Por que sonhar?
Todos os filmes dão ao espectador oportunidades de interpretação, pela maneira como se opera a sua recepção. Os filmes podem ser menos ou mais abertos, a recepção pode ser menos ou mais facilitada dependendo do conhecimento social, histórico e cultural do espectador, ou de como as narrativas democratizam tal conhecimento. Réssurrection é tão aberto quanto críptico, e ancora-se na chave de interpretação construída a partir de um olhar atento e sensível. Então eu acho importante deixar bem claro qual que é a minha chave: a história do cinema que perpassa a epopeia antológica e distópica de Bi Gan, em um futuro especulativo em que a humanidade perdeu a capacidade de sonhar. Estar acordado eterniza ou imortaliza uma classe dominante; entretanto, sonhar torna monstro quem sonha. Até uma mulher decide doar o seu tempo e investigar os sonhos de um monstro, e convidar o espectador a fazê-lo.
O universo diegético é composto por Fantasmers (sonhadores) ou The Big Others (que monitoram aqueles) dentro de uma lógica que respinga no cenário socioeconômico, no qual Bi Gan não se aprofunda. Ao menos, não na forma como interpretei: uma viagem na história do cinema. O prólogo de Réssurrection é um filme mudo, em formato 4:3, no qual a ação desenvolve-se através de tableaux vivants (quadros vivos), com os elementos herdados dos trick films, tais como aqueles de Georges Méliès, e do expressionismo, na figura de um monstro que não difere em essência daqueles do movimento alemão, e até nos elementos de estilo, a direção de arte assimétrica e irregular. Bi Gan deita e rola, e acho que qualquer diretor apaixonado por seu ofício amaria a oportunidade de brincar neste jogo de cena, em que a maturidade artística e técnica está a serviço de um aceno à história do cinema. Quem assiste também se diverte, uns na tentativa de desvendar o que o mágico esconde sob a manga, outros na ânsia de decifrar a simbologia artística e cinematográfica criada por determinadas ações dos personagens. Em certo momento, uma película cinematográfica é introduzida dentro do corpo de um personagem, e este momento doloroso oferece uma visão melhor do que a ilusão do mundo.

O que é doloroso? A dificuldade de tirar de dentro do artista as histórias e inspirações para criação de sua arte? A dor é o processo artístico? Ou a dor é somente a resposta a este mundo em que vivemos por aqueles que desistiram de sonhar por um amanhã, em favor de um aceitação resignada? Tudo é possível, pois está em aberto; tão logo a caixa de Pandora de sonhos é aberta, também são revelados os sonhos cinematográficos. Bi Gan divide a história em esquetes… a primeira remete ao estilo noir, no preto e branco e nos espelhos que revelam a ambiguidade individual, na trama policialesca a respeito da mala simbólica que pode encerrar uma guerra, na memória perdida e recuperada. A segunda história é contemplativa, discute a espiritualidade e religiosidade; enquanto a quarta é o extremo oposto, um passeio por um cenário apocalíptico mediado em plano sequência virtuoso.
Eu até flertei com a ideia de que cada história representasse um estado de consciência, ou mesmo um objetivo de sonhar: a solução de mistérios ou a procura da verdade, caso nós fôssemos considerar o momento em que o garotinho é submetido ao polígrafo, ou a submissão à espiritualidade ou ao desespero no apocalipse. Talvez cada história seja uma oportunidade para que Bi Gan revele o potencial do cinema para materializar, na arte, os sonhos possíveis. Até entendo a crítica de que a fragmentariedade seja apenas uma muleta da narrativa, cuja coesão e coerência interna são as mesmas que uma vela cuja chama flamula em uma ventania. Pode ser que Bi Gan quisesse só realizar alguns curtas-metragens e encontrou, em uma espinha dorsal afrouxada, um caminho para os seus sonhos se tornassem realidade. Mas eu comprei a ideia.
Eu a comprei tanto individualmente, com a direção aproveitando as oportunidades de narrativa e estilo que cada história e gênero lhe proporcionam. E também em um todo, pois a ideia de ilusão percorre as vias erráticas da narrativa como o sangue através do corpo do monstro: o divino, o playback ou o cinema, são ilusões que mentem à alma, ou ao ouvido, ou à visão. Mas são ilusões, ainda assim, apresentadas em um jogo elusivo, envolvente e misterioso. Procuramos respostas, mas não encontramos o gabarito, em um aceno derradeiro à ilusão: a de que há apenas uma forma de apreender a arte. Este trabalho de Bi Gan, ainda que por vezes extenso e incômodo, é um convite à reflexão e pensamento em torno da arte. Uma habilidade que tem sido abandonada em pesquisas a vídeos explicando, ou em um apodrecimento intelectual e sensível do espectador não muito longe do que o filme revela no fim das contas.
Ressurrection está na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



