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Ciudad Sin Sueño

Classificado como 3 de 5

Ciudad Sin Sueño

2025

97 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Guillermo Galoe

Naturalismo espanhol

A adaptabilidade do ser humano é impressionante. A capacidade com que jovens ou adultos interagem com o meio em que estão integrados, transformando-o em um lar improvisado, apesar do caráter precário e desatendido por serviços que deveriam ser básicos, pode ser encontrada na comunidade improvisada de ciganos na periferia de Madri, onde moram o adolescente Toni, a sua família e o seu avô (Fernández Silva). A família, em conotação ampla, é onde está o alicerce da comunidade. Entretanto, igual às casas que estão sendo demolidas pelo governo, para que o espaço seja desocupado e as famílias realocadas em apartamentos minúsculos, porém com água, energia elétrica e gás, a família encabelada por Chule está se esfarelando à cada vez que as escavadoras derrubam as paredes erguidas pelas mãos dos membros da família.

A transformação do espaço onde cresceu é também uma oportunidade para que Toni amadureça, ainda que seja errática essa transição da adolescência à idade adulta. Não há como conter a mudança, nem o tempo. Toni assiste ao pai trocar seu cachorro por um lote de terreno, mas não pode reagir à decisão patriarcal, senão se cometer um ato impensado e com consequências imprevisíveis. Escuta as brincadeiras – com um pé na verdade – das mulheres em um salão de beleza, e logo depois, o amigo apenas um ano mais velho aparece com um bebê de colo nos braços. Entretanto, Toni quer continuar criança, explorando ao lado de Bilal a vastidão do ‘quintal’ de casa, que é basicamente o que os olhos podem alcançar. É compreensível que incomode abrir mão do coletivo, em favor do privado, quando este é um cubículo que limita, enquanto aquele era como um infinito, cheio de oportunidades, mesmo que abstratas.

Guillermo Galoe trabalha esse processo conflituoso e essa transição à idade adulta de um modo naturalista, dispensando a exposição e o melodrama. A emoção apenas flui em personagens que são, e não atores que pretendem ser, na encenação de premissas, mas não de determinações. A sensação é de estarmos assistindo à vida real acontecer, a partir da câmera que tem a oportunidade de acompanhar o cotidiano daquele grupo: da coleta e revenda de sucatas, à reação após o trabalho humano transformar-se, num golpe da escavadeira, em escombros e destroços amorfos. Durante este processo, Tino aprende mais sobre o homem que é o seu avô, e em qual o homem irá se transformar – ainda mais diante da figura paterna relativamente ausente, talvez até emasculada pelo que Chule irradia naquela comunidade. Uma geração que é definida pelo orgulho, até mais do que pela razão ou emoção.

Enquanto isso, Tino brinca. Utiliza filtros fotográficos para transformar o mundo ao redor, conferindo ao que assistimos a atmosfera alienígena ou distópica. Faz sentido, pois de acordo com o olhar ocidental médio, estabelecido nos centros das metrópoles urbanas, o outro fora do padrão social deve ser alienígena. Tem ainda um quê de tédio a narrativa, um sentimento que é desautorizado dentro de nossa economia capitalista de mercado mas que é uma oportunidade em busca do autoconhecimento. O acidente em que Toni restitui a liberdade de aves em cativeiro é bastante relevante, afirma um tema marginal, enquanto confere a chance para que cada qual escolha o destino que melhor lhe convir.

Embora haja muitas histórias de amadurecimento e muitos personagens perdendo a inocência dentro de uma sociedade que os deseja adultos para poder ingressarem no mercado de produção, o processo de nenhum deles é igual ao do outro. Aí está o belo em filmes iguais a Ciudad Sin Sueño, reconhecer a individualidade de cada um, dentro do que é coletivo a nós todos.

Filme selecionado para a Semana da Crítica do Festiva de Cannes 2025.

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