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Bone Keeper

Classificado como 1 de 5

Bone Keeper

2026

90 minutos

Classificado como 1 de 5

Diretor: Howard J. Ford

Com boa parte do filme produzido através de IA generativa, Bone Keeper abandona a ambição artística em prol da máquina, em narrativa que não constrói mistérios e tampouco desperta o interesse do espectador para personagens genéricos perseguidos por criatura sem identidade.

Assistindo a Bone Keeper, recordei-me de uma lembrança da adolescência. Eu provavelmente tinha cerca de treze ou quatorze anos quando, em um dia durante as férias escolares, passei uma boa parte de meu tempo jogando videogame. Após essa longa jogatina, que só fora terminar pela madrugada, depois de já um tanto cansado, ainda não estava com sono, então decidi abrir um serviço de streaming qualquer a fim de assistir à primeira coisa que aparecesse, para pegar no sono. Foi quando me deparei com um filme chamado Múmia – A Ressurreição (originalmente The Mummy Resurrected, de Patrick McManus), uma produção de baixo orçamento e qualidade, que se apoia no logotipo, pôster e no título para induzir desavisados, como eu à época, fã de A Múmia, a assistir acreditando se tratar de uma nova sequência do clássico com Brendan Fraser.

O que me fez estabelecer essa relação entre o lançamento Bone Keeper, e a pérola pega-trouxa The Mummy Ressurected, é que, na prática, ambos se tratam quase do mesmo filme, a partir de suas premissas e maneiras como seus roteiros são estruturados. Claro, existem particularidades que os diferenciam, a começar pela ambientação, motivações dos personagens, contextos, e claro, o monstro antagonista. Entretanto, a base é extremamente semelhante: um grupo de pessoas decide explorar antigas cavernas, e se depara com uma criatura sobrenatural, que ataca, organizadamente, um a um em seus momentos mais distraídos.

Elenco em cena de Bone Keeper (Fonte: Plaion pictures/Strike Media).

Como pode-se perceber, esses não são os únicos – trata-se de uma fórmula padrão a filmes do tipo, de baixo orçamento, qualidade e ambições, mas que mantém um público-alvo incrivelmente fiel (não é à toa que produções como tal são realizadas ao longo do ano inteiro, e estúdios especializados nelas continuam de pé).

O problema, no entanto, não está no baixo orçamento, ou nos valores de produção como um todo, mas em como Bone Keeper se destaca pela ausência de capacidade em gerar um mínimo interesse ao espectador pela história que conta, ou ao menos pela maneira como busca fazer isso.

Seus dez primeiros minutos já são suficientes para matar todo o mistério que muito bem poderia aproveitar e desenvolver ao longo dos subsequentes oitenta minutos de duração. Na primeira parte desse prólogo, somos introduzidos às origens da criatura – de seu nascimento a partir de um meteorito, da fixação entre as cavernas do planeta Terra, e seus ataques a outros seres, inclusive humanos. Ou seja, a partir disso, já conhecemos da existência do monstro – o qual o filme muito bem poderia deixar uma dúvida acerca, em uma possível investigação entre lenda e realidade a ser realizada pelos personagens, e consequentemente pelo espectador –, seu visual, e tal como sua origem extraterrestre.

Em seguida, inicia-se uma narração, por cima de imagens de um homem, na década de 1970, munido de um caderno e um filmadora super-8, registrando uma breve aventura adentro da caverna onde reside o monstro, cuja atuação beira o cômico, visto o excesso de poses que faz, tentando soar como um jornalista investigativo, enquanto parece saber que está sendo perseguido por uma câmera e que tudo aquilo trata-se de um filme de ficção. Após sua captura pela criatura, nos é revelado ser ele o avô da protagonista, cuja mãe da mesma, depois de cinquenta anos, por alguma razão inexplicável, já que o filme não se interessa em debruçar-se sobre, decide procurar por ele no interior da caverna, e acaba por também desaparecer.

A busca pelo avô desaparecido há cinquenta anos, e da mãe, há algum tempo, é o que move a protagonista nessa expedição. O grupo de amigos que a acompanha, no entanto, não se justifica em qualquer sentido, senão pelo fato de serem “grandes amigos”. Quem são, o que fazem profissionalmente, como se conheceram, e o porquê decidiram arriscar as próprias vidas e integridades físicas para, sem qualquer conhecimento de exploração, entrar em um sistema de cavernas nunca mapeadas para procurar a família da protagonista, sem qualquer apoio das autoridades estatais, nunca são temas que o texto minimamente busca trabalhar, nem como uma justificativa dos laços afetivos que os levam a tal decisão. Não é pedir por personagens complexos, mas com um mínimo de humanidade, e um contexto hábil a justificar suas escolhas para com a protagonista nesse momento tão delicado.

O mesmo desses personagens vale também ao “professor”, vivido inclusive pelo veterano John Rhys-Davies, conhecedor das lendas do “Bone Keeper” (a criatura que nomeia o filme), que entra aleatoriamente na narrativa e serve apenas como instrumento para exposição do que se acredita ser o monstro, mesmo que já saibamos tudo de antemão. O indicativo da desnecessidade do prólogo se faz em sua primeira cena, quando roda, em um projetor, uma filmagem em película que encontrou numa filmadora super-8 próxima das cavernas (justamente a do avô da personagem). A face misteriosa do monstro que aparece nas imagens muito mais eficácia teria se não houvesse sido apresentada por diversas outras vezes anteriormente, descartando a possibilidade de um mistério.

Mas o pior ainda estaria por vir. Suspeitando da qualidade e da maneira como elaboradas as passagens em que a criatura era mostrada, no decorrer do filme algo fica cada vez mais nítido. Todas as cenas em que envolve ação, ataques, ou aparições do monstro antagonista e seu refúgio no interior das cavernas são realizadas utilizando apenas e tão somente recursos de inteligência artificial generativa. Se em determinado momento desconfiava ter visto um dedo a mais num personagem em certa passagem mais corrida, na qual a montagem realiza um corte rápido, tive a certeza do uso de imagens criadas por IA quando o monstro muda de rosto no meio de uma cena, e diante dos olhos do espectador, como uma falha em sua geração.

Ao intercalar passagens com o elenco, e cortar para uma cena em que são atacados, conseguimos enxergar algo que não são erros cometidos por uma equipe de efeitos visuais sem recursos. Rostos se deformando, olhos mudando de cor, interações estranhas entre a criatura e humanos, para além até mesmo dos planos de estabelecimento da floresta indicam que apenas inteligência artificial fora utilizada – não como complemento gráfico, mas como único recurso de efeitos visuais. O problema disso? A ausência de qualquer ambição artística por parte da direção de Howard J. Ford, a partir do momento em que abandona a intenção de criar algo propriamente, com base em referências próprias, para delegar a uma máquina a geração de imagens prontas, sem exatamente um controle criativo por detrás do resultado, do qual não houve uma supervisão artística verdadeira, ou um traço especial que pudesse conferir originalidade à criação. Inexiste uma mão humana, um responsável por efeitos visuais, uma equipe criativa, é só um computador gerando imagens a partir de referências genéricas.

E por incrível que pareça, talvez as muitas cenas e planos em IA sejam os únicos momentos inteligíveis ao longo do filme, porquanto a direção de Ford parece incapaz de filmar sem movimentar a câmera de maneira desajustada a todo tempo. Nem os ambientes mais simples, como um bar, possuem uma construção geográfica decente, e tão logo as cavernas igualmente soam confusas ao espectador, deixado a deriva de um labirinto cujo filme mal consegue construir.

Assim, depois de assistir a Bone Keeper, e pensar no destino dessas produções “Z”, talvez um filme como The Mummy Ressurected até se pareça melhor do que me soou à época. Não pela qualidade da obra em si, ainda baixa, mas pelo fato de que, ao menos naquele caso, de mais de uma década, os realizadores colocaram a mão na massa para trabalhar com efeitos visuais/especiais a fim de desenvolver cenários e uma criatura estranha, ainda que tosca, coisa que aqui Howard J. Ford simplesmente delegou a um computador, sem nem precisar discutir ou criar algo de verdade, e igualmente sem disfarçar. Tamanha, então, se revela a falta de interesse que nem mesmo um roteiro articulado fora pensado, abandonando mistérios, entregando respostas de bandeja ao espectador, e nos colocando para assistir a personagens unidimensionais – incluindo a protagonista, que mal tem destaque ao longo do filme –, sendo devorados por uma criatura cósmica genérica de IA. E a cereja do bolo: certamente algum orçamento tinha para contratar o veterano John Rhys-Davies para uma ponta no filme – dinheiro esse que preferiram usar na contratação de um ator-chamariz, para atrair atenção e colocar no pôster e divulgação, do que na obra em si.

John Rhys-Davies em cena de Bone Keeper (Fonte: Plaion pictures/Strike Media).

Bone Keeper estreou mundialmente no FrightFest Glasgow, e estará disponível nas plataformas digitais do Reino Unido no dia 06 de abril. No Brasil, ainda não há previsão de lançamento.

English review

With much of its footage produced through generative AI, Bone Keeper abandons artistic ambition in favor of automation, resulting in a narrative that fails to build mystery or spark any genuine interest in its generic characters, who are chased by an equally identity-less creature.

While watching Bone Keeper, I was reminded of a memory from my teenage years. I must have been around thirteen or fourteen when, during a school vacation day, I spent hours playing video games. After that long session, which stretched into the early hours of the morning, I still wasn’t sleepy, so I decided to open a random streaming service and watch whatever came up first, hoping it would help me fall asleep. That was when I stumbled upon a film titled The Mummy Resurrected, directed by Patrick McManus, a low-budget production that relied on its title, poster, and branding to mislead unsuspecting viewers – like I was at the time, as a fan of The Mummy – into thinking it was some sort of sequel to the Brendan Fraser classic.

The reason this memory resurfaced while watching Bone Keeper is that, in practice, both films are almost identical in their premises and narrative structures. Of course, there are differences in setting, character motivations, context, and, naturally, the antagonistic creature. Still, the foundation is strikingly similar: a group of people decides to explore ancient caves and encounters a supernatural entity that picks them off one by one, usually when they are most distracted.

The cast of Bone Keeper on a scene (Source: Plaion pictures/Strike Media)

As one might imagine, these are far from unique examples – this is a standard formula for low-budget films of this kind, often limited in quality and ambition, yet supported by a surprisingly loyal audience. It is no coincidence that productions like these are made year-round and that studios specializing in them continue to operate.

The issue here, however, is not the low budget itself, but how Bone Keeper stands out for its complete inability to generate even the slightest interest in the story it tells—or in the way it chooses to tell it.

Its first ten minutes are enough to completely eliminate any sense of mystery that could have been developed over the remaining eighty. The opening introduces us to the creature’s origins – from its birth via a meteorite to its settlement within Earth’s caves and its attacks on other beings, including humans. In doing so, the film immediately reveals the monster’s existence – something it could have left ambiguous, allowing both characters and audience to question the line between legend and reality – as well as its appearance and extraterrestrial origin.

This is followed by a narrated sequence over images of a man in the 1970s, equipped with a notebook and a Super 8 camera, documenting a brief expedition into the cave where the creature resides. His performance borders on the unintentionally comic, as he strikes exaggerated poses in an attempt to resemble an investigative journalist, while seemingly aware that he is being filmed, as if the film itself were acknowledging its own artificiality. After he is captured by the creature, we learn that he is the protagonist’s grandfather. Decades later, the protagonist’s mother, for reasons the film shows no interest in explaining, ventures into the same cave in search of him, only to disappear as well.

The search for a grandfather missing for fifty years and a mother gone for an unspecified time is what drives the protagonist’s expedition. The group of friends accompanying her, however, is never justified in any meaningful way beyond being described as “close friends”. Who they are, what they do, how they met, and why they would risk their lives, without any expertise, to explore an unmapped cave system in search of her family, with no support from authorities, are questions the script never attempts to address. It is not a matter of demanding complex characters, but at least some degree of humanity and context that could justify their choices in such a delicate situation.

The same applies to the “professor”, played by the veteran John Rhys-Davies, a supposed expert on the legend of the “Bone Keeper” (the creature that gives the film its title), who appears randomly and serves merely as a vehicle for exposition – despite the fact that the audience already knows everything. The redundancy of the prologue becomes evident in his very first scene, when he plays footage on a projector found in a Super 8 camera near the caves (the grandfather’s recording). The fleeting, mysterious glimpse of the creature in these images would have been far more effective had it not already been revealed multiple times before, completely undermining any potential suspense.

But the worst is yet to come. As the film progresses, it becomes increasingly clear – beyond initial suspicion – that every sequence involving the creature, its attacks, and even the cave environments themselves has been generated entirely through AI. What might at first seem like minor inconsistencies, such as an extra finger glimpsed during a quick cut, becomes undeniable when the creature’s face visibly changes mid-shot, right before the viewer’s eyes, as if glitching during its own creation.

By alternating between scenes featuring the actors and sudden cuts to AI-generated attack sequences, the film reveals something far more troubling than the limitations of a low-budget visual effects team. Faces warp, eyes change color, interactions between humans and the creature become erratic, and even establishing shots of the forest carry the unmistakable signs of generative imagery. This is not a case of AI being used as a supplementary tool, but rather as the sole visual effects resource. And therein lies the problem: the complete absence of artistic ambition. By delegating the creative process to a machine, director Howard J. Ford abandons any intention of crafting something with a distinct vision, relying instead on pre-generated imagery with no meaningful creative control, no artistic supervision, and no identifiable stylistic signature. There is no human touch – no visual effects team, no cohesive creative effort -just a computer producing generic images based on equally generic references.

Ironically, these AI-generated sequences may be the only moments that are even somewhat intelligible, as Ford’s direction otherwise seems incapable of staging scenes without constantly shaking or misaligning the camera. Even the simplest environments, such as a bar, feels from lack coherent spatial construction, and once inside the caves, the confusion only intensifies, leaving the viewer adrift in a labyrinth the film itself fails to properly establish.

After watching Bone Keeper and reflecting on the trajectory of these “Z-grade” productions, even a film like The Mummy Resurrected seems, in retrospect, more respectable than it did at the time. Not because of its quality, which remains low, but because, at the very least, its creators engaged directly with the process, crafting visual effects and creatures with their own hands, however crude the results. Here, Howard J. Ford simply delegates everything to a computer, without even attempting to disguise it.

Such is the lack of interest that even a minimally structured script is absent, with mysteries discarded, answers handed to the audience upfront, and a series of one-dimensional characters – including a protagonist who barely stands out – reduced to being devoured by a generic AI-generated cosmic creature. And as the final irony, while there was evidently enough budget to cast veteran John Rhys-Davies in a minor role, that investment seems aimed more at marketing appeal than at improving the film itself.

John Rhys-Davies on a scene from Bone Keeper (Source: Plaion pictures/Strike Media)

Bone Keeper had its world premiere at FrightFest Glasgow and will be available on digital platforms in the United Kingdom on 6th April.

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