François Ozon adapta o livro inadaptável de Albert Camus
Albert Camus é um dos autores de destaque do existencialismo francês e da filosofia do absurdo. Mas contrário às expectativas, a obra O Estrangeiro não foi tantas vezes adaptada ao cinema quanto alguém poderia pressupor. Com exceção da adaptação de 1967, dirigida por Luchino Visconti e estrelada por Marcelo Mastroianni, uma escolha italiana demais para viver um personagem francês demais, só agora o francês François Ozon revisita a tragédia de Mersault. Que bom que decidiu fazê-lo, e apresentar o protagonista à procura de um sentido na vida e da razão de ser para o público contemporâneo, em um contexto apropriado para que o drama de Camus reverbere talvez com maior densidade e profundidade.
Camus escreveu a história durante o início da Segunda Guerra Mundial e imprimiu, em Mersault, a indiferença e desilusão com o mundo que habitava. A adaptação preserva o contexto histórico: o período da ocupação francesa na Argélia, no norte da África, e a forma que é contada: após a prisão de Mersault por ter assassinado um árabe seguida do flashback que contextualiza a errância do homem num país que não é o seu. No dia após à morte da mãe, Mersault foi à praia, ao cinema, ao café e finalmente passou a noite com a sua companhia, Marie. Ao invés de vivenciar o luto, viveu a vida. Mais do que ser julgado pelo assassinato de um árabe – num período em que um francês seria facilmente absolvido ou teria a pena abrandada -, Mersault é julgado por seu comportamento em relação às convenções morais da sociedade conservador da época.
Sem dúvida, é uma história atraente que Ozon retrata com o auxílio da fotografia preto e branco de Manuel Dacosse. Esta opção retira do cinema sua cor. Ao fazê-lo, também drena sua beleza e vida, a fim de mergulhar Mersault em uma realidade de brancos bastante intensos e solares e pretos expressivos e sombrios, coerentes com o protagonista retratado. O preto e branco ainda remove o filme da memória ou do real, tornando-o mais um retrato emocional e psíquico de um personagem que não exterioriza o que sente (ou o faz pontualmente). E, assim, buscamos as pistas para julgá-lo por meio da encenação e composição elaborada do panorama visual da narrativa. Nisto, Ozon se sobressai.

O Estrangeiro preenche as lacunas contidas na obra original pelo olhar rigoroso de Ozon àquele mundo. Em vez de imagens expressivas e evocativas, o olhar reativo de Mersault à Argélia reproduz também a maneira com que o francês colonizador daquele período enxerga um mundo dobrado a sua vontade. Mersault assiste à Salamano (Denis Lavant, excelente como de costume) espancar seu cachorro, para após, lamentar que tenha fugido; assiste ao vizinho e cafetão, Sintès (Pierre Lottin), agredir Djemila (Hajar Bouzaouit) e não ser responsabilizado, senão por uma advertência ineficaz; assiste à beleza de Marie e reage a esta porque é o que é esperado dele, não porque é o que deseja e anseia. Estes olhares trivializam o amor ou a violência, normalizam o absurdo da ocupação colonialista e da violência de gênero retratadas de muitas formas.
Mersault parece estar anestesiado ao mundo ao redor. A câmera fielmente retrata os efeitos emocionais desta anestesia, embora, óbvio, o espectador não ficará indiferente com a violência contra a mulher e o animal doméstico, mas por causa do conteúdo da imagem, ao invés de sua forma. A imagem permanece ambígua; cinematograficamente fotogênica muito por causa do preto e branco que deixa tudo belo – e aí é minha opinião pessoal – , mas despida de significado, porque quem deveria dar-lhe significado, Mersault, é insensível ao diferenciar o belo do grotesco. É onde reside a força e fraqueza de O Estrangeiro, porque facilmente podemos cair na apatia e no tédio; pior, mesmo na antipatia ao protagonista que impede o movimento para tentar compreendê-lo.

Por este desenho narrativo, Benjamin Voisin é o livro em branco que precisa ser. Impossível, ou difícil de ser lido ou compreendido, não há ou não parece haver nada atrás de olhos que parecem cegos pela luz do sol. Não há emoção, mas ausência dela; não há paixão, ainda que tampouco haja frieza; não há sensibilidade nos diálogos que parecem recitados. Quando Marie pergunta se quer casar, Benjamin somente balbucia algo do tipo tanto faz. Divorciado da sociedade – ou da identidade, talvez -, Benjamin revela habilmente a existência por existir, e reserva ao momento catártico do personagem a oportunidade para que esta represa se rompa definitivamente. A sentença da indiferença. Rebecca Marder é o contrário de Benjamin: apaixonante, mas não alienada a ponto de ignorar as violência e contradições do cotidiano da França no país ou do relacionamento com Mersault.
Confesso ter desejado ver mais o protagonista através de seu olhar, mesmo que isto pudesse trair a essência da obra original e tirar-lhe as lacunas indispensáveis para o comentário reproduzido por Ozon. E, por óbvio, ao crítico cabe analisar a obra que existe, não a que poderia ter sido nem a que desejaria que fosse. Por mais que reconheça esta condição, não significa que deva preservar a indiferença de Mersault. O Estrangeiro é uma obra fotogenicamente bela; oportunista, já que lançada em um período convidativo ao pensamento existencialista ou absurdo; mas, por conceito, distante o suficiente para que sejamos capazes de só refletir, não de sentir. Sei que há um coração batendo no peito de Mersault, e mesmo que possa acessá-lo brevemente, o que sinto é só o sangue frio de sua imensidão vazia.
O Estrangeiro estreia nos cinemas brasileiros quinta-feira, 16/04.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



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