Amadurecer não deveria demorar tanto
Eu sei que existem adultos iguais a Sprite, desempregado, com 25 anos, e que ainda mora na casa dos pais depois do término com a namorada. Como o cinema reflete a sociedade e humanidade, é somente natural que haja histórias como a de Sprite. Só não é o tipo de história que me agrada em um nível fundamentalmente subjetivo, já que este é o tipo de pessoa menos credenciada para ser um protagonista, desta obra escrita, dirigida e protagonizada por Martin Jauvat. Talvez um objeto do ridículo ou da ironia.
O dilema posto diante de Sprite é que precisa encontrar um emprego para agradar os seus pais, só que para fazê-lo precisa tirar a carteira de motorista e aprender a dirigir. E para ingressar na autoescola, precisa ter emprego, então começa a trabalhar no app Nettoyo, uma espécie de serviço de limpeza a domicílio para as pessoas que passaram a noite inteira farreando. Ele também obedece ao conselho da professora de direção, e decide investir na metodologia que dá nome ao filme, que facilita a locomoção dentro da cidade, dormindo na casa das mulheres em cujas casas passa a noite. Entre este ou aquele comentário interessante sobre a precarização do mercado de trabalho, sobre o comportamento social e familiar da geração Z, ou sobre o urbanismo das metrópoles, que afasta as pessoas dos centros urbanos em periferias distantes, cujo deslocamento é retratado repetitivamente pela direção, só uma abordagem trivial e condescendente, tingido em tons jocosos.

Em termo de uma história de amadurecimento tardio, a de Sprite investe na analogia do curso de direção como forma de ensinar-lhe a conduzir a própria vida, ou de obter agência sobre o seu ir e vir. A agência que lhe falta não é a capacidade de deslocar-se, mesmo em se tratando da cidade espaçada em que está, é afetiva e emocional mesmo. É onde entram as oportunidades em que Sprite aprenderá um tico a mais sobre si em contato com outras pessoas, que se tornam os instrumentos para seu amadurecimento. Ou objetos. Esta não é a primeira, nem será infelizmente a última vez em que rapazes imaturos aprendem a contatar as suas fragilidades em uma odisseia para lá de surreal, em que limpar a bagunça de uma festa não é apenas o ganha-pão, é a metáfora óbvia e imediata sobre colocar a casa em ordem.
Essa jornada é ainda prejudicada pela decisão estética contida na fotografia realizada por Vincent Peugnet: as cores expressivas e estouradas fabricam a atmosfera de faz de conta, até de uma fábula, que enfraquecem ainda mais uma narrativa frágil. Tudo tem um ar de brincadeira, de parque de diversões pintado com cores primárias ou povoado por personagens arquetípicos, em uma direção de arte artificial. Talvez esteja ranzinza pois aí pode ser onde habita a essência de autocrítica da comédia de amadurecimento, mas só pude ver um protagonista irritantemente imaturo, aprendendo a ser adulto uns 7, 8 anos atrasado.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



