Um álbum geracional envolvente e misterioso
O filme de abertura da Seleção Oficial do Festival de Cannes1 é bastante desafiador. A partir de um mosaico de quatro tramas, ambientadas em épocas diferentes, apesar de na mesma propriedade rural, protagonizadas por crianças ou adolescentes que podem ser da mesma família, o terror dramático da alemã Mascha Schilinski reflete acerca da condição da mulher em estágios de desenvolvimento dentro de um ambiente opressor, já bem retratado na claustrofóbica cena introdutória. Através de um corredor estreito, cuja claustrofobia é acentuada pela razão de aspecto 1.33:1, Sound of Falling termina da mesma forma que inicia: a perspectiva feminina e o que é enxergado por trás de portas entreabertas, por entre cômodos, ou até na natureza vastamente indiferente, quando a frustração, o sofrimento, e o não pertencimento “aterrorizam” Alma, Angelika, Emma e Christa, as personagens que dividem as porções de tempo da narrativa.
O tempo é parte fundamental na experiência da narrativa. Não que ofereça uma maior compreensão, senão a histórica (a 2ª Guerra Mundial ou o Muro de Berlim são eventos presentes no contorno), embora a residência no norte da Alemanha esteja tão distante, alienada, de onde a história está acontecendo, que os seus efeitos são percebidos como uma onda capaz de só molhar os pés das personagens. Paradoxalmente, o tempo está e não está como entidade concreta. Nós o sentimos, nós o percebemos, mas a sensação é de suspensão. Em uma cena, Alma brinca com as irmãs, correndo atrás delas por entre os cômodos da casa, até retornar à mesa de jantar onde iniciou a brincadeira e “viajar” a um tempo futuro, em um plano sequência ilustrativo da habilidade de a narrativa ir e vir entre subtramas ou dentro de uma mesma subtrama, como testemunha material de um álbum de memória vivo, o que nos torna viajantes por “buracos de minhoca”, e que desaguam nas emoções profundas das personagens.
Nelly imagina a sua morte, e talvez assim conquistasse a atenção desejada da mãe, que desaparece no fundo da imagem. Angelika amadurece erótica e sexualmente, deseja os outros e deseja ser percebida, e constrói a sua identidade e personalidade durante uma época em que a Alemanha, através de um muro, havia separado decisivamente as suas. Sound of Falling convida uma análise linear e causal das personagens, como fragmentos da história, embora acredite que nós abdicamos da poesia ao realizar tal interpretação. Mais do que Nelly flertar com a sua morte, quando teria a atenção irrestrita materna, é a poesia aí encenada: ela teria a atenção plena, mas não poderia apreciar dela, pois não existiria materialmente.

A poesia é produto da ilusão, do tempo suspenso, da penumbra imagética e narrativa, na qual ações não produzem efeitos que repercutem em ações, dentro da lógica típica do cinema convencional. As ações encerram-se dentro delas mesmas, como explosões trancafiadas dentro dos corpos e mentes de sua personagens. Há causalidade, que nos permite concluir o que aconteceu com Angelika, mas a ênfase da direção não está aí: a edição de som é um bom exemplo. O tempo e espaço é distorcido na maneira com que os sons ecoam: os sussurros equivalem a uma meia-luz na fotografia, enquanto os sons da natureza se misturam com os sons das máquinas agrícolas. No centro, o cervo morto é o símbolo que nos permite sentir, pela poesia, mais do que entender, pela prosa.
A narrativa poética verbaliza as emoções e a experiência feminina ao longo da história em vez de somente as descrever. É onde está o seu impacto, no horror aterrorizante de se enxergar como uma boneca sem vida, ou de ser esquecida no alto de uma árvore, por ouvidos que não a escutam. Sound of Falling é melhor quando mais poético, críptico ou misterioso. As subtramas estão organizadas não de maneira cronológica, mas sensível, e nos desorientam a cada ruptura, a cada transição. Uma desorientação bem-vinda, já que nos obriga a abdicar de um padrão de interpretação, objetivo e explicativo, e ainda a reconhecer um certo nível de impenetrabilidade nas relações humanas e geracionais, em favor de uma absorção das personagens a partir dos anseios particulares e relações humanas e geracionais costuradas e tensionadas pela narrativa estimulante.
Mascha Schilinski não explica ações, motivações ou consequências; no lugar, toma-as por base para refletir o papel da mulher ao longo do tempo, no espaço de uma fazenda em transformação, e na história, proporcionando respostas contraditórias, que apenas inspiram perguntas, prisioneiras como são as personagens, da crise do hoje ao encarar o ontem.
Sound of Falling, ou In Die Sonne Schauen, no título original esteve na Seleção Oficial do Festival de Cannes 2005.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


