Crítica em português
O alcoolismo, ou a dependência de maneira geral, costuma ser representado no cinema contemporâneo com uma cruel condescendência; quando não surge como o sintoma atraente de artistas autodestrutivos, aparece reduzido à patologia moral de narrativas interessadas em transformar a dependência num arco edificante de superação. Another Day, título internacional de Garance, incorpora ambas as dimensões; e o que o torna inicialmente interessante é justamente a maneira como reconhece e procura desarmar essas armadilhas. O álcool, para a personagem-título, não funciona apenas como vício, mas como combustível existencial; e, longe de redimi-la ou mesmo compreendê-la, a narrativa escrita e dirigida por Jeanne Herry parece interessada apenas em registrar que pessoas assim existem.
Quando encontramos Garance (Adèle) pela primeira vez, ela já é alguém habitando um colapso permanente. Uma jovem atriz talentosa, espirituosa, aparentemente sociável, que consegue circular entre ensaios teatrais, apartamentos improvisados, festas e relações afetivas mantendo uma aparência de normalidade. Só que Jeanne Herry compreende desde o princípio que o alcoolismo raramente começa na destruição. Pelo contrário, a dependência frequentemente se sustenta na capacidade temporária de o indivíduo parecer funcional profissional e socialmente enquanto tudo se degrada internamente. O fígado – órgão que não sente dor – sofre silenciosamente as consequências.
Ainda assim, após ser demitida da trupe teatral depois de se atrasar e perder um adereço de cena, Garance consegue encontrar trabalhos esporádicos como dubladora, manter relações sexuais e afetivas e até preservar certo humor autodepreciativo ao ironizar a própria condição alcoólica. Essa ilusão de funcionalidade produz a impressão de que não existe problema algum ou de que, se existir, pode ser facilmente contornado. E talvez seja justamente aí que resida a potência desta comédia dramática: o álcool jamais é reduzido a uma explicação traumática retrospectiva. Ele é apenas algo com que Garance convive desde os 13 anos, por circunstâncias que jamais conheceremos.
A estrutura fragmentada da narrativa contribui enormemente para isso. A partir da introdução de elipses frequentes – a passagem abrupta do tempo – registradas em fusões para o preto que reproduzem estilisticamente os apagões da embriaguez e a impressão de haver perdido completamente a âncora temporal, Jeanne Herry compartilha com o espectador a desorientação subjetiva de Garance, acordando sem compreender exatamente o que aconteceu anteriormente. Uma estratégia de montagem particularmente competente em expressar a lógica do vício.
A própria encenação reproduz essa instabilidade. Os apartamentos provisórios para os quais Garance se muda a cada 20 ou 25 minutos, as relações afetivas fluidas – que começam no envolvimento com um diretor desempregado, passam por uma experiência homoafetiva e chegam à relação com Pauline -, os deslocamentos constantes entre trabalhos e festas: tudo transmite a sensação de uma existência incapaz de encontrar qualquer eixo de estabilidade, como manifestação física de uma ansiedade incapaz de estabilizar a própria experiência cotidiana.
Também ajuda o trabalho de Adèle Exarchopoulos, que talvez encontre aqui uma das interpretações mais delicadas de sua carreira. Pois existe uma tendência perigosa em papéis sobre dependência: transformar sofrimento em histrionismo performático. Adèle tenta evitar o tempo inteiro que isso aconteça com sua Garance, que raramente explode emocionalmente. O que a atriz constrói é mais inquietante: o retrato de uma mulher cuja deterioração acontece através de pequenos gestos de negligência consigo mesma – atrasos, esquecimentos, lapsos ou situações de vulnerabilidade e violência, como a sequência ocorrida no interior do ônibus.
E a narrativa acerta particularmente ao compreender como a pandemia de Covid-19 intensificou processos psicológicos já existentes. O isolamento remove os mecanismos sociais que ainda conseguiam mascarar a ansiedade da protagonista. No confinamento, apesar do amor e afeto de Pauline, Garance começa a beber cada vez mais cedo. Uma progressão que, se não é estimulada, tampouco é impedida pela companheira, que atravessa a cidade de bicicleta apenas para comprar caixas de vinho.
Só que a narrativa começa a perder força exatamente quando abandona esta observação mais subjetiva e observacional da dependência para se aproximar de mecanismos dramáticos convencionais. A entrada da doença da irmã, diagnosticada com leucemia, introduz uma dimensão melodramática que simplifica conflitos e cria até a oportunidade de uma chantagem emocional bastante inconveniente, ainda que saibamos o quanto este tipo de pressão costuma existir dentro de estruturas familiares. E o problema não está propriamente na existência desta subtrama, mas na maneira como ela é introduzida e posteriormente abandonada narrativamente.
Há algo semelhante na figura da médica hepatologista ou mesmo na relação com Pauline. Ela deixa de existir como sujeito dramático para assumir uma posição quase beatificada dentro da narrativa, como se sua função fosse apenas suportar o padrão autodestrutivo de Garance, permanecer firmemente ao seu lado oferecendo amor e apoio, até culminar numa cena emocionalmente constrangedora em que ambas verbalizam didaticamente os próprios sentimentos. O filme confunde empatia com aceitação irrestrita, quando a dependência frequentemente destrói justamente a possibilidade saudável de reciprocidade afetiva.
E talvez o principal problema do roteiro esteja na dificuldade em sustentar as próprias complexidades emocionais que apresenta. Além de existirem subtramas resolvidas rápido demais, conflitos que desaparecem pouco depois e relações subdesenvolvidas, nada parece proporcional à relevância do tema abordado. E isto é particularmente frustrante porque Jeanne Herry demonstra possuir enorme sensibilidade para registrar o cotidiano da dependência. Os melhores momentos do filme não surgem nos confrontos dramáticos, mas nos pequenos constrangimentos sociais confundidos com humor, revelando como o álcool é um inimigo insidioso que se disfarça com tamanha naturalidade que frequentemente só percebemos sua dimensão quando já é tarde demais.
No fundo, Garance funciona melhor quando compreende que o vício produz um estado contínuo de elipses subjetivas e interrupções existenciais. Garance não consegue projetar-se profissionalmente, consolidar relações ou compreender exatamente em quem se tornou enquanto permanece aprisionada pela própria dependência. Quanto mais fragmentado e caótico o filme se torna, melhor ele funciona. Quando tenta se organizar dentro de uma estrutura dramática convencional – com derivações dramáticas desnecessárias e personagens laterais incapazes de produzir densidade emocional proporcional -, Garance perde parte da complexidade que fazia sua protagonista tão potente. E a razão talvez seja simples: uma personagem desta dimensão resiste justamente às limitações do drama convencional.
O filme está na Seleção Oficial do Festival de Cannes 2026.
English review
Alcoholism – or addiction more broadly – is often represented in contemporary cinema with a cruel condescension; when it does not emerge as the seductive symptom of self-destructive artists, it is reduced to the moral pathology of narratives interested in transforming dependency into an uplifting arc of redemption. Another Day, the international title of Garance, embodies both tendencies, and what initially makes it interesting is precisely the way it recognizes and attempts to disarm these traps. For the title character, alcohol does not merely function as an addiction, but as existential fuel; and, far from redeeming or even fully understanding her, the narrative written and directed by Jeanne Herry seems interested only in acknowledging that people like this exist.
When we first encounter Garance (Adèle), she is already inhabiting a permanent collapse. A talented, witty, apparently sociable young actress capable of moving through theater rehearsals, improvised apartments, parties, and romantic relationships while still maintaining an appearance of normalcy. Yet Jeanne Herry understands from the outset that alcoholism rarely begins with destruction. On the contrary, addiction often sustains itself through the temporary ability of the individual to appear professionally and socially functional while everything deteriorates internally. The liver – the organ that does not feel pain – silently suffers the consequences.
Even so, after being fired from her theater troupe for arriving late and losing a stage prop, Garance still manages to find occasional work as a voice actress, maintain sexual and romantic relationships, and even preserve a certain self-deprecating humor by ironically acknowledging her own alcoholism. This illusion of functionality creates the impression that there is no real problem, or that, if there is one, it can easily be managed. And perhaps this is precisely where the film’s strength lies: alcohol is never reduced to some retrospective traumatic explanation. It is simply something Garance has lived with since the age of 13, for reasons we will never fully know.
The fragmented structure of the narrative contributes enormously to this effect. Through the introduction of frequent ellipses – abrupt passages of time – registered through fades to black that stylistically reproduce the blackouts of intoxication and the sensation of having completely lost one’s temporal anchor, Jeanne Herry shares Garance’s subjective disorientation with the viewer, waking up without fully understanding what happened beforehand. It is an editing strategy particularly effective at expressing the logic of addiction.
The mise-en-scène itself reproduces this instability. The temporary apartments Garance moves into every 20 or 25 minutes, the fluid emotional relationships – beginning with her involvement with an unemployed director, moving through a same-sex experience, and eventually arriving at her relationship with Pauline -, the constant movement between jobs and parties: everything conveys the sensation of an existence incapable of finding any stable axis, as a physical manifestation of an anxiety unable to stabilize everyday experience itself.
It also helps enormously that Adèle Exarchopoulos perhaps delivers one of the most delicate performances of her career here. There is a dangerous tendency in addiction narratives to transform suffering into performative histrionics. Adèle spends the entire film trying to prevent that from happening with her Garance, who rarely explodes emotionally. What the actress constructs instead is something far more disturbing: the portrait of a woman whose deterioration unfolds through small gestures of self-neglect – lateness, forgetfulness, lapses, or situations of vulnerability and violence, such as the sequence aboard the bus.
The narrative is also particularly effective in understanding how the Covid-19 pandemic intensified preexisting psychological processes. Isolation removes the social mechanisms that still managed to mask the protagonist’s anxiety. During confinement, despite Pauline’s affection and love, Garance begins drinking earlier and earlier each day. A progression that, if not actively encouraged, is certainly not interrupted by her partner, who crosses the city by bicycle simply to buy boxes of wine.
Yet the narrative begins to lose strength precisely when it abandons this more subjective and observational approach to addiction in favor of more conventional dramatic mechanisms. The introduction of the sister’s illness – diagnosed with leukemia – brings a melodramatic dimension that simplifies conflicts and even creates the opportunity for a rather uncomfortable emotional manipulation, even if we understand how this kind of pressure often exists within family structures. The problem is not necessarily the existence of this subplot, but the way it is introduced and later narratively abandoned.
Something similar happens with the hepatologist or even with Pauline herself. She ceases to exist as a dramatic subject and instead assumes an almost beatified position within the narrative, as though her sole function were to endure Garance’s self-destructive behavior, remaining loyally by her side offering love and support, culminating in an emotionally awkward scene in which both women didactically verbalize their feelings. The film confuses empathy with unconditional acceptance, even though addiction frequently destroys the very possibility of healthy emotional reciprocity.
And perhaps the screenplay’s central problem lies in its inability to sustain the emotional complexities it introduces. Beyond the existence of subplots resolved far too quickly, conflicts that disappear shortly afterward, and underdeveloped relationships, nothing feels proportional to the thematic weight of the material itself. This is particularly frustrating because Jeanne Herry demonstrates enormous sensitivity in portraying the everyday reality of addiction. The film’s best moments do not emerge from dramatic confrontations, but from small social embarrassments mistaken for humor, revealing how alcohol is an insidious enemy capable of disguising itself so naturally that we often only perceive its true dimension when it is already too late.
At its core, Garance works best when it understands that addiction produces a continuous state of subjective ellipses and existential interruptions. Garance cannot project herself professionally, consolidate relationships, or even fully understand who she has become while remaining imprisoned by her dependency. The more fragmented and chaotic the film becomes, the better it works. Once it attempts to organize itself within a more conventional dramatic structure – filled with unnecessary narrative digressions and secondary characters incapable of generating proportional emotional density -, Garance loses part of the complexity that initially made its protagonist so compelling. And perhaps the reason is simple: a character of this magnitude resists precisely the limitations of conventional drama.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


