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A Melhor Mãe do Mundo

Classificado como 2.5 de 5

A Melhor Mãe do Mundo

2023

105 minutos

Classificado como 2.5 de 5

Diretor: Anna Muylaert

Tenho uma relação bem próxima do trabalho da Anna Muylaert. Já comentei em textos passados que Castelo Rá-Tim-Bum e Mundo da Lua marcaram minha infância. E Que Horas Ela Volta? é um dos meus filmes favoritos, a ponto de me orgulhar de ter uma cópia autografada pela diretora e pela Regina Casé, que o protagoniza. Já tive a oportunidade também de conhecer Anna e entrevistá-la nessas minhas andanças por festivais de cinema. Em um deles, pude conferir em primeira mão seu filme O Clube das Mulheres de Negócios, que apesar de irregular, trouxe algumas questões interessantes. Por tudo isso, estava ansioso para conferir A Melhor Mãe do Mundo.

Em A Melhor Mãe do Mundo, Anna Muylaert direciona a câmera para Gal (Shirley Cruz), uma catadora cooperativada que, após sofrer mais um episódio de agressão, decide abandonar o companheiro e atravessar a Grande São Paulo junto de seus dois filhos rumo à casa de uma prima que lhe oferece abrigo. A cineasta, mais uma vez, coloca no centro de sua narrativa questões intrínsecas à experiência feminina. Aqui, a violência doméstica, a vulnerabilidade social e a maternidade se entrelaçam como eixos que pavimentam a jornada emancipatória de Gal.

Desde o início, a diretora posiciona seu filme como um veículo de acolhimento às mulheres cujas trajetórias se refletem na da protagonista. Ao abrir a narrativa com o registro de um boletim de ocorrência numa delegacia da mulher, Anna coloca a obra diretamente a serviço do tema, incorporando ao enredo as perguntas e respostas típicas desse procedimento. Até mesmo a condescendência de Gal em relação ao agressor, durante o depoimento, é perceptível — um traço comum entre vítimas de violência doméstica, ainda que estejam dispostas a levar a denúncia adiante e, assim, contribuir para alterar a dura estatística do feminicídio.

A maternidade é um elemento determinante nessa fuga. O ponto de partida da jornada de Gal é o resgate dos filhos da casa do agressor, que os mantinha sem seu consentimento — uma prática recorrente em casos de violência doméstica, em que o sequestro dos filhos se torna instrumento de ameaça e barganha. Ao recusar-se a abrir mão de suas crianças, Gal parte em busca de um lugar melhor para criá-las e, nesse movimento, o filme se dedica a construir uma versão emancipada da personagem, moldada pelo afeto e pela resistência.

É claro que trazer narrativas ricas em denúncias sobre questões sociais como as citadas até agora é algo importante. Afinal, a arte é um veículo de crítica, conscientização e também de extravasamento. Porém, algumas escolhas me soam questionáveis, principalmente quando desequilibram o filme sobre a linha tênue entre a denúncia social e a pornografia da pobreza.

No que diz respeito à violência doméstica, Anna acerta ao resistir em exibir o rosto de Leandro — ainda que a voz de Seu Jorge seja facilmente reconhecível. Um monstro sem face é sempre mais ameaçador. Além disso, essa figura habita diversos lares e possui diversos rostos. Entre os incômodos, no entanto, está o destaque dado a uma arma na cena do apartamento de Leandro: além de ser um objeto sem função narrativa — uma arma que não dispara —, reforça estereótipos do homem negro periférico. Muylaert se esforça em agigantar Gal no quadro, mas esses momentos ocorrem principalmente quando a vemos puxar seu carrinho, quase sempre em fuga. O resultado é uma lembrança mais marcada por sua vulnerabilidade social do que por sua potência, como se desempenhasse a função de um animal de carga. Recordo aqui a fala de Taís Araújo em Medida Provisória, em uma cena igualmente expositiva: “A mulher é a mula do mundo”.

A diretora também recorre a uma abordagem melodramática que intensifica a carga do realismo: a família enfrentando chuvas, subindo ladeiras íngremes como um Sísifo urbano, recorrendo a pequenos furtos ou sob constante ameaça de perder os filhos. O ponto de virada da personagem vem justamente de uma ameaça direta à filha. É inquestionável que Gal se esforça para proteger suas crianças dentro de suas limitações. Mas a encenação de Muylaert parece tentar emular A Vida é Bela, transformando a fuga em uma espécie de brincadeira ambientada na metrópole brasileira. Apesar da imensidão de São Paulo, Gal e seus filhos se veem sufocados pela adversidade e pela onipresença de Leandro — ainda mais opressiva do que a representação do campo de concentração no filme de Benigni. As crianças funcionam bem nessa jornada: Rihanna questiona as decisões da mãe com certa consciência precoce da situação, enquanto Benin encara tudo como aventura, protegido pela inocência da pouca idade.

O escapismo da realidade através do afeto e do lúdico (Imagem: Divulgação)

Esse viés melodramático desemboca em um final piegas, que precisa reiterar a qualidade daquela mãe pela fala da filha. O desfecho se ancora em um acolhimento maternal de uma comunidade periférica, simbolizado pela personagem Munda (Rejane Faria), cadeirante e moradora de uma ocupação. A solução, porém, soa forçada, já que sua presença na rua como apoio a Gal não faz sentido diante de sua condição.

A Melhor Mãe do Mundo é a história de uma mulher negra, periférica, com instrução limitada, catadora, vítima de violência doméstica e mãe solo de duas crianças — uma realidade bastante distante da vivência de sua realizadora, Anna Muylaert. Esse descompasso por si só coloca em xeque o propósito do filme, que ao final me deixa com a sensação de ser mais uma produção voltada a gerar comoção em um público branco que repousa sobre o travesseiro de privilégios — grupo no qual me incluo — do que a provocar um mal-estar genuíno capaz de pressionar por mudanças. Resta a pergunta: até que ponto é positivo expor a miséria de um grupo? O questionamento me remete a André Bazin, que apontava como certos filmes de guerra, ao se pretenderem antibelicistas, acabam funcionando como vitrines da própria barbárie.

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