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Um Triste e Belo Mundo

Classificado como 4 de 5

نجوم الأمل و الألم

2025

109 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: Cyril Aris

Nino e Yasmina nasceram no mesmo dia, sob o ruído de explosões que anunciam o destino de um país condenado a viver em um estado de guerra permanente. Dentro de um país em escombros, Um Triste Belo Mundo ensina que crescer significa aprender a conviver com os soldados nas ruas, o temor dos bombardeios, as crises econômicas e um futuro sempre deixado para depois. Dessa maneira, o gesto mais radical da narrativa seja justamente acreditar que, mesmo nesse cenário, o amor ainda pode florescer.

Esse romantismo, contudo, não é uma postura de fuga da realidade. O acidente que reúne Nino e Yasmina anos depois possui um gosto de uma coincidência cuidadosamente planejada pelo destino, mas o diretor, Cyril Aris, não transforma esse reencontro em um momento escapista. Ao contrário: é entre os escombros de um acidente de carro que (re)nasce um relacionamento que será colocado à prova pelas circunstâncias do país e pelas individualidades de duas pessoas que veem o futuro do país diferentemente. Um constante movimento do amor e, portanto, do Líbano entre esperança e desespero. O amor não existe a despeito da guerra; mas existe dentro dela.

É curioso como o filme encontra delicadeza sem suavizar demasiadamente o contexto. A esperança de um foguete enviado ao espaço, ou o hábito de manter os olhos voltados para as estrelas ou mesmo a fantasia recorrente daquela ilha distante onde finalmente seria possível viver em paz revelam personagens que se recusam a permitir que a realidade determine completamente sua imaginação e sua vida. Ainda que em um Líbano ameaçado, Nino sonha em transformar o restaurante do avô que o criou como um pai em uma franquia. Sonhar torna-se uma forma de resistência. A única forma possível ao lado do amor.

Essa ideia ganha força graças à maneira como Aris aproxima diferentes momentos da vida dos protagonistas. Uma rima visual separada por décadas. Quando crianças, Nino e Yasmina fogem do mundo enquanto soldados, disparos e explosões ocupam o contexto no pano de fundo. Mais tarde, já adultos, voltam a correr um em direção ao outro antes do primeiro beijo, transformando-se quase em borrões abstratos na tela. O movimento é praticamente o mesmo. O contexto também. É um paralelo simples, mas que sintetiza toda a proposta da narrativa: mesmo quando a guerra permanece, ainda existe espaço para que outros sentimentos ocupem o primeiro plano.

Também chama atenção a direção de arte, especialmente na maneira como constrói visualmente os seus personagens. Se o restaurante administrado por Nino é dominado por vermelhos e tons quentes que evocam o caráter romântico, o ambiente de trabalho de Yasmina aposta em azuis metálicos que reforçam uma atmosfera mais impessoal. Esses espaços traduzam formas distintas de enxergar o futuro, tanto por parte deles, quanto por parte de quem enxerga o Líbano como um trampolim para a fuga em direção a países em que guerra ou caos social não são uma realidade. Enquanto Nino permanece emocionalmente ligado ao país onde nasceu, Yasmina enxergar e quer abraçar a possibilidade concreta de uma vida diferente longe dali.

É através dela que o filme desenvolve seus conflitos mais ricos. Quando recebe uma oportunidade profissional irrecusável na Alemanha, decide recusá-la para permanecer ao lado de Nino. A escolha irá dividir interpretações de quem assista ao filme e o submeta ao crivo da crítica ao patriarcado. Para uns, legitimamente, é mais um romance em que uma mulher sacrifica os seus sonhos por um relacionamento. Minha impressão, porém, caminha em outra direção dessa vez. O filme parece menos interessado em reafirmar papéis tradicionais do que em defender uma ideia quase utópica: a de que o amor ainda merece ser escolhido, mesmo quando todas as circunstâncias apontam para o contrário.

Isso não significa que Aris elimine as ambiguidades dessa decisão. Elas aparecem com força na discussão sobre a possibilidade de terem filhos. Yasmina teme colocar uma criança no mundo diante de um país cuja instabilidade parece não conhecer fim. Não é que não queira ser mãe, é que não quer ser mãe no Líbano, um resultado provocado da realidade objetiva em que vive. Já em alguns momentos, Nino parece deslocar excessivamente para ela o peso dessa decisão, como se a responsabilidade recaísse mais sobre o desejo – ou o medo – feminino do que sobre ambos os personagens. É um desequilíbrio que fragiliza, ainda que não comprometa o todo.

Porque um dos méritos do roteiro está em compreender que são muitas guerras. Não são apenas os bombardeios que ameaçam esse relacionamento. Em determinado momento, o colapso financeiro impede que cidadãos tenham acesso ao próprio dinheiro depois que bancos congelam suas contas. Para o espectador brasileiro, é impossível não lembrar do trauma provocado pelo confisco das poupanças durante o governo Collor. São contextos muito diferentes, mas semelhantes naquilo que representam: quando o Estado e todo o sistema financeiro retiram das pessoas o controle sobre suas vidas, não muito diferente do que as guerras fazem. Aqui Aris estabelece uma relação entre guerra e capitalismo ao sugerir que ambos possuem enorme capacidade de inviabilizar o amor, ainda que utilizem armas diferentes.

E quando finalmente chega à ilha tantas vezes imaginada pelos personagens, Um Triste Belo Mundo realiza um dos gestos mais bonitos da narrativa, já que a imagina pelo que ela é: não um idílio para o qual se foge, mas um lar reenquadrado pelo olhar de cada um. Os disparos que inicialmente pareciam anunciar mais uma guerra revelam-se simples fogos de artifício – uma ironia que não passa despercebida. Aris conclui o romance lembrando que esperança significa continuar procurando beleza apesar da guerra e das crises.

Cyril Aris esboça uma narrativa que acredita na delicadeza romântica sem abrir mão da lucidez. E para alguém que não é lá o maior fã de romances, devo reconhecer que a ideia de duas pessoas construírem um futuro comum apesar de sua realidade é das mais atraentes em um mundo afundado em um pessimismo. A recusa em abandonar a esperança torna Um Triste Belo Mundo um filme bonito e necessário.

O filme está em exibição nos cinemas brasileiros.

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