Um drama familiar emocionante e sofisticado pelo poder da arte
Caso fosse convidado a escolher a Palma de Ouro, a minha brasilidade me obrigaria a votar em O Agente Secreto. Não seria um voto injusto, já que me apaixonei pelo debate humanista e histórico de Kléber Mendonça Filho, só não estaria escolhendo o melhor filme que vi na edição, Sentimental Value, do norueguês Joachim Trier (de Oslo, 31 de Agosto, Thelma e A Pior Pessoa do Mundo). No seu melhor trabalho até agora, Trier cria um mosaico artístico e familiar baseado no amor reprimido, no ressentimento exposto e no desejo de reconciliação para contar o reencontro das irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) com o pai Gustav (Stellan Skarsgård), que na alvorada da vida, durante um festival que celebrou a sua carreira como diretor cinematográfico, decide tocar o seu canto de cisne: uma obra autobiográfica para a qual convida a filha, a atriz teatral Nora.
Entretanto, Nora, a irmã mais velha, acumula mágoas pelo pai ausente e pelo marido relativamente abusivo e distante, e rejeita o seu convite. O projeto parece natimorto, até o acaso aproximar Gustav e a atriz estadunidense Rachel Kemp (Elle Fanning, em sua melhor atuação). A relação entre diretor e atriz, que poderia desaguar no flerte, é de admiração — mútua, a partir de certo momento —, oportunidade e fungibilidade: Rachel é um atalho para a obtenção de financiamento internacional, enquanto ainda é substituta de Nora, permitindo que Gustav exerça a paternidade que não pôde exercer quando havia abandonado a família pela carreira. A beleza está presente nos detalhes, e em como Trier revela a sua maturidade em evitar o conflito óbvio, ainda que eficaz à primeira vista, para encontrar um meio de expiar o trauma e a mágoa.
Sentimental Value tem uma base sólida, da mesma forma que a residência familiar, cuja rachadura na fundação é como uma cicatriz, eternamente lá como dupla memória: das feridas abertas e, mais ainda, de como estas feridas são incapazes de derrubá-la a solo. Não acidentalmente formada por quatro personagens, uma delas substituta de outra, a base é a oportunidade de ressignificação: se a rachadura na parede é ressignificada por um raio solar, mantendo a mesma forma, mas outro brilho, esta oportunidade também é concedida generosamente às personagens. Acredito que o filme rejeite o imobilismo, da ação e emoção, e proporcione alternativas de cura aos personagens, em um bonito e poético momento da carreira de Trier, que iniciou sua filmografia com uma visão bem pessimista do indivíduo e da sociedade. Nora amadureceu ansiosa e neurótica: na vida pessoal envolve-se com um homem casado (Anders Danielsen Lie) e ressente a família da irmã por não ter formado a sua; na vida profissional, embora atriz experiente, sofre com o medo do palco (tudo melhora porque a peça é acompanhada com a trilha sonora de abertura do horror O Iluminado).
Entretanto, os obstáculos individuais e coletivos são as oportunidades de transposição e libertação das amarras que impeliam os personagens a reencenar os dramas de vida – a história de Medeia é mencionada, como apelo de divorciar-se da tradição da tragédia clássica. Pois, para que reciclar o teatro grego se a vida do indivíduo tem elementos de tragédia? Gustav rejeita o aspecto autobiográfico de seu roteiro, apesar de Agnes, que, como historiadora, trabalhou com o pai realizando pesquisas, descobriu uma aparente relação com a história da avó, judia sobrevivente do Holocausto e que tirou a sua vida. A tragédia não é clássica, é contemporânea. A elaboração a partir dela, o início de um processo de cura e da rejeição da estagnação emocional; se mesmo a residência imóvel muda com o tempo, por que não nós?

Em determinado momento, uma personagem menciona que rezar não é falar com Deus, é aceitar o desespero. E, dentro da leitura da tragédia como informadora do processo de cura emocional e do processo artístico dos personagens, sinto bem em interpretar que falar com Deus seja falar com sua arte, sua verdade. O processo criativo está entrelaçado com o drama familiar, e monta um todo tão atraente que é impossível resistir à análise mutuamente racional e emocional. Partes que frequentemente são separadas, aqui são unidas, dentro de uma herança escandinava de cinema que tende a rejeitar a emoção e o sentimento rasgado — na direção de fotografia, encenação, interpretação etc. — mas que aqui alcançam o efeito oposto: uma emoção até mais poderosa do que melodramas repousa em um olhar racional, mesmo que rebelde: no encontro com Gustav na praia, Rachel rejeita o comportamento previsível de uma atriz hollywoodiana, para retornar de charrete ao hotel.
Preciso retornar à Rachel. Fanning transforma-se para ser a protagonista de Gustav, e Trier. Quando a atriz menciona ter pintado o cabelo, ou a adaptação que o roteiro tem que fazer para acomodar o fato de não falar norueguês, sinto o eco na obra de Trier. E, se a insegurança de Rachel pode comprometer o seu papel, Fanning é tremendamente segura da força de sua voz doce e do olhar melancólico ao olhar para trás, do jeito que Gustav vislumbrou uma cena capital do roteiro. O roteiro construiu uma das relações profissionais mais éticas que testemunhei na ficção: da atriz hesitante que admite sua limitação, mesmo ciente de que está diante de um papel determinante para seu futuro, e do diretor, que negocia a ambição artística com o que pode estar abdicando com esta escalação. Skarsgård está maravilhoso, e não consigo vislumbrar um cenário em que o ator veterano não seja reconhecido por este trabalho.
Trier também deveria sê-lo: além de criar momentos visualmente arrebatadores, como aquele em que Gustav está, fora de foco, mas no centro da imagem, sentado à frente de Nora e Agnes, nos extremos do sofá e em foco, convida discussões sobre o preconceito etário na indústria da arte. Pode parecer descolado do todo, mas mantém a unidade da narrativa: por mais bem sucedidos que os personagens sejam profissionalmente, e por mais que tenham tido a vida que haviam sonhado em ter, não há quem não demonstre insegurança. Agora é o momento de discutir Agnes. A caçula é também a ‘não artista’ – como se a arte fosse um atributo que não existisse dentro de cada um -, apesar de ser a que está melhor capacitada para remediar e remendar os traumas familiares. Eu tenho para mim que jamais vou esquecer a sensibilidade ao explicar sua diferença com Nora: eu tive você. São três míseras palavras, que representam uma torrente de amor e união.
Sentimental Value tem início com a lembrança da dissertação sobre o lar herdado, onde uma família foi constituída e que agora pode ser palco de litígios proprietários, depois da morte de uma integrante. A casa é transformada através do tempo, por reformas ou por opções estéticas que a tornam mais ou menos iluminada. A casa é até reproduzida, e recriada através da direção de arte. Mas a casa não é o concreto, não é a madeira, não são os móveis ou eletrodomésticos, são os personagens que a habitam. Joachim Trier trouxe não personagens ou conflitos dramáticos, mas pessoas, alegrias e dores reais no formato da ficção. Quando se despede do mundo que criou com um recurso, a que não pode resistir, deixou em mim saudades misturada com felicidade por partilhar daquela realidade. Uma realidade viva pela arte.
Sentimental Value recebeu o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



