Muito do meu repertório cinematográfico veio das videolocadoras e das reprises na televisão. Tenho certeza de que assisti aos filmes clássicos de James Bond em sessões como Temperatura Máxima, Supercine e Tela Quente. Mas foi nas madrugadas da Band que descobri outros títulos de espionagem e crime, alguns estrelados por Jean-Paul Belmondo ou Lando Buzzanca — filmes cuja relevância só compreendi mais tarde, já adulto, durante meus estudos sobre a indústria do cinema. Independentemente de serem produções hollywoodianas ou do velho continente, todas seguiam um mesmo princípio: atendiam a um público masculino específico e respeitavam as convenções rígidas do gênero a que pertenciam.
O cinema contemporâneo tem flertado cada vez mais com uma estética pós-moderna, marcada pela mistura de gêneros, a ressignificação de fórmulas clássicas e o uso intenso da intertextualidade. Filmes como Parasita e a obra de Tarantino rompem com as categorias tradicionais ao embaralhar drama, comédia, thriller e crítica social em uma mesma narrativa, criando experiências híbridas, dinâmicas e imprevisíveis.
Essa tendência dialoga com uma nova forma de consumo audiovisual moldada pelas redes sociais, onde cortes rápidos, vídeos curtos e estímulos visuais constantes produzem uma estética de dopamina: fragmentada, acelerada e pensada para prender a atenção a cada segundo. Nesse cenário, tanto o cinema quanto o conteúdo digital refletem uma cultura de sobreposição, remix e excesso — em que o valor está menos na linearidade e mais no impacto sensorial imediato.
O Brilho do Diamante Secreto não foge dessa tendência — e ainda acrescenta um toque de anacronismo à receita. Hélène Cattet e Bruno Forzani rebobinam os VHS do eurospy para pavimentar a narrativa do seu novo filme. E não escondem seu fetiche pelo visual setentista dos Bond movies — o que, convenhamos, acaba sendo um charme.

A textura da imagem carrega aquele glamour plastificado, com lens flaresanamórficos cortando o quadro como lâminas de neon e halation derretendo os contornos de luz, como se tudo fosse um sonho capturado em película vencida. Mas é nos diamantes — claro — que o filme se delicia: cada ponto de luz vira um mini espetáculo de starbursts, cintilando como se o próprio Technicolor tivesse ressuscitado para dar seu aval.
É um gesto estético? Sem dúvida. Mas também um flerte descarado com o legado de Diamonds Are Forever, onde o brilho era tão importante quanto o tiro — e onde o exagero nunca foi um problema, mas uma assinatura. Ainda mais quando acompanhamos as vinhetas estilizadas que eternizaram suas trilhas musicais.
Mas os anos 70 não produziram apenas espiões como James Bond. A literatura pulp também nos deu grandes ladrões, como Diabolik, que inspira diretamente a personagem que viria a ser a nêmesis de John D. Serpentik: uma ladra profissional, marcada pela estética da femme fatale e pelos acenos ao cinema exploitation. Sua personalidade desafiadora e sensual remete a uma Mulher-Gato, mas aqui com atributos camaleônicos.

Apesar de todo esse verniz nostálgico, Cattet e Forzani não se contentam com o pastiche. Pelo contrário: a anacronia do filme serve também à subversão das convenções daquele cinema — tanto em estrutura quanto em temática. Se antes as Bond girls eram meras distrações visuais para o público masculino, aqui é o corpo do agente secreto que se vê exposto — uma inversão clara do male gaze que tradicionalmente comandava o gênero.
Mais do que isso, há um comentário explícito sobre a decadência dessas figuras e, talvez, dessa própria masculinidade. A certa altura, o filme nos convida a questionar a racionalidade do protagonista. Estaria ele mesmo em uma última missão ou apenas mergulhado numa confusão entre passado e presente, real e imaginário, diante de um quadro de demência? É como se Billy Wilder retornasse de Crepúsculo dos Deuses para confrontar o status quo masculino de outrora com o desgaste da indústria atual.
É quando tenta acenar às novas formas de produzir audiovisual que o filme se dilui. Tenho a impressão de que os diretores quiseram reeditar um filme de gênero dos anos 70 para a Geração Z — e suas plataformas digitais. A montagem é provocante, até estimulante. O Brilho do Diamante Secreto propõe um cinema superlativo. Mas o excesso de estímulos visuais — com seus planos zenitais, cortes secos, montagem dinâmica e construções caleidoscópicas — acaba sendo exacerbado, proporcionando uma experiência confusa e verborrágica em seus breves 87 minutos.
O filme é competente em suas camadas mais ocultas. Mas, quando navega por superfícies — ou pela estética pura —, acaba parecendo uma trama frívola, que nos dispersa logo após o primeiro terço. Seus acertos estão nos pequenos detalhes, mas estes passam despercebidos aos olhos já sufocados por tantos estímulos. Por pouco não deixo de valorizar a presença de Maria de Medeiros — atriz portuguesa cuja última lembrança que tenho é no cinema brasileiro, em O Contador de Histórias —, um filme que, aliás, também brincava com o imaginário.
No fim, O Brilho do Diamante Secreto é uma vitrine de referências, brilhos e intenções — mas talvez encante mais pelo reflexo do que pelo conteúdo. É um filme que admira demais o passado para encontrar sua própria forma no presente. Quando mergulha na extravagância estética, brilha com força; mas quando tenta dizer algo além da superfície, sua voz se embaralha no eco de tudo o que homenageia. Resta ao espectador decidir se encara isso como um gesto de amor ao cinema — ou apenas como mais um disfarce elegante para uma trama que reluz, mas não ilumina.
O Brilho do Diamante Secreto foi assistido na reinauguração do Cinesystem Belas Artes Botafogo e está em exibição nos cinemas.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.


