Naturalismo espanhol
A adaptabilidade do ser humano é impressionante. A capacidade com que jovens ou adultos interagem com o meio em que estão integrados, transformando-o em um lar improvisado, apesar do caráter precário e desatendido por serviços que deveriam ser básicos, pode ser encontrada na comunidade improvisada de ciganos na periferia de Madri, onde moram o adolescente Toni, a sua família e o seu avô (Fernández Silva). A família, em conotação ampla, é onde está o alicerce da comunidade. Entretanto, igual às casas que estão sendo demolidas pelo governo, para que o espaço seja desocupado e as famílias realocadas em apartamentos minúsculos, porém com água, energia elétrica e gás, a família encabelada por Chule está se esfarelando à cada vez que as escavadoras derrubam as paredes erguidas pelas mãos dos membros da família.
A transformação do espaço onde cresceu é também uma oportunidade para que Toni amadureça, ainda que seja errática essa transição da adolescência à idade adulta. Não há como conter a mudança, nem o tempo. Toni assiste ao pai trocar seu cachorro por um lote de terreno, mas não pode reagir à decisão patriarcal, senão se cometer um ato impensado e com consequências imprevisíveis. Escuta as brincadeiras – com um pé na verdade – das mulheres em um salão de beleza, e logo depois, o amigo apenas um ano mais velho aparece com um bebê de colo nos braços. Entretanto, Toni quer continuar criança, explorando ao lado de Bilal a vastidão do ‘quintal’ de casa, que é basicamente o que os olhos podem alcançar. É compreensível que incomode abrir mão do coletivo, em favor do privado, quando este é um cubículo que limita, enquanto aquele era como um infinito, cheio de oportunidades, mesmo que abstratas.
Guillermo Galoe trabalha esse processo conflituoso e essa transição à idade adulta de um modo naturalista, dispensando a exposição e o melodrama. A emoção apenas flui em personagens que são, e não atores que pretendem ser, na encenação de premissas, mas não de determinações. A sensação é de estarmos assistindo à vida real acontecer, a partir da câmera que tem a oportunidade de acompanhar o cotidiano daquele grupo: da coleta e revenda de sucatas, à reação após o trabalho humano transformar-se, num golpe da escavadeira, em escombros e destroços amorfos. Durante este processo, Tino aprende mais sobre o homem que é o seu avô, e em qual o homem irá se transformar – ainda mais diante da figura paterna relativamente ausente, talvez até emasculada pelo que Chule irradia naquela comunidade. Uma geração que é definida pelo orgulho, até mais do que pela razão ou emoção.

Enquanto isso, Tino brinca. Utiliza filtros fotográficos para transformar o mundo ao redor, conferindo ao que assistimos a atmosfera alienígena ou distópica. Faz sentido, pois de acordo com o olhar ocidental médio, estabelecido nos centros das metrópoles urbanas, o outro fora do padrão social deve ser alienígena. Tem ainda um quê de tédio a narrativa, um sentimento que é desautorizado dentro de nossa economia capitalista de mercado mas que é uma oportunidade em busca do autoconhecimento. O acidente em que Toni restitui a liberdade de aves em cativeiro é bastante relevante, afirma um tema marginal, enquanto confere a chance para que cada qual escolha o destino que melhor lhe convir.
Embora haja muitas histórias de amadurecimento e muitos personagens perdendo a inocência dentro de uma sociedade que os deseja adultos para poder ingressarem no mercado de produção, o processo de nenhum deles é igual ao do outro. Aí está o belo em filmes iguais a Ciudad Sin Sueño, reconhecer a individualidade de cada um, dentro do que é coletivo a nós todos.
Filme selecionado para a Semana da Crítica do Festiva de Cannes 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



