O racismo, em suas múltiplas vertentes e expressões, opera de maneira estratégica. Ao estruturar a sociedade, moldar instituições e orientar pensamentos e indivíduos, atua como uma bomba atômica, cujos efeitos destrutivos se manifestam a curto, médio e longo prazo, por vezes disseminados de modo sutil, a ponto de tornar quase imperceptíveis as fissuras dessa radiação tóxica, arrastando consigo marcas que, se não enfrentadas, tendem a se agravar indefinidamente.
No campo da saúde, o racismo pode atuar de modo silencioso e fugidio a qual nos referimos. Além de sofrerem com o menor acesso a consultas e exames preventivos, o sistema de saúde, público ou privado, negligencia a população negra em diferentes níveis: desde análises laboratoriais que ignoram especificidades raciais e tomam a saúde branca (e masculina) como parâmetro, até a administração de subdoses de anestésicos e sedativos a que são submetidos homens e mulheres negros, em razão do mito que ainda atribui às pessoas negras maior tolerância à dor.
Se já há negligência em relação à saúde física, o que se dirá da saúde mental, que, por si só, e de forma ampla, já constitui uma dimensão humana precarizada e desassistida? E mais: o que dizer da saúde mental dos homens, grupo que, estatística e historicamente, menos recorre aos serviços de saúde?
É nos reflexos invisibilizados dessa estrutura massacrante que Timidez, longa dirigido por Thiago Gomes Rosa e Susan Kalik, constrói uma narrativa claustrofóbica e sufocante, reveladora do estado mental de Jonas (Dan Ferreira), um jovem negro que sofre de ansiedade e inabilidade social não diagnosticadas, disfarçadas e reduzidas a mera timidez. Ele vive com o irmão cego, Nestor (Antônio Marcelo), em Salvador, num apartamento escuro, de cortinas sempre fechadas, paredes azuis e decorado com quadros abstratos e mobília desgastada pelo tempo. Entre os dois, a relação oscila entre afeto e cuidado, mas também controle e manipulação, uma dualidade encenada em um jogo espelhado de personalidades marcadas por traumas infantis e familiares ainda por elaborar, que comprometem profundamente uma vida adulta em constante busca por um respiro que nunca chega.
Timidez é uma adaptação da peça teatral O Cego e o Louco, de autoria de Cláudia Barral. Nos palcos, a relação entre os dois irmãos originalmente não é transpassada pelo recorte racial. Cinema e teatro se desenvolvem a partir de uma trama circunscrita aos acontecimentos de uma única noite, enquanto essas duas figuras solitárias aguardam a visita de uma vizinha. No tempo da espera, trocam palavras e sentimentos intensos – animosidades e zombarias, farpas e afetos – simultaneamente revisitando o passado e as (poucas) perspectivas de mudança. O formato fílmico abre espaço para a exploração de flashbacks e raras cenas externas, que conferem maior impacto dramático aos conflitos, sem, contudo, abandonar a teatralidade da encenação e dos diálogos, o que se mostra eficaz na dinâmica espacial dos dois atores no apartamento.
Aliás, tempo e espaço são elementos fundamentais de Timidez. No interior do apartamento, o tempo da espera se dilata, suspenso em sua representação delirante da relação entre esses dois homens negros. Sabemos que é noite apenas porque a visita da vizinha está marcada para um jantar. As luzes internas, que se apagam e se acendem com frequência, projetando sombras precisas, são inteiramente artificiais, o que descontextualiza ainda mais o espectador da noção convencional de tempo e traduz com precisão o estado mental descontrolado e adoecido de Jonas.
No que se refere ao espaço, para além da atmosfera asfixiante e opressiva, que também traduz a fragilidade da saúde mental do personagem, o trabalho de direção de arte de Carol Tanajura (Oeste Outra Vez) revela rigor nos detalhes que evocam as memórias de infância acessadas pelos irmãos nos flashbacks, ao mesmo tempo em que os comprime naquele espaço exíguo, como se não pudessem escapar de si mesmos. Quadros dispostos de forma torta, a mobília fora do lugar habitual, o sabonete posto no lugar errado: tudo se converte em elemento-gatilho para a manifestação da ansiedade.
Se o apartamento sufoca e reflete a manifestação do estado mental e o espírito desassossegado de Jonas, seu próprio nome, não por acaso, convoca outro elemento aprisionador que o atormenta: a narrativa bíblica do Livro de Jonas. Na alegoria, o profeta é engolido por uma baleia e, protegido por Deus, permanece vivo em seu interior por três dias. O apartamento, por sua vez, surge como clara referência a esse grande peixe, um espaço fechado em que o tormento da autorreflexão, das sensações à flor da pele, do medo extremo, da elaboração do trauma e das dores constitui caminho para uma possível libertação. Em Timidez, Nestor se refere à baleia como um “mausoléu gigante de carne” – o próprio corpo retido de Jonas.
Para além de um trabalho de tempo e espaço, Timidez é, sobretudo, um estudo humano de personalidades controversas e frágeis, especialmente no que diz respeito à figura masculina espelhada nos dois irmãos. Ambos apresentam traços muito específicos, ressaltados, sobretudo, pela acuidade olfativa e auditiva de Nestor, intensificada pela ausência da visão, o que lhe permite conhecer e antecipar os gestos de Jonas: as mãos nervosas que se entrelaçam, o suor que escorre pela testa, os pés em constante movimento, a respiração ofegante, todas marcas evidentes da ansiedade.

Nestor demonstra cuidado genuíno pelo irmão, mas também se revela debochado e provocador, protegendo-se de suas próprias fragilidades por meio da manipulação daquele mentalmente adoecido: busca resguardá-lo e mantê-lo sob controle, como Deus manteve Jonas no interior da baleia. Embora preservem características bastante distintas, à medida que Timidez avança, percebe-se que essas identidades passam a se fundir gradativamente.
E a visita que eles tanto esperam? Lúcia (Evana Jeyssan), a vizinha que foi convidada para o jantar, é quase uma idealização feminina. A inadequação social de Jonas impede que ele se aproxime mesmo apaixonado, e ela será propulsora de todos os embates e monólogos. A expectativa de sua presença expressa muito do que dois homens projetam sobre as mulheres, extrapolando a manifestação de um sentimento genuíno para se configurar como tentativa de suprir a solidão pela substituição da figura materna perdida na infância – o filme sugere que a mãe, vista nas cenas que remetem ao passado, também enfrentava um quadro de adoecimento mental. Os traumas se mostram geracionais, e Jonas e Nestor, dois homens adultos isolados, projetam no feminino a promessa de cura para seus padecimentos e aflições.
Aqui, cabe ressaltar o modo como o racismo também atua na estrutura familiar dos irmãos. O acesso ao passado dos personagens indica a ausência da figura paterna, o que permite inferir que Tereza (Jane Santa Cruz) é uma mãe solo. Essa configuração é recorrente em famílias negras: no Brasil, cerca de 90% das 11 milhões de mães solo são mulheres negras. A idealização e a ausência da figura feminina encontram origem, portanto, em raízes tão maculadas pelo racismo quanto o próprio adoecimento mental.
Timidez estrutura-se em vaivéns e impasses, articulados por meio de diálogos e lembranças. Entretanto, o formato, embora eficaz na provocação de sentimentos que ajudam a compreender a situação atual dos personagens, nem sempre alcança a organização pretendida. Há, nos flashbacks, certa precariedade que destoa do restante do longa. Além disso, a remissão constante a Lúcia em meio aos embates entre os personagens masculinos, bem como as expectativas em torno de sua chegada, evidenciam a fragilidade da masculinidade dos irmãos, mas também tornam incômoda a redução da personagem feminina a essa figura indispensável, investida de uma função salvadora.
Por fim, aquilo que poderia ser lido como o mais evidente elemento de aprisionamento de Timidez, qual seja, a cegueira, revela-se, paradoxalmente, como a fresta por onde alguma forma de libertação ainda mostra-se possível. Nesse drama familiar que coloca em espelho dois homens negros em confronto com suas próprias fissuras, cujos isolamentos parecem interditar qualquer abertura ao amor, a estrutura racista paralisante, origem de suas dores, segue operando de modo invisível. Cada passo para fora de casa, portanto, assume o peso de uma conquista mínima, porém decisiva.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


