Tenho uma relação bem próxima do trabalho da Anna Muylaert. Já comentei em textos passados que Castelo Rá-Tim-Bum e Mundo da Lua marcaram minha infância. E Que Horas Ela Volta? é um dos meus filmes favoritos, a ponto de me orgulhar de ter uma cópia autografada pela diretora e pela Regina Casé, que o protagoniza. Já tive a oportunidade também de conhecer Anna e entrevistá-la nessas minhas andanças por festivais de cinema. Em um deles, pude conferir em primeira mão seu filme O Clube das Mulheres de Negócios, que apesar de irregular, trouxe algumas questões interessantes. Por tudo isso, estava ansioso para conferir A Melhor Mãe do Mundo.
Em A Melhor Mãe do Mundo, Anna Muylaert direciona a câmera para Gal (Shirley Cruz), uma catadora cooperativada que, após sofrer mais um episódio de agressão, decide abandonar o companheiro e atravessar a Grande São Paulo junto de seus dois filhos rumo à casa de uma prima que lhe oferece abrigo. A cineasta, mais uma vez, coloca no centro de sua narrativa questões intrínsecas à experiência feminina. Aqui, a violência doméstica, a vulnerabilidade social e a maternidade se entrelaçam como eixos que pavimentam a jornada emancipatória de Gal.
Desde o início, a diretora posiciona seu filme como um veículo de acolhimento às mulheres cujas trajetórias se refletem na da protagonista. Ao abrir a narrativa com o registro de um boletim de ocorrência numa delegacia da mulher, Anna coloca a obra diretamente a serviço do tema, incorporando ao enredo as perguntas e respostas típicas desse procedimento. Até mesmo a condescendência de Gal em relação ao agressor, durante o depoimento, é perceptível — um traço comum entre vítimas de violência doméstica, ainda que estejam dispostas a levar a denúncia adiante e, assim, contribuir para alterar a dura estatística do feminicídio.
A maternidade é um elemento determinante nessa fuga. O ponto de partida da jornada de Gal é o resgate dos filhos da casa do agressor, que os mantinha sem seu consentimento — uma prática recorrente em casos de violência doméstica, em que o sequestro dos filhos se torna instrumento de ameaça e barganha. Ao recusar-se a abrir mão de suas crianças, Gal parte em busca de um lugar melhor para criá-las e, nesse movimento, o filme se dedica a construir uma versão emancipada da personagem, moldada pelo afeto e pela resistência.
É claro que trazer narrativas ricas em denúncias sobre questões sociais como as citadas até agora é algo importante. Afinal, a arte é um veículo de crítica, conscientização e também de extravasamento. Porém, algumas escolhas me soam questionáveis, principalmente quando desequilibram o filme sobre a linha tênue entre a denúncia social e a pornografia da pobreza.
No que diz respeito à violência doméstica, Anna acerta ao resistir em exibir o rosto de Leandro — ainda que a voz de Seu Jorge seja facilmente reconhecível. Um monstro sem face é sempre mais ameaçador. Além disso, essa figura habita diversos lares e possui diversos rostos. Entre os incômodos, no entanto, está o destaque dado a uma arma na cena do apartamento de Leandro: além de ser um objeto sem função narrativa — uma arma que não dispara —, reforça estereótipos do homem negro periférico. Muylaert se esforça em agigantar Gal no quadro, mas esses momentos ocorrem principalmente quando a vemos puxar seu carrinho, quase sempre em fuga. O resultado é uma lembrança mais marcada por sua vulnerabilidade social do que por sua potência, como se desempenhasse a função de um animal de carga. Recordo aqui a fala de Taís Araújo em Medida Provisória, em uma cena igualmente expositiva: “A mulher é a mula do mundo”.
A diretora também recorre a uma abordagem melodramática que intensifica a carga do realismo: a família enfrentando chuvas, subindo ladeiras íngremes como um Sísifo urbano, recorrendo a pequenos furtos ou sob constante ameaça de perder os filhos. O ponto de virada da personagem vem justamente de uma ameaça direta à filha. É inquestionável que Gal se esforça para proteger suas crianças dentro de suas limitações. Mas a encenação de Muylaert parece tentar emular A Vida é Bela, transformando a fuga em uma espécie de brincadeira ambientada na metrópole brasileira. Apesar da imensidão de São Paulo, Gal e seus filhos se veem sufocados pela adversidade e pela onipresença de Leandro — ainda mais opressiva do que a representação do campo de concentração no filme de Benigni. As crianças funcionam bem nessa jornada: Rihanna questiona as decisões da mãe com certa consciência precoce da situação, enquanto Benin encara tudo como aventura, protegido pela inocência da pouca idade.

Esse viés melodramático desemboca em um final piegas, que precisa reiterar a qualidade daquela mãe pela fala da filha. O desfecho se ancora em um acolhimento maternal de uma comunidade periférica, simbolizado pela personagem Munda (Rejane Faria), cadeirante e moradora de uma ocupação. A solução, porém, soa forçada, já que sua presença na rua como apoio a Gal não faz sentido diante de sua condição.
A Melhor Mãe do Mundo é a história de uma mulher negra, periférica, com instrução limitada, catadora, vítima de violência doméstica e mãe solo de duas crianças — uma realidade bastante distante da vivência de sua realizadora, Anna Muylaert. Esse descompasso por si só coloca em xeque o propósito do filme, que ao final me deixa com a sensação de ser mais uma produção voltada a gerar comoção em um público branco que repousa sobre o travesseiro de privilégios — grupo no qual me incluo — do que a provocar um mal-estar genuíno capaz de pressionar por mudanças. Resta a pergunta: até que ponto é positivo expor a miséria de um grupo? O questionamento me remete a André Bazin, que apontava como certos filmes de guerra, ao se pretenderem antibelicistas, acabam funcionando como vitrines da própria barbárie.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.
