Crítica em português
Quando comecei a me interessar mais por cinema e decidi registrar minhas opiniões sobre os filmes em formato de críticas e reflexões, o cinema romeno foi um dos que primeiro despertaram essa minha sensibilidade. O diretor Cristian Mungiu, de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, foi um dos autores daquela época e daquele país que me convidou a encarar o cinema além da cosmética comodista hollywoodiana. Em suas histórias sobre a sociedade de um país moldado sob a égide do regime comunista e que, mais tarde, tornou-se uma democracia aparelhada, corrupta e opressiva, anunciava-se um cinema de estética rígida, embora sustentado por uma discussão afiada, meticulosa e irreverente sobre as idiossincrasias e contradições de uma nação que se abria ao mundo. E também ao cinema do mundo. Depois de Além das Montanhas e R. M. N. – que tive a oportunidade de assistir em minha primeira cobertura do Festival de Cannes de 2022 -, este Fjord, no qual deixa a Romênia em direção à Noruega acompanhado de Mihai, Lisbet e os cinco filhos.
Mihai (Stan), um engenheiro aeronáutico romeno, decide deixar seu país acompanhado da esposa (Reinsve), uma enfermeira, em direção à Noruega, país dela, e também a uma vida mais estável. Eles são recebidos calorosamente pelos vizinhos Mia (Carlehed) e Mats (Tønseth) e, mesmo empregados em funções inferiores às suas competências, não reclamam, já que têm a oportunidade de viver em uma democracia reconhecidamente progressista. Aparentemente. Certo dia, Elia, a filha mais velha, aparece com um machucado no corpo. Para piorar, os professores entreouviram uma conversa dos filhos sobre terem sido chutados pelos pais. Talvez seja um mal-entendido, mas, por precaução – ou preconceito -, os professores denunciam o casal ao Conselho Tutelar. Ato contínuo, a família perde temporariamente a guarda dos filhos, colocados em lares adotivos, enquanto os pais ficam presos a uma investigação burocrática que pode até levá-los à prisão.
Para alguém que, como eu, é formado em Direito, Fjord é um prato cheio para debater o melhor interesse da criança à luz da autoridade familiar e do direito à liberdade religiosa; e também para alguém que, como eu, é cinéfilo e progressista, trata-se de um filme capaz não necessariamente de questionar ou desafiar meus valores, mas de revelar que o mundo é mais vasto do que as fronteiras do meu conhecimento. Afinal, em teoria, está em julgamento o direito de os pais educarem os filhos por meio de palmadas – de forma física, e não por meio do diálogo. Na prática, porém, estão no banco dos réus a origem e a religião professadas por aquela família. Isto é interessante porque a família cristã ortodoxa, que, na maioria dos casos, por definição, sustenta valores conservadores, encontra-se em confronto com o melhor interesse da criança e do adolescente – uma construção relativamente recente e oriunda do pensamento progressista.
Mistura de xenofobia e intolerância religiosa disfarçadas de educação e gentileza, o contexto de Fjord já anuncia o senso de humor malicioso do diretor e roteirista quando a família é recebida na Noruega com a observação de que lá não existe Conde Drácula. A piada de mau gosto prenuncia o infortúnio da família. Outras crianças já chegaram à escola com hematomas e machucados sem que houvesse denúncia ao Conselho Tutelar; enquanto isso, apenas por mencionar o aprendizado religioso em sala de aula, Elia é repreendida. Mais do que simplesmente defender a família, Mungiu explora a ironia daquela situação. Os filhos são espalhados por lares adotivos localizados a até 80 quilômetros de distância, e o bebê passa a ter acesso dificultado ao leite materno. Além disso, enquanto o Conselho Tutelar defende – com razão – que a violência não é uma forma socialmente aceitável de educação, não demonstra a mesma preocupação diante de alterações profundas na formação das crianças, como o acesso irrestrito ao YouTube e a telefones celulares.
Enquanto a criação daquela família se torna alvo de críticas – algumas justas, outras não -, a família padrão norueguesa permanece aparentemente incólume, ao menos até o olhar de Mungiu penetrar suas rachaduras. Julgam a filha por não demonstrar empatia, quando, na realidade, Noora está sofrendo e imprime essa dor no próprio corpo ao se cortar. Já Mats impõe sua vontade à filha ao bater firmemente na mesa; pode não ser uma palmada, mas continua sendo uma forma de violência emocional e psicológica que não deveria ser ignorada. Mesmo Gunda (Petersen), integrante do Conselho Tutelar, é questionada por não ser mãe e, portanto, supostamente incapaz de exercer sua função. A sociedade modelo revela suas fissuras, enquanto Mihai, por vias tortuosas, deixa emergir a raiva que coexistia com a imagem de pai amoroso.
O que também não o exime de suas limitações decorrentes da religião que professa. É perfeitamente possível imaginar um cenário em que Mihai afastaria Elia de Noora caso a amizade entre as duas evoluísse para algo afetiva e romanticamente mais concreto. Além disso, Mihai parece incapaz de reconhecer quando está errado – justamente o primeiro ensinamento que transmite à filha e que retorna ao longo do filme como um eco incômodo. Uma boa paternidade talvez seja aquela que reconhece sua responsabilidade sobre os filhos, mas que também escuta, pondera seus desejos e evita aliená-los das decisões que os envolvem. Um diretor maduro como Mungiu não oferece respostas simples; prefere mostrar como nossas convicções entram em choque quando confrontadas com contextos que extrapolam os limites da nossa própria realidade. Se há algo que me incomoda no roteiro, é a decisão de transformar, a partir das redes sociais, um julgamento burocrático em uma perseguição religiosa de grandes proporções, reunindo grupos conservadores e defensores da família tradicional. Não porque isso seja inverossímil, mas porque o diretor parece sugerir uma discussão que nunca chega a desenvolver plenamente.
Mungiu é muito mais eficiente ao intensificar o envolvimento do espectador por meio do prolongamento da duração das cenas sem cortes, jamais entediantes apesar da recorrência de planos estáticos. Durante o julgamento, por exemplo, aguardamos o instante em que Sebastian Stan explodirá e revelará – talvez – a verdadeira dimensão de sua personalidade, exatamente como o advogado de acusação parece esperar. Em um elenco bastante competente, sustentado por um texto sólido e contundente, Lisa Carlehed destaca-se primeiro como a vizinha Mia e, posteriormente, como advogada da família: uma personagem que compreende que a melhor justiça não é a justiça de suas próprias convicções; uma mulher que não abre mão de seus valores ateístas, mas que ainda assim defende o direito de Mihai e Lisbet professarem os seus valores teístas.
Com um quadro final que planta uma interrogação persistente na mente do espectador, Mungiu continua, para mim, confirmando-se como um excelente cicerone para um cinema autoral que, até hoje, me encanta por suas discussões maduras e por suas visões de um mundo muito maior do que o meu.
O filme está na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2026.
English review
When I first became more interested in cinema and decided to register my opinions about films through reviews and reflections, Romanian cinema was among the first to awaken this sensitivity in me. Cristian Mungiu, director of 4 Months, 3 Weeks and 2 Days, was one of the filmmakers from that era and that country who invited me to see cinema beyond the complacent cosmeticism of Hollywood. In his stories about a society shaped under the aegis of the communist regime and which later became a rigged, corrupt, and oppressive democracy, there emerged a cinema of rigid aesthetics, though sustained by a sharp, meticulous, and irreverent discussion about the idiosyncrasies and contradictions of a nation opening itself to the world — and also to the cinema of the world. After Beyond the Hills and R.M.N. — which I had the opportunity to watch during my first coverage of the Cannes Film Festival in 2022 — comes Fjord, in which Mungiu leaves Romania for Norway, accompanied by Mihai, Lisbet, and their five children.
Mihai (Stan), a Romanian aeronautical engineer, decides to leave his country alongside his wife (Reinsve), a nurse, heading toward Norway — her homeland — and also toward a more stable life. They are warmly welcomed by their neighbors Mia (Carlehed) and Mats (Tønseth), and even though they work in positions beneath their qualifications, they do not complain, since they have the opportunity to live in a democracy widely recognized as progressive. Apparently so. One day, Elia, the eldest daughter, appears with a bruise on her body. To make matters worse, teachers partially overhear a conversation in which the children mention having been kicked by their parents. Perhaps it is a misunderstanding, but, out of precaution — or prejudice — the teachers report the couple to Child Protective Services. As an immediate consequence, the family temporarily loses custody of the children, who are placed in foster homes, while the parents become trapped in a bureaucratic investigation that could even lead them to prison.
For someone like me, who holds a law degree, Fjord is a fascinating work through which to debate the best interests of the child in light of parental authority and religious freedom; and, likewise, for someone like me who is both a cinephile and progressive, it is a film capable not necessarily of questioning or challenging my values, but of revealing how much broader the world is than the boundaries of my own knowledge. After all, in theory, what is being judged is the parents’ right to educate their children through spanking — physically, rather than through dialogue. In practice, however, what stands trial is the family’s origin and the religion they profess. This is particularly interesting because the Orthodox Christian family, which in many cases and by definition upholds conservative values, finds itself confronting the best interests of the child and adolescent — a relatively recent concept born from progressive thought.
A mixture of xenophobia and religious intolerance disguised as politeness and civility, Fjord already announces the director and screenwriter’s malicious sense of humor when the family is welcomed to Norway with the remark that Count Dracula does not exist there. The tasteless joke foreshadows the family’s misfortune. Other children had arrived at school with bruises and injuries without Child Protective Services being contacted; meanwhile, simply for mentioning her religious upbringing in class, Elia is reprimanded. More than merely defending the family, Mungiu explores the irony of that situation. The children are scattered across foster homes located up to 80 kilometers apart, while the baby struggles to maintain access to breast milk. Furthermore, while Child Protective Services rightly argues that violence is not a socially acceptable form of education, it does not display the same concern regarding profound alterations in the children’s upbringing, such as unrestricted access to YouTube and cell phones.
While the upbringing provided by that family becomes the target of criticism — some fair, others not — the standard Norwegian family remains apparently unscathed, at least until Mungiu’s gaze penetrates its cracks. They judge the daughter for lacking empathy when, in reality, Noora is suffering and inscribes that pain onto her own body through self-harm. Mats, meanwhile, imposes his will upon his daughter by striking the table forcefully; it may not be a spanking, but it remains a form of emotional and psychological violence that should not be ignored. Even Gunda (Petersen), a member of Child Protective Services, is questioned for not being a mother and therefore supposedly incapable of performing her role. The model society begins to reveal its fractures, while Mihai, through tortuous paths, allows the anger coexisting beneath the image of a loving father to emerge.
Which also does not exempt him from the limitations arising from the religion he professes. It is entirely possible to imagine a scenario in which Mihai would distance Elia from Noora if the friendship between the two girls evolved into something more concretely affective and romantic. Furthermore, Mihai seems incapable of recognizing when he is wrong — precisely the first lesson he teaches his daughter, and one that echoes throughout the film in uncomfortable fashion. Good parenthood may be one that recognizes its responsibility toward children while also listening to them, considering their desires, and avoiding alienating them from decisions that directly affect them. A mature director like Mungiu offers no simple answers; instead, he shows how our convictions collide when confronted with contexts extending beyond the limits of our own reality. If there is one aspect of the screenplay that bothers me, it is the decision to transform, through social media, a bureaucratic trial into a large-scale religious persecution that gathers conservative groups and defenders of the traditional family. Not because such a reaction would be implausible, but because the director seems to suggest a discussion he never fully develops.
Mungiu is far more effective when intensifying the viewer’s engagement through the prolonged duration of scenes without cuts, never tedious despite the recurring use of static shots. During the trial, for instance, we wait for the moment Sebastian Stan will explode and reveal — perhaps — the true dimension of his personality, exactly as the prosecuting attorney seems to expect. Within a highly competent cast sustained by a solid and incisive screenplay, Lisa Carlehed stands out first as the neighbor Mia and later as the family’s lawyer: a character who understands that the best justice is not the justice of one’s own convictions; a woman who does not abandon her atheist values, yet still defends Mihai and Lisbet’s right to uphold their theistic beliefs.
With a final image that plants a lingering question in the viewer’s mind, Mungiu continues, for me, to confirm himself as an excellent guide into an auteur cinema that, to this day, still enchants me through its mature discussions and its visions of a world far larger than my own.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


