Paul Mescal e Josh O’Connor em um filme frio, de todas as formas
Espectadores amam fabricar expectativas, e quando veem a escalação de Paul Mescal (de Todos Nós Desconhecidos) e Josh O’Connor (de Rivais) em uma história romântica, é bem provável que esperem uma história de amor e terminem frustrados com o drama do diretor sul-africano Oliver Hermanus (de Viver, a refilmagem do clássico de Akira Kurosawa). É que The History of Sound é um estudo de personagem mais do que só um romance clássico, embora a relação amorosa entre o cantor Lionel Worthing (Mescal) e o compositor David White (O’Connor) seja essencial no amadurecimento daquele. A frustração do espectador deveria estar menos associada ao romance água com açúcar, e mais com a inabilidade de Hermanus em explorar o potencial do protagonista ou da narrativa.
Desde quando ainda era criança, durante uma narração in off, aprendemos que Lionel tem a capacidade de ‘enxergar a música’. Apesar de este poder não ser reproduzido de uma forma visualmente interessante, está associado ao tema narrativo: um dispositivo chamado fonógrafo que permite que o som invisível seja impresso em um tubo de cera. O ‘poder’ de Lionel é democratizado, da mesma forma que as canções folclóricas (folk) recordadas por imigrantes pobres ou pessoas ex-escravizados — assisti a este filme já, o nome era Pecadores —, e eternizadas para a história. Uma pena que a engenhosidade do fonógrafo, durante a época pré-1ª Guerra Mundial, ou a celebração da arte musical na forma de registro da história dos povos, rapidamente deem espaço ao protagonista aborrecido e ao (já citado água com açúcar) romance, ou romances.
Eu já deveria ter percebido a partir da escolha de locação, com a paisagem de árvores secas, ou a direção de fotografia com coloração insaturada e amarronzada, mas estava ainda envolvido na aparência melancólica e, às vezes, até hipnótica presente nos sons ambiente ou nas canções folclóricas. É que os 20 ou 30 minutos iniciais de The History of Sound são promissores demais, mas resultam em uma obra mecânica, desprovida de paixão ou de força romântica. Muito disso é a culpa de Lionel, cuja característica mais marcante não é a voz doce, mas a insensibilidade de abandonar as pessoas queridas no momento que mais precisam dele: a mãe viúva, David, ou as experiências na Itália e na Inglaterra. Lionel é um sujeito cruel e egoísta, que foge não importa o que isto causará com quem se relaciona. Não ajuda o protagonista o semblante constante de bom moço de Paul Mescal, preparando-nos para a catarse do clímax, após 100 e tantos minutos, e o desejo de abandoná-lo bem ali mesmo.

O roteiro relaciona Lionel a Orfeu da mitologia, com o dom da melodia que encantou o deus do inferno, Hades, que o advertiu a não olhar para trás quando buscou a amada Eurídice no submundo. Lionel não olha para trás, a quem abandona, para não repetir o erro de Orfeu? Mesmo que seja isso, tenho bastante ressalvas com histórias iguais a essa que me castigam durante a duração da estrada na companhia de um protagonista insuportável, vivido por um ator cuja simpatia só reforça meu incômodo. Basta pegar a participação breve de Chris Cooper – só sabia que sentia saudades do ator depois de o rever -, com a de Paul Mescal. Diferentemente dele, Hermanus explora melhor o que Josh O’Connor pode proporcionar: um olhar enigmático, que ao menos tempo em que pode ser sensível, pode ser desafiador.
Contudo, Hermanus não é capaz de fabricar uma química onde não há sequer fagulha. O momento em que Lionel e David se conhecem em um bar, através da música que os aproxima, talvez seja o ápice do romance frígido. Se o roteiro de Ben Shattuck merece elogios por não problematizar a relação, apesar de a homofobia estar presente na época mesmo mais em um cenário rural, merece crítica por não desenvolver o romance, além de uma filial de O Segredo de Brokeback Mountain. Shattuck tem inclusive o equivalente da camisa guardada no armário de Ennis Del Mar, tendo chamado a atenção a timidez ou comedimento na encenação do sexo homossexual comparado com o heterossexual.
O lamentável é que The History of Sound tem decisões criativas emocionantes, nem que só pontualmente: a mãe de Lionel sorri somente na memória do filho. A edição de som que associa o rio calmo ao violino, e materializa o vento no sibilo característico, ou até o calor da brasa na chaminé está à altura da promessa de um filme que repercute o som além das ondas que propaga no ar. Contudo, é apenas lamentável que nem o estudo de personagem, nem o romance foram desenvolvidos com igual qualidade da fotogenia melancólica ou da expressividade da edição sonora. Talvez assim, The History of Sound tivesse algo a mais a dizer além de só ecoar dramas e romances melhores.
The History of Sound está na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.




2 comentários em “A História do Som”
é ABSURDO afirmar “a timidez ou comedimento na encenação do sexo homossexual” em relação ao filme! como se isso não pudesse ser uma OPÇÃO ESTÉTICA do diretor ou como se NÃO SER “tímido ou comedido na encenação do sexo homossexual” fosse um valor EM SI! a obra jamais pode ser considerada “mecânica” por não satisfazer essa ridícula, quiçá militante – o que dá no mesmo, sanha por EXPLICITUDE.
Claro que é uma decisão estética do diretor; a questão é que o sexo heterossexual é retrato diferentemente, e isto também é uma decisão. O que cada um interpreta disto, aí é subjetividade.