É primordial que insistamos em refletir sobre o papel de festivais e mostras de cinema como o 12º CineFest Votorantim. O foco do evento na exibição e no prestígio do curta-metragem é crucial para a continuidade da vida artística como um todo, dentro e fora das telas – cada filme realizado representa não apenas a expressão criativa de seu realizador, mas também a movimentação de uma engrenagem pertencente ao mercado de trabalho.
Como já trouxemos em matéria anterior, que destaca os curtas-metragens do 12º CineFest Votorantim que conectamos a partir do tema “do luto à luta” (que você pode ler aqui), a seleção exibiu filmes que dialogam entre si porque majoritariamente clamam pela resistência de algo.
Selecionamos aqui algumas obras cujas temáticas se conectam, por outro lado, pela metalinguagem: o diálogo estabelecido entre elas promove a reflexão da resistência do cinema e sua realização como um espaço, como cultura de um povo, ou ainda, como uma arte consumida pela passagem do tempo.
Se você é do interior de São Paulo, ou mesmo da capital, a presente edição do CineFest Votorantim, que se iniciou no dia 30 de outubro, acontece até 07 de novembro de 2026. Aproveite!
Entrevista com Fantasmas | dir. Lincoln Péricles
Existe um cinema que não existe. Essa é a definição que Entrevista com Fantasmas dá de si mesmo em sua sinopse. A arte que se faz presente, mas que não existe concretamente, que há, mas inexiste, é representada em três camadas interpretativas nessa obra de Lincoln Péricles: primeiro, por um jovem cineasta (interpretado pelo próprio Péricles) que filma imagens de forma aleatória em uma cidadezinha que visita a trabalho; segundo, pela mulher que ele encontra por acaso (interpretada por Lorena Zanetti), de aparência jovem, mas que afirma ser uma atriz centenária; e terceiro, pelo espaço onde essa mulher trabalha – uma loja de varejo situada no imóvel onde outrora funcionou um cinema.
Entrevista com Fantasmas é detentor de um humor levemente irônico e deliciosamente eficaz. O filme abre ao som de uma versão de Linkin Park no melhor estilo forró – como só a música brasileira é capaz de proporcionar – e se constrói a partir do breve diálogo entre duas figuras simbolicamente fantasmagóricas. A jovem centenária conta, casualmente, que já trampou com Marilyn Monroe ao longo de sua vasta carreira. Os fatos ilógicos – os trabalhos, a idade – nunca são recebidos com estranheza ou desconfiança pelo cineasta, mas com uma curiosidade muito própria, sobretudo porque surgem como uma banalidade rotineira: a passagem do tempo, que parece obedecer a regras particulares, é mais uma coisa que está ali, mas não existe.
O mais expressivo dos fantasmas é o próprio cinema transformado: o templo da arte, agora a serviço do capital, traz em seu rol de funcionários a artista que se deixou morrer para ser porta-voz de frente de loja – ossos do ofício da adaptação daquilo que está morto e virou fantasma, mas que segue resistindo.

Cinema sem Teto | dir. Denise Szabo
São Caetano do Sul, considerada a melhor cidade para se viver no Brasil por ostentar o IDH mais alto do país, carrega a contradição de, a despeito de tantos predicados, não possuir uma única sala de cinema de rua. Denise Szabo faz de Cinema sem Teto um relato e uma reivindicação pessoais sobre essa carência artística local. Colocando-se como narradora dessa análise afetiva, a diretora transita pelos espaços onde, antes da virada dos anos 2000, funcionavam os diversos cinemas que a cidade abrigava – o último cinema de rua encerrou as atividades em 1999.
Cinema sem Teto simboliza a lamentação pela morte dos cinemas de rua por meio de duas poltronas pertencentes ao último dos recintos extintos. Elas são posicionadas no espaço urbano como espectadoras desses lugares que hoje servem ao comércio. Cada antigo cinema observado funciona como um túmulo sobre o qual a diretora projeta, na tela, as datas de nascimento e morte.
Em que pese a simbologia e a homenagem sejam valiosas, Cinema sem Teto não consegue encontrar seu próprio objetivo, oscilando entre o relato pessoal e o posicionamento político sem se consolidar em nenhum desses caminhos. Transitar entre no meio do termo enfraquece a provocação e esvazia a emoção que esperamos sentir diante da intimidade. Há, quiçá, um certo tom de ingenuidade na abordagem que também finda por prejudicar a importância da temática, cuja urgência não se faz presente no filme.
Cinema sem Teto é sem dúvida uma obra afetuosa, mas que custa a organizar seus afetos em um clamor que seja, de fato, transformador e ressonante.
Um Certo Cinema Brasileiro | dir. Fábio Rogério
Por que o público brasileiro custa a gostar do cinema de seu próprio país? Por qual motivo se valoriza o estrangeiro em detrimento do produto artístico nacional? De onde vem a estranheza ao ouvir a própria língua falada nas telas? Essas são perguntas que permeiam frequentemente os estudos sobre o cinema brasileiro e que Um Certo Cinema Brasileiro, obra documental muito divertida e certeiramente política de Fábio Rogério, busca responder por meio do boca a boca diretamente estabelecido com o público em 1978, ano de estreia de A Dama do Lotação, clássico do drama erótico dirigido por Neville d’Almeida e estrelado por Sônia Braga.
Fábio Rogério faz das imagens de arquivo o material fílmico de seu curta-metragem. O diretor utiliza-se de entrevistas gravadas naquele mesmo ano com as pessoas que aguardavam nas enormes filas dos cinemas de rua para assistir a A Dama do Lotação. As perguntas da entrevistadora são diretas: “Você assiste ao cinema brasileiro? Gosta?”, “Por que veio assistir a A Dama do Lotação?” – além de outras ramificações que surgem a partir das respostas dadas pelos espectadores.
Um Certo Cinema Brasileiro extrai muito do pouco. O curta sabe aproveitar sobremaneira a riqueza do material que possui em mãos em seu limitado tempo de tela, criando não apenas reflexões que ultrapassam o filme e sua época – ao provocar as questões mais primárias sobre o tema -, mas também posicionando-se como um observador do moralismo hipócrita de um país em plena ditadura militar, uma sociedade que consome e busca o cinema erótico, mas que critica a produção nacional e colocá-la à margem.
É certo que essa hipocrisia gestada no período ditatorial reverbera até hoje na forma como a sociedade interpreta o seu próprio cinema: ao experienciar os males de um regime opressor, moldou-se um público instigado a olhar para fora, alienado da força do cinema nacional enquanto ferramenta de luta e resistência contra a censura.
Embora não trate especificamente dos fantasmas do cinema brasileiro, Fábio Rogério acaba por demonstrar, sem grandes intervenções no acervo e articulando a montagem de forma cirúrgica, que a verdadeira assombração a nos rondar ainda reside na incapacidade do país de se reconhecer na própria tela.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).



