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Amor Apocalipse

Classificado como 4 de 5

Amour apocalypse

2025

100 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: Anne Émond

Amor em tempo de apocalipse

Eu tenho a sensação de que alguns filmes foram talhados artesanalmente para mim, ou para cada um de nós que tenha acompanhado as notícias apocalípticas nas redes sociais e nos noticiários, e esteja ansioso com o amanhã. Inundações, terremotos, ou incêndios florestais, o calor extremo e o derretimento das calotas polares, e invernos jamais registrados, eventos para os quais a humanidade tem contribuído e que muito ou nada pode fazer a respeito para impedir o ponto de não retorno. Não importa que Adam, o protagonista de Peak Everything, tenha bons hábitos de consumo e de vida, e que tenha cuidado da natureza que o cerca enquanto odeia silenciosamente os SUVs que despejam ainda mais gases de efeito estufa na camada de ozônio, ele é incapaz de consertar sozinho o mundo e a angústia tem o impedido de viver.

… Nem que seja apenas para assistir ao apocalipse. Mas a narrativa escrita e dirigida pela canadense Anne Émond não é um drama, mas uma comédia romântica sobre pessoas como nós, dentro de uma sociedade que tem evoluído exponencialmente, sem nos dar tempo para que nós nos adaptemos às suas mudanças — da mesma forma, que o meio ambiente tem sido incapaz de se adaptar à ação humana. Anne joga com essa ideia de este ser um filme cringe, igual a seu personagem, cortando de uma cena de sexo para o rosto de cachorros virando o focinho para o lado como se não entendessem o que está acontecendo, ou cortando de um plano fechado em uma consulta psiquiátrica para o limpador de vidros em um plano aberto. O filme brinca com a expectativa que Adam tem da vida, e que remete ao cinema dos anos noventa, com os tempos atuais, criando humor no desacerto e estranhamento.

Um humor que não sufoca a melancolia de Adam que tem uma tristeza profunda dentro dele, desde a morte precoce da mãe, que pode não ter ocorrido da mesma maneira que lhe disse o pai, interpretado por Gilles Renaud. A relação dele com Adam é cômoda no ato de descartar os remédios receitados para o filho por não acreditar, ou não aceitar a alternativa psiquiátrica, mantendo uma mentalidade típica de um homem grosseiro do passado, incapaz de lidar com as emoções que a masculinidade, historicamente, repele e rechaça. Ainda assim, a direção de Anne é carregada de ternura e humanidade, daí o clichê não enfraquecer a relação pai e filho.

Mas melhor é a dele e Tina (Piper Perabo), uma atendente de telemarketing por quem Adam se apaixona e decide resgatar de uma tragédia. Eles são meio Bonnie e Clyde: a mulher frustrada com as escolhas seguras de vida realizadas, o casamento morno ou a maternidade que não a preenche, e ele impotente diante das mudanças climáticas, um jogo de opostos: ela, enquadrada ao lado da luminária semelhante a um cristal de neve e ele, de uma similar ao sol escaldante. Ela melhor definida pelo aquário que a reprime e aprisiona, enquanto ele pelo canil, que exige cuidados diários. Refugiados climáticos ou refugiados emocionais, que gostariam de entender e transformar o mundo, embora mal tenham a capacidade de abraçar o sentimento que tem sentido. Sabe a máscara de oxigênio no avião, em que botamos primeiros em nós e só depois nas crianças, Adam e Tina têm que primeiro cuidar deles mesmos antes de começar a cuidar do mundo.

Aliás, Tina é ainda um anagrama para There Is No Alternative (“Não há alternativa”), uma jogada de palavras óbvia, ainda que o óbvio tenha que ser expressado ou refletido com abertura e candura como é feito em Peak Everything. Patrick Hivon é um achado, um protagonista por quem sentimos cada alegria ou tristeza, cada momento ansioso e paranoico, repetindo em voz alta aquilo do que está se alimentando junto aos profetas do caos nas redes sociais. Piper Perabo é a sensibilidade, e mesmo que a mudança no comportamento da personagem seja apenas para dar andamento ao clímax, o epílogo é um daqueles achados que pontuam de vez o tema discutido. Sim, o mundo está doente e sim, o mundo pode estar caminhando para o fim como o conhecemos. Uma verdade inconveniente e, por vezes, incapacitante, mas que não deve ser obstáculo para achar a sua alma gêmea, no fim do mundo.

O filme está selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.

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