Enquanto brasileiro nascido em 1990, a figura de Ayrton Senna virou sinônimo de Fórmula 1 para mim. Uma das vinhetas musicais mais icônicas da minha memória é a da vitória do piloto com a narração emocionada de Galvão Bueno entoando seu nome. Infelizmente, um dos primeiros registros de tragédia que acompanhei pela TV foi também o falecimento dele. Lembro dos meus pais tristes assistindo ao velório pela televisão.
Ainda que outros brasileiros tenham se destacado — como Barrichello e Felipe Massa —, acompanhar as corridas nunca teve o mesmo peso. E olha que meu pai gostava mais de Fórmula 1 do que de futebol.
É claro que a notícia do filme estrelado por Brad Pitt me trouxe a esperança de ver o nome do piloto mais marcante do Brasil sendo citado — e, de fato, foi! Não imaginava que fosse diferente, afinal Lewis Hamilton, um dos produtores executivos (quem põe dinheiro no projeto), é um fã declarado do ás brasileiro. O nome de Hamilton nos créditos viria quase como uma chancela de autenticidade, o que também contribuiu para meu ímpeto em assistir ao filme nos cinemas.
O enredo traz o retorno de um corredor que já foi considerado uma promessa às pistas da Fórmula 1. Pitt vive Sonny Hayes, um piloto experiente que atua como uma espécie de freelancer, pulando de equipe em equipe em diferentes categorias após cada vitória. Concluído um trabalho, ele é convidado por um ex-companheiro de equipe para correr na categoria mais cobiçada do automobilismo e tentar salvar uma escuderia de menor porte da falência.
A abertura de F1 trata logo de apresentar Sonny Hayes como um astro do rock minutos antes de entrar em cena — lembrando bastante a apresentação de Stacee Jaxx, vivido por Tom Cruise em Rock of Ages. A sequência inicial é eficaz em estabelecer que o protagonista não se importa com prêmios ou status, apenas com correr. Sua existência parece aparafusada ao volante e às rodas.
A trama explora a clássica disputa geracional. Pitt traz experiência e irreverência, mas sua capacidade é constantemente colocada em xeque por conta da idade. Seu colega de equipe, Joshua Pierce (Damson Idris), é o prodígio que, diante da ameaça à sua carreira, transborda arrogância e imaturidade.

Confesso que, apesar de gostar do personagem de Pitt, ele me soa anacrônico e repetitivo. Sinto que o ator, embora competente, atua em sua zona de conforto — uma mistura de Cliff Booth com pitadas de Tyler Durden. Aquele ar de sujeito indomável comum em filmes de faroeste ou de motociclistas da Nova Hollywood, aliado a tatuagens, cicatrizes e o sex appeal do galã maduro.
Quem entrega no ponto certo é Idris. Até então mais conhecido por seu trabalho na série Snowfall, ele estreia com força nas telonas. As reações de seu personagem são coerentes com sua linguagem corporal. Até a maneira como segura a gola da jaqueta transmite insegurança e sufocamento. Outras participações que acrescentam bem à narrativa são Javier Bardem como Ruben Cervantes, amigo de Hayes e dono da escuderia, e Tobias Menzies — que adoro odiar desde Outlander. Bardem traz seu charme característico e até um pouco de comicidade em sua dinâmica com Pitt. Ainda que seu personagem não exija grande carga dramática, sua presença é sempre positiva.
O mesmo não pode ser dito das personagens femininas. Sarah Niles, atriz inglesa conhecida por Ted Lasso, interpreta Bernadette Pierce, mãe do jovem piloto. O que surpreende é que apenas cinco anos separam os dois intérpretes. Parece que Hollywood ainda não superou o estereótipo da “Mammy”, eternizado por Hattie McDaniel em …E o Vento Levou. Já Kerry Condon vive Kate McKenna, engenheira contratada para desenvolver os carros mais velozes da equipe APXGP. Embora seja apontada como a primeira mulher a ocupar tal função, sua participação no filme se resume a interesse romântico de Hayes e mediadora entre os dois pilotos.
É indiscutível o impacto visual e sonoro das cenas de corrida. Como disse, F1 aposta pesado na experiência imersiva para contar sua história. Não faltam tomadas subjetivas de dentro dos carros. A velocidade é explorada com enquadramentos diversos, favorecendo o dinamismo das pistas, com closes nas rodas e nas curvas mais acentuadas. Mas o grande destaque é o som. Assistir ao filme numa sala equipada para isso é fundamental para extrair a melhor experiência possível. E não é só o ronco dos motores — até a areia que se dispersa no asfalto pode ser ouvida.

Apesar de nos divertirmos com as estratégias pouco ortodoxas da “raposa das pistas” vivida por Brad Pitt, é inegável a superficialidade do enredo. Se Pitt tenta ser um cowboy indomável das pistas, F1 está muito distante do peso dramático de Rio Vermelho, de Howard Hawks, para discutir o embate entre gerações. No fim das contas, o filme lembra bastante Top Gun: Maverick — que é do mesmo diretor. Seja pela temática, pelos arquétipos dos protagonistas, pela inserção de um romance para validar o galã sênior ou pelas cenas emocionais. Até mesmo os recursos narrativos são semelhantes: o novato que teima em arriscar tudo, a crise de confiança, e o veterano que assume o papel de mentor.
Mesmo com um roteiro frágil, F1 é um filme que entrega exatamente a experiência que promete. Acesso aos bastidores da Fórmula 1, com participação de pilotos reais — além do próprio Hamilton, Verstappen e outros também dão as caras. E, com certeza, saímos da sala com a sensação de termos estado atrás daquele volante. F1 não mantém o filme na primeira marcha — e talvez por isso nem sentimos o peso de suas duas horas e meia de duração.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.


