Entre o espetáculo musical e as limitações industriais, Michael revela um artista grande demais para caber nas lentes de Hollywood.
Cinebiografias de astros da música internacional inseridas na lógica do blockbuster hollywoodiano quase sempre partem com enorme potencial de dar errado, principalmente quando se vangloriam de ter “o mesmo produtor” ou “os mesmos produtores” de uma tragédia cinematográfica como Bohemian Rhapsody (2018). Algumas características desse tipo de produção fazem com que, não raramente, o resultado seja um filme repleto de limitações. Questões como a tentativa de retratar toda uma vida – e a trajetória de figuras complexas – em um único longa, ou as amarras artísticas impostas pela necessidade de não macular a imagem do biografado, geralmente acabam gerando superficialidade e pouca originalidade.
Michael, do diretor americano Antoine Fuqua (Dia de Treinamento), tinha tudo para cair nesse lugar-comum – e, certamente, acaba apresentando vários desses problemas. Mas há algo de incontrolável na vida, na obra e na personalidade de Michael Jackson que transborda as linhas limítrofes impostas por Hollywood, atravessa a tela e chega até o espectador.
Nem todo o aparato industrial de castração artística do cinema americano é capaz de represar a musicalidade, o talento para a dança e todo o espetáculo que envolve a obra artística de Jackson. É impossível ficar indiferente a clássicos como “Don’t Stop ’Til You Get Enough”, “Billie Jean”, “Thriller”, “ABC”, “I’ll Be There”, “I Want You Back” e tantos outros, quando bem interpretados. Quase todos os números musicais de Michael são interessantes, recriando momentos icônicos, como gravações de clipes e shows, e contextualizando essas ocasiões em uma linha do tempo concisa. Além de servirem como óbvio fan service e como ilustração da genialidade do artista – por meio da exposição de insights criativos vividos por aqueles que conviveram e trabalharam com ele -, esses números valorizam o trabalho de caracterização e a performance de Jaafar Jackson no papel do próprio tio.

Jaafar Jackson impressiona ao capturar a presença física e mítica do Rei do Pop.
Chega a ser assustador. Jaafar não se contenta em mimetizar os movimentos, a voz e os trejeitos do tio. Esse seria o caminho mais fácil. Michael Jackson é uma das figuras mais peculiares e reconhecíveis da cultura pop. Seu rosto, seu estilo, sua forma de cantar e dançar são características icônicas, que se integraram de forma visceral ao imaginário popular e influenciaram, direta e indiretamente, todas as gerações de artistas pop que vieram depois dele. Mas a impressão que fica é que só um Jackson poderia dar vida a Michael sem parecer um dos milhões de imitadores que performam como o Rei do Pop mundo afora.
Há uma compreensão profunda e íntima de tudo o que envolve essa história, além de uma composição física muito semelhante e uma aura difícil de descrever objetivamente. A força da atuação está também na contraposição entre a fragilidade revelada pela voz falada e pela postura do personagem em sua vida pessoal, de um lado, e a potência assombrosa de sua voz cantada e de sua persona artística, de outro. A sensação é de que aquele velho boato de que Michael Jackson não morreu se tornou verdadeiro, principalmente quando Jaafar canta – com o auxílio de recursos de edição que mesclam sua voz às gravações originais – e dança.
A escolha de recortar um aspecto da vida do biografado também se mostra acertada. Esse recorte não é apenas temporal, mas sobretudo temático: existe um claro arco que vai da infância e da formação dos Jackson 5 até a libertação do artista em relação ao domínio abusivo e autoritário de seu pai, Joseph, interpretado com competência por Colman Domingo. Apesar de não escapar da superficialidade típica advinda da tentativa de encaixar vários momentos icônicos do astro – ainda que de forma forçada em muitos casos – e de oferecer poucas camadas aos muitos personagens coadjuvantes, o filme preserva uma coerência narrativa que poderia se perder caso a ideia fosse ilustrar, de cabo a rabo, a vida de Michael. Talvez essa decisão tenha muito mais a ver com questões mercadológicas – a continuação praticamente anunciada no letreiro que antecede os créditos finais – do que criativas, mas seus efeitos não deixam de ser positivos.

Os Jackson 5 em cena: a gênese do artista que Hollywood tenta, sem sucesso, enquadrar.
Para além dessa camada mais evidente de análise, há uma questão intrigante na maneira como Antoine Fuqua resolve contar essa história. É bem sabido que Michael Jackson era, além de um artista genial, uma pessoa marcada por certo nível de excentricidade. Essa característica se torna mais evidente, na vida real, em uma segunda etapa de sua trajetória, não abordada pelo filme, mas já havia, na juventude, vários indícios dessa personalidade singular. Michael é retratado como alguém que busca na performance e na fantasia infantil uma válvula de escape dos abusos infligidos pelo pai e de uma infância não vivida. Isso fica claro na relação do protagonista com histórias infantis e até mesmo com o cinema fantástico de Gene Kelly ou Charles Chaplin. Mas há também um nível de encantamento do personagem com a realidade que, de certa forma, Fuqua incorpora formalmente à narrativa em momentos e detalhes específicos.
Pode parecer brincadeira, mas a relação que o protagonista estabelece com os animais, em especial com o macaquinho Bubbles, dá ao filme a capacidade de, em alguns momentos, escapar do realismo verossímil de uma cinebiografia convencional e enveredar pelo mundo fantástico que Michael habitava. O fato de Bubbles ser feito em um CGI farsesco reforça esse efeito de presença quase imaginária, como se fosse um “amigo imaginário” com quem Jackson interage e estabelece uma amizade. Toda a interação do protagonista com sua mãe também é permeada por essa ideia. Os diálogos melodramáticos e os filmes que os dois compartilham nas noites em casa são, também, uma fuga de Michael de sua realidade exaustiva. São momentos-oásis, que a direção faz questão de pontuar principalmente pela maneira como a trilha sonora se comporta, adotando um tom emotivo e edificante.

Michael e Katherine Jackson em um dos momentos-oásis que aproximam o filme da fantasia íntima de seu protagonista.
Toda essa construção abre uma janela pela qual incide uma luz diferente, revelando uma tentativa sincera de aproximação entre a obra e os aspectos psicológicos de seu protagonista. É algo que destoa do registro mais sóbrio que certas cinebiografias costumam adotar e insere Michael no rol dos bons exemplares recentes do subgênero, como Rocketman (2019) e Better Man (2024), ainda que abrace essa característica de maneira menos radical.
Não é que Michael, o filme, faça jus inteiramente à genialidade de Michael Jackson, o artista. Longe disso. É uma obra vítima de todas as limitações que a indústria impõe a uma produção desse tipo. Poucos riscos podem ser corridos. A expectativa – sobretudo de lucro – é grande demais para que se arrisque algo muito além do protocolar. Mas existem ali indícios de uma tentativa que, aliados à potência natural da obra desse grande ícone da cultura mundial, produzem um resultado digno e absolutamente divertido de experienciar. Nem as lentes estreitas do cinema hollywoodiano foram capazes de enquadrar esse artista gigantesco. Que bom.
Publicitário que escreve sobre cinema desde 2020. Colabora como crítico no site Cinema com Crítica.



