“A gente fez um filme sobre um filme que nunca existiu, mas que foi apagado por um país que também quis apagar sua própria história.” – Marcelo Mello

(imagem:Vinícius Terror/Universo Produção)
Os diretores Tarsila Araújo e Marcelo Mello conversaram com o Cinema com Crítica durante o 20º CineOP sobre o longa Os Ruminantes — documentário que se debruça sobre o fazer cinema no Brasil durante a ditadura militar e o projeto inacabado A Hora dos Ruminantes, de Luiz Sérgio Person e Jean-Claude Bernardet. A obra foi exibida na Mostra Contemporânea Competitiva, e os diretores refletiram sobre memória, arquivos, censura e a reverberação política de ontem e de hoje:
Alvaro Goulart – Queria que vocês comentassem sobre a decisão de fazer um filme sobre um filme nunca realizado. Os Ruminantes dialoga com outros filmes sobre o próprio cinema, como Cabra Marcado para Morrer. Mas também reflete um momento político que, infelizmente, ameaça se repetir — com silenciamento, censura e ataques à cultura. Como foi criar esse filme nesse cenário?
Marcelo Mello – Fazer Os Ruminantes foi desafiador desde o início. Não havia imagens: o filme original não foi realizado. Só tínhamos o roteiro. Assistimos a outros documentários em busca de referências, mas quase todos dispunham de um material audiovisual muito mais robusto.
Cabra Marcado para Morrer foi uma inspiração inevitável — nos honra essa comparação. Lá, o material bruto ficou escondido sob nome falso. No nosso caso, trata-se de um apagamento mais radical: um filme que sequer existiu, mas que foi inviabilizado por razões políticas. A ditadura não estava satisfeita com o que o Persson fazia — e isso está documentado.
Durante os mais de dez anos de criação do nosso filme, vimos a história ameaçar se repetir. Produzíamos um documentário sobre a ditadura enquanto pessoas voltavam às ruas pedindo sua volta. E não por acaso, tanto ontem quanto hoje, a cultura foi um dos primeiros alvos. A preservação dos arquivos, os editais, o fazer artístico… tudo foi colocado em risco.
Nosso filme fala do passado, mas quer dialogar com o presente. Nos minutos finais, a metáfora do boi amplia esse gesto. A provocação do Jean-Claude sobre a bancada ruralista ainda ecoa. Ao longo do processo, dissemos várias vezes: “agora é como se fosse o Dia dos Cães”, referindo-nos à narrativa do próprio A Hora dos Ruminantes. O projeto foi, para nós, um exercício de memória, mas também de reação.
Tarsila Araújo – Levamos 11 anos para concluir o filme. Nesse tempo, o país mudou, endureceu, e conseguimos viabilizar o projeto só após a mudança de governo. A dificuldade de obter fomento era constante — e estávamos lidando com um documentário sobre um filme que nunca existiu. A Hora dos Ruminantes era apenas um roteiro, mas trazia uma força que nos acompanhou o tempo todo.
Alvaro Goulart – Pensando na estrutura do documentário: como foi construir um filme apenas a partir de arquivos e entrevistas? Vocês recorrem ao passado para acionar novas consciências no presente. Nesse sentido, como enxergam o papel desse “cinema de memória” num país que ainda negligencia seus próprios arquivos?
Marcelo Mello – O roteiro de A Hora dos Ruminantes é como um fóssil: guarda em si um modo de pensar e fazer cinema que se perdeu, mas que decidimos recuperar.
Partimos do texto, das entrevistas e de acervos. Usamos imagens de filmes do Person, mas também recorremos à Cinemateca Brasileira — especialmente à coleção dos nitratos — e ao Arquivo Nacional. Sem esses esforços de preservação, o nosso filme não teria sido possível.
Utilizamos também documentos da Comissão da Verdade, fundamentais para reconstituir o contexto histórico. Tudo isso demonstra o quanto preservar memória é preservar a possibilidade de contar a própria história.
Além de homenagear o Person e o Jean-Claude, queríamos falar do cinema brasileiro como um todo. Usamos filmes das décadas de 1920 a 1950 — muitos deles deteriorados — por acreditar que ainda têm o que dizer.
Infelizmente, certos materiais estavam inacessíveis. Um exemplo marcante é Trilogia do Terror, filme coletivo do Person com Mojica Marins e Oswaldo Candeias. A cópia está em más condições. Um dos episódios, A Procissão dos Mortos, foi o primeiro filme de ficção a abordar a morte de Che Guevara. Isso mostra a importância de preservar obras que carregam um valor histórico enorme, mas que seguem esquecidas.
Alvaro Goulart – E como pensar o futuro desses arquivos? As mudanças climáticas aceleram a deterioração do acervo físico, enquanto políticas públicas frágeis afetam o acesso. A Comissão da Verdade e a Lei Aldir Blanc, por exemplo, foram marcos importantes para que filmes como Ainda Estou Aqui e o de vocês se tornassem possíveis.
Marcelo Mello – Pensar a preservação em 10 anos é urgente. Nosso filme tenta ser parte de um quebra-cabeça maior — algo que ajude o país a redescobrir sua história. Os acervos são fundamentais nesse processo. Eles garantem que o passado não seja enterrado, e sim revisto, compreendido.
Finalizar o filme em DCP foi também um ato de preservação. De alguma maneira, queremos que Os Ruminantes ajude o cinema brasileiro a lembrar de si.
Alvaro Goulart – Vivemos hoje sob o peso de um presente ansioso, que valoriza o agora e despreza o passado. A memória coletiva virou algo descartável, mesmo com as eleições acirradas evocando um passado sombrio. Como é fazer um filme em que o passado é protagonista, num tempo tão imediatista?
Marcelo Mello – O público de hoje muitas vezes não consegue assistir a um vídeo de um minuto. Person era um cineasta que se preocupava com o público, e nós também tivemos esse cuidado. Pensamos no ritmo, na narrativa, para engajar, para envolver.
Vivemos uma saturação de imagens — talvez por isso haja tantos filmes que recorrem a arquivos. Ainda assim, somos otimistas. Percebemos, especialmente entre os jovens, um interesse crescente pelo cinema brasileiro.
Nosso filme quer dialogar com esse público. É uma homenagem a quem viveu os anos 1960 e 1970, mas também uma ferramenta de aprendizado para novas gerações. Falamos sobre tortura. Person e Bernardet fizeram uma denúncia corajosa — e queremos que isso reverbere. Que as novas gerações saibam o que aconteceu, e compreendam a força política, artística e cultural do nosso cinema.
Alvaro Goulart – E eu espero que o filme de vocês ressoe por bastante tempo.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.



