Da trajetória de Kleber Mendonça Filho à construção de legados de salas de exibição, o festival evidencia como oportunidades e plataformas estratégicas impulsionam carreiras e fortalecem a indústria audiovisual
A 19ª Mostra CineBH se consolidou em Belo Horizonte como espaço estratégico para a difusão, reflexão e formação em cinema latino-americano. Com uma programação que ocupou diferentes espaços culturais da capital mineira, incluindo a Praça da Liberdade, o festival promoveu experiências que conectaram linguagens diversas do audiovisual, reafirmando o cinema como ferramenta de memória, diálogo e transformação social.
O tema da edição de 2025, Horizontes latinos: nós somos o nosso futuro?, reforçou a importância de colocar o cinema como espaço de criação, resistência e circulação de ideias. Durante seis dias de programação, a mostra exibiu 101 filmes, distribuídos entre longas, médias e curtas-metragens, provenientes de 17 estados brasileiros e 13 países, incluindo Argentina, Colômbia, México, Cuba, República Dominicana, Equador, Peru, Chile, Uruguai, Porto Rico.
A abertura da 19ª CineBH foi marcada pela pré-estreia de O Agente Secreto, longa de Kleber Mendonça Filho, cuja trajetória tem ligação histórica com os festivais que integram o programa Cinema Sem Fronteiras. O filme teve papel simbólico na abertura do evento, representando tanto o reconhecimento do trabalho do cineasta quanto a continuidade de um percurso iniciado na Mostra de Tiradentes, onde seu primeiro longa, Crítico, estreou. O apoio obtido por Kleber no Brasil CineMundi foi fundamental para viabilizar Bacurau, demonstrando a relevância de plataformas de coprodução na consolidação de projetos que, posteriormente, alcançam reconhecimento internacional.

(Imagens: Leo Lara/Universo Produção)
Raquel Hallak destacou a importância de manter uma relação contínua entre festivais, cineastas e cidades, com atenção especial à criação e preservação de salas de cinema, seja por meio de recuperações de espaços históricos ou construção de novos cinemas. O Cine Santa Tereza, em Belo Horizonte, teve sua edificação restaurada e reestruturada, retornando à função original de exibir filmes e possibilitar experiências coletivas. Essa iniciativa se soma a esforços iniciados com a Mostra de Tiradentes, quando o centro cultural local passou a abrigar projetos de exibição contínua, reafirmando a importância de deixar legados permanentes de cinema para as cidades, especialmente em Minas Gerais, onde pouco mais de 60 dos 853 municípios possuem salas de exibição.
Outro destaque da 19ª CineBH foi a homenagem ao ator Carlos Francisco, cuja trajetória representa símbolo de resistência e representatividade no audiovisual afro-brasileiro. Com atuações em Bacurau, Marte Um e Estranho Caminho, o artista teve sua carreira celebrada em debates que discutiram identidade, memória e inclusão racial nas telas brasileiras, permitindo ao público refletir sobre os desafios e conquistas do cinema afro-brasileiro contemporâneo.

(Imagens: Leo Lara / Leo Fontes / Universo Produção)
O Brasil CineMundi – International Coproduction Meeting, integrado à CineBH, completou 16 anos e reafirmou seu papel central no fomento à coprodução internacional. Na edição de 2025, o encontro reuniu mais de 200 profissionais de 16 países, recebeu 245 projetos inscritos e selecionou 37 longas-metragens para laboratórios, consultorias e encontros de coprodução. O Brasil CineMundi viabilizou ao longo dos anos projetos como Martírio, de Vincent Carelli, No Coração do Mundo, de Gabriel Martins e Maurilio Martins, Temporada, de André Novais, e Greta, de Armando Praça, demonstrando sua função estratégica no desenvolvimento de talentos e na internacionalização do cinema nacional.
A programação da CineBH também incluiu oficinas, laboratórios e debates, com sete atividades formativas voltadas a capacitar realizadores, aprofundar conhecimentos técnicos e conceituais, e estimular a produção autoral. As sessões comentadas com a presença de diretores, roteiristas e produtores permitiram ao público dialogar sobre o processo criativo, estético e político das obras, reforçando o caráter educativo e formativo do festival.
O júri oficial da 19ª CineBH foi formado por Daniela Gillone, pesquisadora de cinema; Ivette Liang, produtora; Marília Rocha, cineasta; Nelson Carlo de los Santos Arias, cineasta; e Renato Novaes, ator e educador. Todos possuem histórico de participação nas mostras que integram o Cinema Sem Fronteiras e experiência consolidada na análise crítica do cinema latino-americano. O prêmio de Melhor Filme do júri oficial foi entregue a Quemadura China. O júri da Abraccine, formado por Vivi Pistache, Kel Gomes e a convidada Natalia Bocanera, concedeu o prêmio de Melhor Filme a Puke, com menção honrosa para Chicharras, destacando obras que exploram linguagens inovadoras e abordagens autorais no cinema contemporâneo.
Leia aqui a crítica de Quemadura China
A Mostra na Praça, realizada na Praça da Liberdade, trouxe exibições voltadas ao público em geral, com destaque para as cinebiografias Ritas e Bituca, retratando Rita Lee e Milton Nascimento, respectivamente. As projeções incentivaram encontros intergeracionais e ampliaram a discussão sobre trajetórias musicais que dialogam com a história do país, reforçando o papel do cinema como memória cultural e plataforma de vivências coletivas.

A edição de 2025 também celebrou a dimensão afetiva e lúdica do cinema com o Álbum de Figurinhas do Cinema Brasileiro, idealizado pela Petrobras. O álbum reuniu pôsteres de filmes apoiados pela empresa, incluindo O Agente Secreto e Carlota Joaquina, restaurado em 4K para celebrar seus 30 anos. A iniciativa aproximou o público do patrimônio audiovisual e reforçou o caráter educativo e de memória afetiva do festival.
O festival destacou-se ainda pela atenção à diversidade estética e temática do audiovisual, exibindo obras que trabalham com imagens de arquivo, cinema experimental, documentários históricos e cinebiografias, evidenciando a pluralidade de perspectivas e abordagens presentes no cinema latino-americano.
A programação musical e cultural do evento incluiu apresentações ao ar livre, integrando cinema, música e cultura urbana. Essa articulação reforçou o papel do festival na revitalização de espaços públicos, como o Cine Santa Tereza, devolvendo à cidade locais para a fruição cultural e o fortalecimento de experiências coletivas em cinema.
Com a integração entre Mostra de Tiradentes, CineOP e CineBH no programa Cinema Sem Fronteiras, a Universo Produções articula três eixos principais: preservação e memória, produção contemporânea e formação/mercado. Tiradentes concentra-se na produção contemporânea e na circulação de projetos em desenvolvimento; Ouro Preto foca na preservação e no resgate da memória audiovisual; Belo Horizonte integra mercado, formação e difusão, criando uma rede contínua de ações que conecta profissionais, públicos e obras.
As premiações, homenagens e debates reafirmaram o compromisso do festival com a diversidade estética, a inovação narrativa e a reflexão crítica sobre o audiovisual. A combinação de cinema, formação e preservação consolida a CineBH como espaço estratégico para a valorização cultural, para o desenvolvimento de carreiras e para a circulação de filmes nacionais e latino-americanos no cenário global.
Entre sessões comentadas, laboratórios, mesas de debate e exibições na Praça da Liberdade, a 19ª CineBH reforçou seu papel como plataforma capaz de transformar trajetórias, fortalecer redes de produção e aproximar o público da produção audiovisual contemporânea. O cinema latino-americano, em sua multiplicidade, foi colocado no centro das conversas, demonstrando que a exibição de filmes vai além do entretenimento: é construção de memória, educação e cidadania.
O compromisso em deixar legados de cinema nas cidades, a valorização da história audiovisual, a presença de cineastas premiados, a homenagem a Carlos Francisco e a articulação de plataformas como Brasil CineMundi consolidam a CineBH como espaço de referência, capaz de estimular novos públicos, fortalecer o setor audiovisual e fomentar o diálogo cultural entre diferentes territórios.
A mostra reforça que o cinema é instrumento de formação, resistência e memória, e que a criação de espaços de exibição, combinada à promoção de debates e à valorização de trajetórias, contribui para a construção de um legado duradouro para a cultura e para as cidades. A 19ª edição reafirma, assim, a relevância do Cinema Sem Fronteiras como projeto estruturante para o audiovisual brasileiro e latino-americano, demonstrando que festivais podem ser agentes transformadores, conectando gerações, fortalecendo carreiras e ampliando horizontes.

LISTA DE PREMIADOS
Mostra Território
Longa-metragem: Quemadura China, Uruguai, direção de Verónica Perrotta
Melhor Presença: Chicharras, México, direção de Luna Marán
Destaque do Júri (Montagem): Huaquero, Peru, direção de Juan Carlos Donoso Gómez
Prêmio Abraccine: Punku, Peru, direção de Juan Daniel Fernández Molero

PROJETOS CONTEMPLADOS PELO BRASIL CINEMUNDI
Júri Oficial
Filhas do Mangue (AL) — direção de Stella Carneiro, produção de Rafhael Barbosa
WIP – O2 Pós
O Filho da Puta (MG / RS) — direção de Erica Maradona, Otto Guerra, Sávio Leite e Tânia Anaya; produção de Cissa Carvalho, Elisa Rocha e Tatiana Mitre
WIP – Mistika
Lusco-Fusco (SP) — direção de Bel Bechara e Sandro Serpa; produção de Rafaella Costa
WIP – The End
A Fabulosa Máquina do Tempo (RJ) — direção de Eliza Capai; produção de Mariana Genescá
Foco Minas
Arrudas (MG) — direção de Matheus Moura; produção de Antonio Pedroni e Matheus Moura
DocBrasil
Você? Mãe? (RJ) — direção de Daniel Gonçalves e Nathalia Santos; produção de Dani Nascimento, Daniel Gonçalves, Roberto Berliner e Sabrina Garcia
Conecta
Você? Mãe? (RJ) — direção de Daniel Gonçalves e Nathalia Santos; produção de Dani Nascimento, Daniel Gonçalves, Roberto Berliner e Sabrina Garcia
DocSP
Você? Mãe? (RJ) — direção de Daniel Gonçalves e Nathalia Santos; produção de Dani Nascimento, Daniel Gonçalves, Roberto Berliner e Sabrina Garcia
DocSP Study Center
Tomba Homem (MG) — direção de Gibi Cardoso; produção de Lucas Uchôa e Victória Morais
FIDBA #Link
Febre Tropical (SP) — direção de Andy Malafaia e Carolina Höfs; produção de Leonardo Mecchi
Nuevas Miradas
Toshi Voltou do Japão (SP) — direção de Marcos Yoshi; produção de Rica Saito
RIDM
Enquanto te Escrevo a Paisagem Muda (PE) — direção de Anna Lu Machado e Artur Monteiro; produção de Thaís Vidal
Burning
Soberbo (MG) — direção de Camila Matos e Juliana Antunes; produção de Juliana Antunes
MECAS
Omágua Kambeba (AM) — direção de Adanilo; produção de Ítalo Bruce
WCF – World Cinema Fund
Sapatour (SP) — direção de Gab Lourenzato; produção de Well Darwin
MAFF / Projeto Paradiso
Diamante, o Bailarina (SP) — direção de Pedro Jorge; produção de Heverton Lima
Filmes de Plástico – Prêmio Especial
Brilhante (MG) — direção de Carol Silva e Karen Suzane; produção de Carol Silva
Filmes de Plástico – Prêmio Principal
Omágua Kambeba (AM) — direção de Adanilo; produção de Ítalo Bruce
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.


