Luta de classes com cara de White Lotus
Existem meios de o sucesso da arte impactar noutras artes, e o da série White Lotus, da defunta HBO agora MAX, certamente parece ter impingido seus temas em The Party’s Over: a ambientação idílica, agora a residência suntuosa veraneia onde o endinheirado Philippe, a esposa troféu e atriz semiaposentada Laurence decidem descansar por três meses e conhecer o novo namorado da filha Garance, o advogado idealista Mehdi, que se tornará instrumental para mediar a relação conturbada instaurada entre a família e os Azizi, a família de trabalhadores contratados como os zeladores da propriedade. Se considerada a maneira com que Philippe e os Azizi se relacionam, é até surpreendente que a relação deles tenha se mantido por tanto tempo assim, pois a narrativa dirigida e coescrita por Antony Cordier não esconde as mágoas provocadas pela luta de classe encenada em seu centro.
Tudo começa como resultado da pia entupida na cozinha, justo no retorno de Philippe (Laurent Lafitte) à mansão, levando-o a pedir exigindo de Tony (Ramzy Bedia) que fosse reparar, durante a comemoração do aniversário da filha. Tony atira a gravata por sobre a camisa alva, adquirida a duras penas para a celebração, para desentupir a encanação. Seria só mais uma das pequenas agressões, disfarçadas em um acordo de trabalho, que a classe trabalhadora aceita dentro da sociedade capitalista, até ganhar cor e contorno de escatologia quando Laurence (Élodie Bouchez) não obedece à instrução corriqueira dada por Tony, e que serve de gatilho para o desdobramento de tudo o que acontecerá. O contorno irônico e dramático é temperado por Mehdi (Sami Outalbali), o promissor advogado que, igual à sua camisa onde está escrito – “Eu cheguei até o topo” -, iniciou pobre e deve a posição em que está hoje ao estudo. Idealista, educado, Mehdi até pode ser encarado como o garoto propaganda da famigerada meritocracia, em contraste ao sogro pragmático e assertivo, que alardeia que as coisas são somente coisas, quando na realidade são tudo o que tem.
O alicerce frágil sobre o qual está estruturada a relação trabalhista é devorado de uma forma paciente – juro que parecia escutar os acordos inconfundíveis de White Lotus ao fim de cada batida em que o abismo entre as famílias aprofundava-se mais ou as ações escalavam mais em severidade. Enquanto isso, a residência é uma personagem, com a piscina de borda infinita, que prenuncia o atingimento do limite daquela relação, ou o jardim orgânico e os vinhos premiados adegados, ou o Porsche decorativo na garagem empoeirado após Tony tomar a iniciativa de ajustar uma porta emperrada. Tudo isso é sublinhado em um choque de mundos para lá de previsível, embora divertido, em uma opressão começada desde que o latim, que Philippe utiliza como uma segunda língua e um atestado de presunção, era ainda o idioma oficial do mundo.
Só que não são os ricos que sabem o que alea jacta est significa. E Antony Cordier não permite que os Azizi sejam as vítimas úteis, ainda que saibam a importância que é de ter o trabalho que tem. Eles são tão orgulhosos ou vaidosos quanto Philippe e os seus, mas aí também está o filme me perde: ao colocá-los em prateleiras próximas, e Mehdi no ponto médio, a luta de classes é pasteurizada. Nós somos exploradores, mas vocês também aproveitam e “exploram” o patrimônio que colocamos à disposição, e apenas o idealista Mehdi é capaz de agir com clareza ou enxergar o que está em jogo, porque conhece os dois lados da moeda. Philippe e Tony estão com a honra machucada e não conseguem negociar, o que é agravado pelo fato de que Tony, que tem pouco, não tem problemas de saciar sua lascívia, enquanto Philippe, que tem tudo, esbarra na esposa fingindo estar dormindo. Laurence preocupa-se em retornar ao estrelato do passado – o prêmio no centro da sala, tão frágil, é lembrete de que um dia foi celebrada mais do que os papéis pelos quais são lembrados. Já a filha, Garance, não consegue chorar as lágrimas da atuação.
São personagens recondicionados de filmes melhores, mas que funcionam dentro da arquitetura criada por Cordier para pincelar um mundo de lobos e cordeiros, em que estes são tão lobos quanto aqueles, ou acreditam que têm que ser para sobreviver. Os acenos dados pela direção, sobretudo no epílogo na quebra da quarta parede, tentam nos implicar dentro das ações e consequências retratadas, cinematizar o real a partir do humor ácido e sarcástico. Na prática, me distanciaram. Não é um risco engraçado que já não tive antes, é apenas o cinema debochando e colocando uma camada a mais de distância entre nós e eles, oprimidos e opressores.

O filme foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes 2025
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

