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Nouvelle Vague

Classificado como 2 de 5

Nouvelle Vague

2025

106 minutos

Classificado como 2 de 5

Diretor: Richard Linklater

A arte não é passatempo, e sim um sacerdócio

Nouvelle Vague, ou a Nova Onda do Cinema Francês, revolucionou a arte do cinema e expandiu a porta do clássico à modernidade, com a efervescência e originalidade de jovens cineastas que desrespeitavam as regras à procura do momento. Mesmo que não tenha sido Jean-Luc Godard que tenha inaugurado o movimento — os créditos ficam a François Truffaut e Os Incompreendidos (1959) —, é seu Acossado (1960) a epítome desta revolução, ou é assim considerado por parte da academia e cinefilia. Richard Linklater decidiu transformar os bastidores da produção em um filme que celebra o movimento, a partir de uma figura cuja genialidade, inventividade e essencialidade está à altura da polêmica carreira, e embora o resultado não seja mais do que somente um conjunto de curiosidades, ainda é um prato cheio para cinéfilos.

Com o roteiro escrito a oito mãos, Nouvelle Vague é tanto um estudo de personagem de Godard, quanto uma obra sobre os bastidores, dia a dia, com o método (ou a falta dele) e os causos que resultaram em Acossado. Antes disso, o Festival de Cannes de 1959, em que Truffaut foi premiado com o prêmio de melhor diretor por Os Incompreendidos sob o olhar coberto por óculos escuros do amigo Godard. Dentre os críticos da Cahiers du Cinéma, Godard lamentava o fato de não ter dirigido um longa-metragem, e convence o produtor Georges de Beauregard a financiar Acossado, que teria argumento coescrito por Truffaut e Claude Chabrol entre os envolvidos, apesar de não ter participado. Para o papel principal, o amigo Jean-Paul Belmondo, que depois se transformou em estrela internacional, e a atriz Jean Seberg, que saía de seu contrato com Otto Preminger em direção de novos ares à Europa, onde esperava trabalhar com Truffaut ou Chabrol, não Godard.

O roteiro apoia-se no conflito artístico entre Godard (Guillaume Marbeck), o cinema moderno, e Seberg (Zoey Deutch), o cinema clássico, que é quem mais sofre pela falta de método e planejamento: uns dias, Godard filmava 1, 2 horas, e a atriz nunca teve o acesso a sua personagem, senão através dos autores e poetas citados por Godard. É a maneira com que Linklater critica a arrogância e presunção de Godard, que é tratado como um mito, não somente pelos óculos escuros característicos — que jamais retira—, mas especialmente quando a tela de cinema está refletida em seu olhar, em cenas capitais para a história do cinema, por motivos diferentes. Mas se Godard é o mito, e esses acabam não tendo muito dimensão a nos oferecer além de sua própria natureza mítica, bem melhor está Seberg, que é convencida pelo namorado François Moreuil a participar da aposta arriscada, ou Belmondo (Aubry Dullin), que encara as filmagens como se fossem uma brincadeira que pode não dar certo, mas lhe permite aproveitar cada momento.

Com a fotografia em preto e branco que emula um chapisco da película clássica, mas já envelhecida depois da montagem e exibição, e a razão de aspecto 4:3, característica da época, somente faltou à Nouvelle Vague repetir a dublagem em pós-produção para a emulação da autenticidade das filmagens. Não que isso seja mérito, é apenas capricho, da mesma forma que é uma perfumaria a quebra da quarta parede na apresentação dos personagens ao espectador. Linklater está reproduzindo o plano final de Acossado, mas também uma aparência farsesca para o que, na realidade, não tinha nada de farsa. Até prefiro o estilo tradicionalmente singelo de Linklater, que dá mais espaço à encenação e às atuações do que à expressividade do aparato cinematográfico. Há referências bem melhores ao clássico, como o jazz remissivo à trilha sonora original, e ainda ao caráter improvisado das filmagens.

Que é a maior fragilidade da narrativa e, simultaneamente, aquilo de que mais gostei. Eu me sinto até um farsante por elogiar o andamento burocrático e pedagógico, cena após cena, revisitando planos específicos de Acossado como se fossem easter eggs dos cinéfilos, enquanto essa mesma mão que escreve já criticou os mesmos easter eggs de filmes de super-heróis do Universo Cinematográfico da Marvel. Quem pode criticar a (in)coerência da crítica, se esta é tão humana e subjetiva quanto a visão do espectador manchada pela paixão, e aí é onde reside o mérito de Nouvelle Vague: ao ser incapaz de reproduzir a mesma alma de cinema de guerrilha, Linklater então a transforma dentro de um mosaico de inspirações, que amadurece bem além da estrutura pedestre em um filme desobediente sobre como não fazer um filme, salvo se você for Godard.

É onde está a paixão, pois mesmo atrás dos óculos escuros, ou da dicção monocórdica e entediante, ou da aparente indiferença com o resultado das filmagens — talvez fosse por acreditar piamente em sua inefabilidade —, ainda é possível enxergar que Godard amava o cinema, e não apenas amava a crítica que escrevia ou o cinema que produzia. Quando a cara de surpresa de Raoul Coutard (Matthieu Penchinat) é transformada, ao fim, em um sorriso de realização, ou quando Godard defende o plano de cortar dentro das cenas, o que se denomina jump cut, e as montadoras compreendem o que deseja, aí está a beleza de Nouvelle Vague. Quando mais me espantei, estava chorando, nem tanto pelo mérito do filme per se, que ainda pode ser criticado pelos letreiros finais covardes (Godard brigou com Truffaut anos depois, e apenas reataram a sua amizade às vésperas da morte do último), mas porque eu estava sentindo o que talvez os fãs de HQs sentem quando enxergam os super-heróis favoritos nos cinemas. Com uma diferença: os deste filme são alguns dos super-heróis do cinema.

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