Spike Lee refilma Akira Kurosawa
Há somente um grupo restrito de diretores com o repertório e talento para refilmar a obra de um mestre do quilate de Akira Kurosawa, e Spike Lee é certamente um deles. Highest 2 Lowest traz à Nova York contemporânea os eventos do livro de Evan Hunter e adaptado em Céu e Inferno (1963), quando David King, um rei da indústria musical, é extorquido por uma gangue que clama ter sequestrado seu filho único, exigindo-lhe a quantia vultosa de 17,5 milhões de dólares, o bastante para colocar David em situação delicada durante a tentativa de sabotar a venda da gravadora Stacking Hits Records. A verdade é que, por erro, a gangue raptou o filho de Paul, o ajudante de David. E agora, o magnata desembolsará a mesma quantia que desembolsaria pelo filho, para salvar o filho de um outro?
Esse dilema é central à narrativa cuja temática racial aprofunda-se na relação de pais e filhos, no legado que David deixará e na integridade artística e moral dos personagens. Não é nenhum esforço relacionar o protagonista ao diretor, só substituindo a indústria musical pela cinematográfica, e o que Spike pretende deixar de herança à nova geração – neste sentido, a discussão sobre o impacto da internet ou da inteligência artificial na produção e distribuição artística pode ser facilmente aplicada a qualquer dos cenários, com implicações semelhantes, embora seja só um tema citado, mas não desenvolvido. A narrativa ainda critica o sensacionalismo do rage bait e das canções que objetificam os corpos, a fim de obter ascensão instantânea, nem que pela via da infâmia, e oferece Denzel como um porta-voz que ilustra e verbaliza uma trajetória sólida ao sucesso.
Com mais de quatro décadas de carreira, Denzel é um exemplo do caminho meritório, apoiado no talento e não na midiatização de sua imagem. É o intérprete apropriado de David, até mesmo comparado ao lendário Quincy Jones, cujo trabalho o posicionou de forma literal no ponto mais alto da cidade. O roteiro é ainda palanque para o discurso moralizante do ator, que tem sido objeto de compartilhamentos nas redes sociais: não é difícil associar as ‘pregações’ on-line de Denzel à batalha de rap com o rapper A$AP Rocky, levando o filme a seu ponto mais baixo com o discurso de que o dinheiro não é importante. Eu até gostaria que não fosse, mas dentro da mesma sociedade capitalista em que está apoiada a indústria musical (indústria!), é um discurso com a consistência de algodão doce. Piora porque é dito por uma pessoa que está na posição mais cômoda para fazê-lo — no trono de arranha-céu de Manhattan, e cuja dificuldade financeira resume em saber se suas ações serão suficientes para a jogada societária que pretende realizar — a quem está em uma situação precária, desesperadora e sem saída.
Não que eu esteja passando pano para a ação dos sequestradores, mas tampouco farei o mesmo com o discurso narrativo, inclusive contraditório se pensarmos na relação de David e Paul, que se reformou após deixar o cárcere. A adaptação de Alan Fox é frágil, uma conclusão óbvia considerado o sobrenome de um dos reis da indústria musical, ou o nome relacionado ao personagem Bíblico, ou à sua previsibilidade confortável, diria. Quando Pam (Ilfenesh Hadera) recorda o motivo por que o marido David, os melhores ouvidos da indústria, se atrasava a seus compromissos, ou Kyle (Elijah Wright, filho de Jeffrey) recorda o que escutou no cárcere, não é difícil juntar dois mais dois para saber como o roteiro caminhará para o clímax.

Ainda bem que atrás das câmeras está Spike. Um verdadeiro curador da arte negra, na seleção musical, assim como nas obras de arte que emolduram o apartamento luxuoso de David King, Spike cria uma vitrine, ainda que anônima, e com seu estilo, imprime à narrativa os elementos e referências de gênero para torná-la movimentada. No centro está Denzel, improvisando rap quando não está no modo herói de ação ou de chefe de família. Spike duplica os momentos de confraternização, os abraços e apertos de mão, fortalecendo os laços que unem os personagens; emprega os artifícios estilísticos, por que é celebrado (ex. o double dolly shot, em que os personagens parecem flutuar rumo à tela); e não tem receio de parecer cringe, quando quebra a ilusão de realismo do filme durante uma cena ambientada dentro dos confins da imaginação cinematográfica.
Spike não liga em ser careta. Na primeira metade, a trilha sonora de Howard Drossin é intrusiva, sublinhando o melodrama ou nas referências às composições características do cinema de ação oitentista. A princípio, eu me incomodei, mas aí notei o método em que a narrativa abandona de vez essas composições pasteurizadas, substituindo-as por músicas negras e, até, porto-riquenhas que informam a segunda metade, com a paixão de quem interrompe a narrativa para provocar os torcedores do Boston Celtics, e para referenciar a A24, responsável pela distribuição cinematográfica.
Quando não é pregador nem moralizante, Highest 2 Lowest é uma narrativa eficiente de gênero, uma que ainda discute temas fundamentais dentro da arte e indústria negra, e da sociedade do espetáculo em que estamos, ainda que não tenha a potência para levar o protagonista do céu ao inferno como Akira Kurosawa fizera há décadas atrás.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



