Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

ENTREVISTA | Sabrina Fidalgo no 20º CineOP

“Mais importante do que tudo é a gente poder hackear o sistema somente através da entrega. Do sonho e do delírio.” – Sabrina Fidalgo

Sabrina durante a mesa “Elas Dirigem o Riso – Parte I”
(imagem: Leo Lara/Universo Produção)

Sabrina Fidalgo é uma diretora e roteirista brasileira multipremiada. Em 2019, foi nomeada pela revista norte-americana Bustle como uma das “36 cineastas do mundo que estão quebrando barreiras em seus países”, ocupando a oitava colocação. Em sua passagem pela 20ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, ela participou da mesa Elas Dirigem o Riso – Parte I e teve seu curta Alfazema exibido na Mostra Histórica de Curtas e debatido no Clube do Crítico – Edição Cinema Negro. Após o evento, conversou com o Cinema com Crítica sobre linguagem, política, forma e a potência do delírio como ferramenta narrativa:

Alvaro Goulart – Sabrina, você já fez diversos curtas, onde trouxe a questão do humor. Traz no Alfazema discussões sobre feminismo negro, religiosidade… Mas tenho a impressão de que as pessoas têm um certo olhar de que uma cineasta, enquanto mulher preta, tem que falar só sobre a vivência preta, só sobre sistemas. E tem uma necessidade de ficar dando aula, dando letramento para essas mesmas pessoas, que podem muito bem pesquisar a respeito no Google. Eu queria que você discutisse essa questão de que o cinema, às vezes, te traz a possibilidade de discutir essas suas vivências, mas que, ao mesmo tempo, enquanto indústria, tenta te engessar, colocando seu cinema de uma forma hermética, pra falar exclusivamente desses assuntos. Como você enxerga isso?

Sabrina Fidalgo Concordo plenamente! Eu acho que eu me sinto um pouco cansada nesse lugar de ter o tempo inteiro que tá justificando, em termos geopolíticos, o meu fazer cinema, sabe? Enquanto mulher negra do sul global. É bacana tudo isso, essa discussão toda, mas eu acho que isso tá pra além do cinema, sabe?

Eu sinto falta do cinema em si, dessa perspectiva artística, da perspectiva da fabulação que o cinema propõe. Porque, afinal de contas, a gente tá falando da sétima arte, sabe?

E claro que a gente tem que reivindicar lugares, a gente tem que falar sobre os espaços, a ocupação dos espaços, quem ocupa os espaços, quem tem poder nesses espaços, quem pode contar suas histórias, quem não pode, quem pode mais, quem pode menos, quem recebe mais, quem recebe menos… Claro que tudo isso é muito importante, a meu ver. Mas eu acho que mais importante também do que isso é o privilégio que a gente ainda não tem, pessoas como eu, de poder simplesmente contar as histórias do jeito que a gente quer. E poder falar somente sobre essas histórias.

Porque eu acho que corpos como o meu — ou pelo menos falando de mim, não vou nem falar de ninguém, vou falar de mim — eu, Sabrina, fiz algo. Eu, quando eu escrevo minhas histórias, meus roteiros, e quando eu filmo esses roteiros, quando eu faço os meus filmes, eu estou partindo de uma lógica que, obviamente, vai perpassar por esses lugares de alguma forma. Porque não tem como. Eu sou um corpo político, de certa forma. É assim que eu sou vista, em qualquer lugar do mundo. Eu sou racializada ainda.

Mas acho que, se vocês olharem bem, o meu cinema é muito também nesse lugar. De também revolucionar isso no sentido de: “Vamos pensar também em termos de fabulação?”, sabe? “Vamos sonhar também, um pouco?” Porque eu acho que é aí que tá a grande revolução, sabe?

Mais do que fazer um cinema panfletário, um cinema manifesto, um cinema sociológico, antropológico… Eu acho que mais importante do que isso tudo — de ter que se transformar quase num ser político pra defender os filmes, e falar de tudo menos sobre os filmes — acho que mais importante do que isso é a gente poder hackear o sistema somente através da entrega. Do sonho e do delírio. Se trata essa questão da fábula. Da história.

Alvaro Goulart – Você que quebra a parede, você que subverte, enfim, convenções de gênero. E aí: cinema é forma ou cinema é conteúdo?

Sabrina Fidalgo – Eu acho que o cinema é forma e conteúdo. A definição de cinema enquanto sétima arte, né… foi “artes clássicas em movimento”, né?

Então, claro que o cinema é muito mais imagem do que roteiro, sabe? Mas eu acho que a narrativa — ao longo dos anos — a gente teve que começar a trabalhar as palavras da maneira adequada pra poder trazer essas histórias de forma cinematográfica, através de imagens belas, sabe? Então, acho que é um equilíbrio das duas coisas, né?

Mas eu acho que é uma linguagem que difere de qualquer outra. Tanto é que, assim, me incomoda um pouco também o excesso do uso do termo “audiovisual”, porque audiovisual abrange uma série de outras coisas que não têm nada a ver com a linguagem cinematográfica em si, sabe?

Audiovisual é YouTube. Audiovisual é um videoclipe. Audiovisual é uma novela. Audiovisual é qualquer coisa. É um produto. Mas eu acho que o cinema tá pra além disso. Eu acho que o cinema é obra, não é produto.

O cinema tem uma linguagem, o cinema tem uma maneira de fazer. O cinema não é tão verborrágico como uma radionovela ou coisa do tipo. É uma narrativa que se conta através de imagens, através desse equilíbrio de imagens e diálogos.

Alvaro Goulart – Pra fechar: quais são as suas referências cinematográficas? Quem te inspira?

Sabrina Fidalgo – As minhas referências, assim… são muitas. Mas eu acho que hoje, agora, nesse momento, eu vou falar do realismo italiano, principalmente a partir da perspectiva do cinema do Fellini, do Pasolini, todos os “-ini” (risos). É um cinema que me toca. É um cinema que me move desde criança e que hoje em dia eu tô revisitando. E é cinema-poesia, puro.

Então hoje, nesse momento, eles são minhas referências. E eu trago também um apreço enorme pela Mati Diop, pelo cinema dela — a diretora do Atlantique — que acho que é uma das grandes revelações do cinema mundial. Uma diretora franco-senegalesa, que traz muito essa questão decolonial através da perspectiva do Senegal, uma relação com a França, de confrontamento.

E acho que também, pensando aqui no Brasil, vou falar da Carmen Luz, que é uma diretora pouco citada. Uma diretora negra brasileira, que também tem trabalho com videodança, e é uma documentarista que explora essa questão também do corpo de uma forma muito poética, muito bonita.

E pra finalizar, vou falar de um dos meus grandes ídolos do cinema, que é o Bob Fosse — que é um diretor que veio da Broadway e entregou vários musicais maravilhosos, que eu amo musical, como All That Jazz, que é um dos meus filmes favoritos, por exemplo.

Alvaro Goulart – Perfeito! Muito obrigado!

Sabrina Fidalgo Obrigada!

Compartilhe

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar de:

Críticas
Marcio Sallem

La Chimera

A memória está para o indivíduo, como os

Rolar para cima