouragement and even indifference. Nevertheless, Horwitz manages to win over analyst Frances Haugen (Mikey Madison, of Anora) as a source, uncovering things about Facebook he had not even been looking for and launching a series of investigative reports known as The Facebook Files.

Mikey Madison, who ironically has no social media accounts, is the perfect choice to play the whistleblower, combining social awkwardness with intellectual arrogance. When she insists, more than once, that she wants to help Facebook rather than harm it, we believe her, even as Frances herself grows less convinced with each repetition that she can help implement her equally idealistic vision of social media. Frances works on a team called Civic Integrity, whose mission should be to ensure that the company’s business decisions serve society’s best interests, although she stumbles over the word “democracy.” Through her, we learn what Meaningful Social Interactions (MSI) are and how this radical change in the platform’s priorities helped reshape the way it operates.

This is especially relevant when it comes to freedom of expression, a term many people can barely define clearly, yet one that has become a currency or a catchphrase for those who despise freedom to impose their agendas. In truth, the spread of hate resulting from the shift in engagement priorities is no different from what we have already seen on television, embodied by the equally iconic Howard Beale in Network. Turning outrage into an audience has always been a profitable business, and it took social media platforms long enough to wake up to the fact. Today, the difference lies in the scale, speed, and ability to personalize the stimulus, ensuring that each user receives whatever is most likely to keep them in front of the screen, stewing in hatred.

After invoking All the President’s Men and Network, it becomes apparent that Sorkin borrows from the best journalism films. The Insider is another example, particularly in the way it uses classical music to accompany a tense scene, intercutting between different narrative strands at a climactic moment. This tradition of journalistic cinema serves both as a point of reference and as a crutch. While Sorkin can remind me of better films that have earned their place in cinema history, he cannot make his own film equally memorable.

He may be a skilled screenwriter, but he is a mediocre director. The scene introducing Wunmi Mosaku as a crisis-management specialist is embarrassing in the sheer amount of information it has to dump on the audience. Much of it is redundant, too, since an earlier flashback establishes that Zuckerberg has already met the character. Exposition, so effective when distributed through snappy dialogue and well-constructed conflicts, becomes an obligation the film must fulfill to make itself understood by the very audience whose cognitive faculties social media has supposedly eroded. Sorkin is good with written words, not visual ones. His cinematic vision is limited, and regardless of how capable the production departments may be, the storytelling remains strictly by the book.

Something similar happens with Mark Zuckerberg, who is (re)introduced—at least after Jesse Eisenberg’s memorable performance in The Social Network—only after Frances and Jeff, as he prepares for yet another congressional hearing. At first glance, he seems indifferent to the consequences of his decisions, but the film ultimately portrays him as a man who treats social responsibility as a public-relations problem. He is not as sociopathic as David Fincher suggested, nor as the news about Facebook’s inner workings might lead us to imagine, because Jeremy Strong seems to misunderstand him. Of course, we understand that Zuckerberg dislikes being criticized in public, especially if his wife and children might read negative comments about him, but Strong gives him a sensitivity and a watery-eyed expression that do not suit the man. Humanizing someone does not mean making them sensitive.

Zuckerberg is socially awkward, but that does not mean he is incapable of understanding the mechanisms of power from which he benefits. Strong confuses difficulty interacting with others, or even an inferiority complex, with a kind of emotional fragility, when the film needs to show the distance between personal vulnerability and institutional power. He is ultimately swallowed up by Bill Burr’s character, who functions like Pinocchio’s Jiminy Cricket, voicing the truths that everyone else around Zuckerberg hesitates to express. This is one of the film’s problems: its moral conflict is explained by a character who seems to exist solely to ensure that the audience understands what is at stake. To make matters worse, Zuckerberg comes across as less of a villain than the executive played by Billy Magnussen, whose corporate subservience is drawn with more overtly sociopathic strokes.

“Everyone has a voice, but not everyone should have a microphone” is a logical observation that, although it may initially sound a little arrogant, has also become necessary in a landscape where facts compete with opinions, truths with lies, and public participation is confused with an obligation to give every form of speech equal visibility. The statement, however, contains a blind spot that the film fails to explore: moderation, the very process through which someone decides who deserves to hold the microphone.

At least Horwitz is an interesting character—despite the actor playing him. He is sexist and does not realize it, which makes him more complex than a standard investigative journalist. Sorkin is sexist, too, and that is not such a good thing. On the beach, when Horwitz challenges Frances’s alarmism and interrupts her, Sorkin introduces music just as Horwitz assumes the role of the voice of reason, as though he were telling the audience who is right and who is wrong. At least Frances is not reduced to the role of a martyr, even if the screenplay does not always grasp the implications of the way it portrays her.

Even so, despite being considerably inferior to the classics it pays homage to, to Horwitz’s actual reporting, and to Frances’s sacrifice, The Social Reckoning gets one thing right: social platforms are not merely mirrors of society. Their business decisions shape what we see, discuss, and believe. Sorkin chews over his message as much as possible to make it palatable to contemporary audiences who enjoy uplifting narratives in which the righteous prevail. Reality is not quite like that. For a film about how to build a public sphere in which truth has a chance to compete with lies, disinformation, and spectacle, perhaps Sorkin should trust the audience’s ability to think critically instead of holding its hand.

Or perhaps Sorkin is simply not the right person to hold the microphone and tell this story. At least, not without some moderation.

The Social Reckoning opens in Brazilian theaters on October 22.

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