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Um Pequeno Bom Soldado

Classificado como 5 de 5

Un bon petit soldat

2026

102 minutos

Classificado como 5 de 5

Diretor: Stéphane Brizé

Os recursos humanos, ou os humanos como recursos

Nunca havia pensado como o rosto de Alba Rohrwacher, para além de expressivo e marcante de um jeito enigmático, também carrega consigo contradições. Foi assistindo a Um Pequeno Bom Soldado (ou Un bon petit soldat), novo trabalho do francês Stéphane Brizé, que percebi como a atriz consegue transmitir, ao mesmo tempo, força e fragilidade, assertividade e vulnerabilidade. No papel de Carla, responsável pelo departamento de recursos humanos de uma companhia de seguros, ela precisa criar uma campanha publicitária que apresente a empresa como uma organização preocupada tanto com seus funcionários quanto com seus clientes. Continuo lembrando e pensando no rosto da atriz e em suas contradições.

Após O Valor de um Homem (2015), Em Guerra (2018) e Um Novo Mundo (2021), Brizé volta às entranhas do mercado de trabalho neoliberal, ao ambiente corporativista, para examinar as relações de poder em uma sociedade capitalista preocupada com números, e não com pessoas. Vincent Lindon, protagonista da trilogia anterior, agora interpreta Arnaud, o CEO da companhia onde trabalha Carla, um homem cuja mera presença parece dominar todos os ambientes que ocupa e cuja opinião – quase sempre expressa com crueldade racional – sufoca todas as dos demais, inclusive de Carla.

Ela chega à empresa com a missão de promover o bem-estar dos funcionários sem comprometer as metas de desempenho. O conflito surge quando ela descobre um caso de assédio moral envolvendo uma chefia que humilha uma subordinada, que, apesar de atingir os 100% da meta, está abaixo da média da equipe que trabalha acima dos indicadores. Este episódio expõe a contradição fundamental da linguagem corporativa. As empresas afirmam valorizar as pessoas, embora a única valorização com que se preocupem seja numérica e acionária. Carla deveria proteger os trabalhadores, mas também precisa responder à exigência de quem está acima dela na hierarquia. Seu cargo não lhe concede autonomia suficiente para transformar a organização; oferece, sim, uma posição desconfortável na qual ela precisa negociar os valores que acredita serem os corretos. E isso interfere em sua vida pessoal, ou na falta dela.

O filme desenvolve esse caráter da personagem por meio de uma encenação que parece confiná-la permanentemente ao trabalho ou ao deslocamento para ou do trabalho. Carla está no escritório, no metrô, em corredores empresariais ou diante de telas, comunicando-se com o filho, que está mal no colégio embora pareça ser um garoto sensível, o ex-marido e a irmã que vive nos Estados Unidos. As videochamadas tentam criar uma intimidade que a distância e a falta de tempo tornam cada vez mais difícil. Não há tempo, senão as horas dedicadas à empresa.

E o estresse ajuda a aflorar a contradição da personagem. Em determinado momento, Carla ouve, horrorizada, os registros do abuso moral sofrido por uma funcionária. Ela reconhece a violência e parece genuinamente incomodada com o comportamento de quem a praticou. No entanto, em outra situação, reproduz mecanismos semelhantes com o próprio filho, pressionando-o a corresponder às suas expectativas. O que ela rejeita como prática profissional é o meio com que pretende cobrar o filho, inclusive repetindo algumas das mesmas ofensas.

Essa contradição não transforma a personagem em uma hipócrita. Pelo contrário, evidencia como esses sistemas de poder típicos da sociedade neoliberal drenam o melhor de cada um de nós. As pessoas aprendem a reproduzir os comportamentos daqueles que as oprimem, muitas vezes acreditando que essa é a única maneira de sobreviver. Carla não precisa concordar integralmente com a lógica empresarial para colocá-la em prática. Ela internaliza a lógica empresarial na vida familiar.

Lindon é fundamental para esse mecanismo. Seu Arnaud monopoliza as cenas em que aparece, não apenas pelo carisma do ator, mas pela força com que ocupa o espaço e rebaixa todos ao redor. Os demais executivos existem só para concordar com ele ou se tornarem descartáveis. Brizé constrói, assim, uma hierarquia em que o poder não precisa ser explicado. Ele só se manifesta. Pode existir em um comentário humilhante, ou no medo de perder o emprego ou na obrigação de demonstrar concordância diante de decisões que viva alma ousaria questionar.

Mas é para o rosto de Rohrwacher que retorno. Em vários momentos, quando Carla aparece de perfil esquerdo, posicionada do lado direito do enquadramento, assume uma postura mais assertiva. Quando o perfil direito se apresenta, percebo maior vulnerabilidade. Não afirmo que essa diferença tenha sido uma intenção consciente de Brizé ou da atriz; trata-se de uma característica da fisionomia dela que notei pela primeira vez durante a sessão. Isso parece dialogar bem com Carla. É como se o filme reunisse dois rostos em uma mesma mulher, aquela que sobrevive diariamente no ambiente profissional e aquela que deixa escapar os sinais de fragilidade.

Carla tenta resilir. Mas não é capaz de suportar por muito tempo o meio. Ela se adapta, negocia, cede e continua. Aos poucos, porém, perde a capacidade de expressar aquilo que pensa, perde sua voz. Ela pode até participar da construção de uma imagem institucional que proclama o cuidado com as pessoas, criando inclusive o slogan da campanha, mas não consegue encontrar espaço para defender e verbalizar aquilo que essa mensagem deveria representar. Quando chega mais uma reunião, ela apenas permanece em silêncio. Esta me parece a conclusão coerente com uma personagem que não pôde, no fim das contas, decidir nada.

A riqueza humana que menciona é mesmo apenas recurso humano, e como recurso, facilmente substituível quando não atender mais as expectativas da empresa, não importa o tamanho da bolsa sob os olhos de uma trabalhadora, ou o estresse palpável no semblante da protagonista. Pessoas são apenas instrumentos de produtividade, e a humanidade que a empresa proclama reconhecer permanece subordinada aos interesses econômicos. Para piorar, Um Pequeno Bom Soldado ainda revela que levamos conosco esse sistema para além do trabalho, transformando as nossas vidas em um neoliberalismo infernal e interminável.

Imagino que Carla, em certo instante, talvez tenha pensado em se jogar da janela, como outra personagem já havia ameaçado fazer. Mas essa seria uma saída fácil demais para uma estrutura que continua funcionando mesmo após consumir aqueles que a alimentam.

Um Pequeno Bom Soldado está na Mostra Panorama Mundial do Festival do Rio 2026.

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