Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

O Filho da Puta

Classificado como 4 de 5

O Filho da Puta

2026

72 min

Classificado como 4 de 5

Diretor: Otto Guerra, Tania Anaya, Erica Maradona, Sávio Leite

Em que pese a legislação brasileira proteja, atualmente, todos os formatos familiares, dos unipessoais aos tradicionais, é certo que o modelo de estrutura familiar construído a partir do patriarcado, da heteronormatividade e da branquitude – composto por homem, mulher e filhos – desprivilegia socialmente qualquer diversidade. Somos bombardeados por imagens de famílias uniformes, tidas como ideais e perfeitas em todos os meios de comunicação, propaganda, mídias sociais e de entretenimento, de modo que, inconscientemente, não atender e não se encaixar nessas estruturas pode gerar uma frustração existencial, uma sensação de incompletude que jamais poderá ser suprida. 

Para além de uma reflexão sobre origens e ancestralidade (afinal, somos, no mínimo, frutos biológicos de outras pessoas e delas guardamos características), a ausência paterna é uma carência que permeia muitas vidas – pessoas que nasceram em famílias monoparentais e precisam preencher vazios, por vezes, impostos por essa estrutura dominante e opressora. É nessa busca que se fundamenta a divertida e tão brasileira animação O Filho da Puta, dirigida por Otto Guerra, Tania Anaya, Erica Maradona e Sávio Leite. 

Ismael (dublado por Gabriel Martins) é um jovem do sertão de Minas Gerais conhecido como ‘o filho da puta’ por ser filho da gerente do prostíbulo local, o Casa Rosa. Sua maior insatisfação é não conhecer o pai nem saber nada sobre ele, um fantasma que o persegue tão intensamente que o faz partir em sua busca. A pé, sem dinheiro, sob a aridez e o sol escaldante, ele segue as poucas pistas que descobre ao longo do caminho na companhia de seu cachorro, Bacalhau (dublado por Matheus Nachtergaele). 

O Filho da Puta (Imagem: divulgação)

Esse road movie sertanejo é animado com traços rabiscados como que a lápis e com poucas cores e de uma beleza soberba. Quando presentes, contudo, em tons mais vibrantes, como o vermelho ou o azul, revelam-se muito expressivos e diretos em suas simbologias: remetem ao sol e ao calor castigantes (com referências deliciosas a Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha), bem como à ideia de oposição representada pela figura paterna misteriosa, que seria, em tese, um pescador, um homem do mar e da umidade. 

As referências não se limitam à cinematografia. A presença do claudicante cachorro Bacalhau nessa empreitada faz fácil conexão com a cadela Baleia, de Vidas Secas (Graciliano Ramos), fiel companheira da família da literatura. No entanto, aqui, tendo como motor narrativo um humor desbocado e debochado contextualizado nas aventuras e no drama pessoal do protagonista, Bacalhau não só fala, como é compreendido pelos humanos, xinga e toma decisões, além de orientar e guiar o personagem do modo mais sarcástico possível 

Nesse lugar que, à primeira vista, parece desprovido de afeto por sua aridez, é no prostíbulo e nas mulheres que o habitam que se encontram as maiores doses de ternura e acolhimento. O Filho da Puta desconstrói não só o conceito de família tradicional como sinônimo de felicidade, mas também o de pertencimento, fazendo surgir dos socialmente excluídos – do vira-lata às ‘putas’ – a verdadeira essência de comunidade e humanidade. 

O Filho da Puta foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no Festival do Rio 2026, tendo sido selecionado para a Mostra Competitiva Contrechamp do Festival Internacional de Animação de Annecy em 2026.

Compartilhe

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar de:

Críticas
Thiago Beranger

Quilombo

Um épico pop preto e brasileiro esquecido pelo

Rolar para cima