Cerca de 60% do nosso corpo é composto por água. Diversas culturas associam esse elemento ao fluxo, ao movimento. O líquido que nos é vital também carrega memória consigo, como se transportasse, em suas moléculas, o DNA do ecossistema. Quando represada, seja em corpos ou em espaços, essa mesma água parece guardar a história de tudo aquilo que nela está submerso. E assim, toda a água de Feito Pipa carrega muito peso.
É a partir dessa metáfora sobre o peso da água que reflito sobre o filme eleito pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil no Oscar de 2027. Feito Pipa — um título cuja totalidade de sentido só pode ser plenamente experimentada em nosso país — começa explorando visualmente o conceito de leveza ao apresentar duas “pipas” completamente distintas: aquela que voa livre pelo céu e o caminhão que arrasta seu peso por estradas empoeiradas.
No filme, acompanhamos Gugu (Yuri Gomes), cuja criação pela avó, Dilma (Teca Pereira) — outra pipa avoada —, não permite que a heteronormatividade lhe tire a liberdade de se expressar. Sua vitalidade é corporal e se manifesta tanto em seus movimentos de dança quanto nos dribles durante as partidas de futebol. A autonomia que encontra dentro de casa, entretanto, não se estende plenamente ao mundo lá fora. O menino se vê obrigado a se defender dos ataques de seu rival no esporte e da desaprovação do pai, Batista (Lázaro Ramos), motorista do caminhão-pipa, às manifestações de sua autenticidade. Os planos fechados dentro de casa criam uma sensação de aconchego que contrasta com a amplitude do plano aéreo durante uma emboscada.


A distância entre pai e filho e os atritos entre ambos se tornam mais frequentes à medida que a necessidade de convivência e interação se impõe. As tentativas de Batista de se conectar com o filho fracassam porque ele não se permite compreender o universo de Gugu. Isso fica evidente quando repreende o uso de maquiagem, tenta vesti-lo à sua maneira ou se prende às convenções representadas pelas cores azul e rosa durante um chá revelação. É curioso observar que Batista tampouco compartilha do gosto do filho pelo futebol, justamente uma atividade frequentemente associada à masculinidade.
Dona Dilma apresenta sintomas cada vez mais avançados do Alzheimer, enquanto a água da barragem escoa e revela o pináculo de uma antiga igreja até então submersa. É como se toda a água daquela represa fosse formada pelas lágrimas derramadas pela perda da filha, mãe de Gugu, e agora se esvaísse junto com a memória de Dilma. Por outro lado, Batista também carrega consigo a dor da perda violenta do primeiro amor, represada no tanque de seu caminhão.
Diante dessa dinâmica de sofrimento, resistência e liberdade, envolvendo principalmente esses três personagens, fica difícil não deixar escorrer um pouco da água que carregamos nos olhos. Teca, mais uma vez, acessa minha própria história ao trazer para a tela a figura de uma avó amorosa diante da debilidade provocada por uma doença neurodegenerativa — ainda não superei sua atuação em Kasa Branca. Lázaro confere equilíbrio e complexidade a um pai cujo amor paterno esbarra em uma muralha de ressentimentos que o impede de acessar o universo do filho com a mesma facilidade com que se relaciona com a filha do segundo casamento. Yuri, por sua vez, é potência em gestos e olhares, principalmente quando tenta se reconectar com a avó ao som do clássico Time After Time, de Cyndi Lauper.
Gugu representa uma renovação da figura heroica de que o cinema necessita, superando tanto os Capitães Nascimento que tentam corrigir o mundo à sua maneira quanto os Lungas que carregam facões para se defender. Sua revolução está na insistência em ser quem se é. A fala “Não existe coisa de menino e coisa de menina” tem a força de um tsunami. E assim, o filme do cearense Allan Deberton consegue ser incrivelmente político simplesmente direcionando nosso olhar e nosso coração para o drama familiar de pessoas comuns.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.



