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Herança de Narcisa

Classificado como 3.5 de 5

Herança de Narcisa

2026

84 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Clarissa Appelt e Daniel Dias

A casa mal assombrada de Paolla Oliveira, ou o cinema de horror-terapia

Desde os primórdios da história do gênero (na literatura e no cinema), o gênero do horror – a fantasia de forma geral – é convidado para dar contas de experiências que extrapolam o susto, medo e a ansiedade. O autor do horror pode empregar o estilo e as convenções para um tipo de terapia ou de arqueologia dos personagens submetidos aos fenômenos sobrenaturais, e Herança de Narcisa parte justamente daí. Dirigida e escrita por Clarissa Appelt, que homenageia a mãe e a avó, em parceria com Daniel Dias, a narrativa está inserida no campo frequente e imprecisamente rotulado de pós-horror ou horror da A24, e faz isto com uma consciência para além de metáforas inteligentes ou de adesão a esta tendência do horror contemporâneo.

Pelo contrário, desde os letreiros iniciais, marcados por uma citação atribuída a Carl Jung, o filme estabelece o seu eixo entre o consciente e inconsciente como o motor narrativo. Ana (Paolla Oliveira), ao retornar à casa da infância após a morte da mãe – uma ex-vedete, Narcisa, também interpretada por Paolla -, não retorna a um espaço físico ou a uma casa mal assombrada, mas ao ambiente densamente povoado por traumas, ressentimentos e afetos mal resolvidos. Desta forma, mais do que apenas cenário, a casa é extensão da personagem, e pode, até mesmo, ser interpretado como uma parte de seu inconsciente. Assim como muitos dos personagens ou elementos que povoam a sua arquitetura mórbida, misteriosa e sombria.

Paolla exorciza na fogueira montada na piscina as memórias de seu passado.

A estrutura narrativa aposta, de uma maneira deliberada, em um regime de interiorização ou de elaboração. Embora haja a presença do irmão Diego (Pedro Henrique Müller), cuja errância pelo mundo contrasta com a fixidez de Ana, o filme se constrói, em grande medida, como um monólogo cinematográfico sustentado pela atuação de Paolla Oliveira – estreante no gênero. Aqui reside um de seus maiores acertos: ao optar por uma atriz cuja expressividade se ancora menos na verbalização e mais no gestual – o olhar de soslaio, o gesto que hesita e se interrompe, a respiração ofegante – a narrativa traduz, em termos sensoriais, muito do que os diretores tentam extrair dentro de uma dimensão psicanalítica. Neste aspecto, a direção de arte de Fernanda Teixeira capricha em criar uma ambientação apropriada a estas discussões, e a presença de espelhos ou de signos que remetem à Narcisa – cujo nome remete ao mito grego que deu origem ao termo narcisismo – aludem imediatamente à psicanálise jungiana.

Há, evidentemente, os elementos do horror que o filme não ignora. As batidas na porta que mantêm Ana acordada (ou seriam projeções de seu inconsciente tumultuado?), a aparição que emerge de dentro do armário no pano de fundo desfocado, a presença de objetos que aterrorizam Ana, todos os elementos associados à casa mal assombrada estão aqui. E, ao lado disto tudo, o duplo sentido da marchinha de Narcisa que alerta para a chegada da mãe. No entanto, esses elementos são constantemente ressignificados: o susto não é um fim em si mesmo, mas uma expressão de um trauma elaborado a partir do que definia a mãe. O medo é acompanhado do convite à reflexão dos elementos que provocam o susto.

A maquiagem de Paolla Oliveira torna a atriz em um recipiente do horror no abatimento exibido nas olheiras e na aparência exausta.

Essa abordagem permite ao filme dialogar com duas polaridades do gênero: de um lado, o horror mais frontal, que se apoia em efeitos imediatos; de outro, o horror metafórico, que demanda um engajamento mais ativo do espectador. A narrativa transite estes polos com relativa habilidade, optando pelo segundo, mas sem trapacear o espectador no processo. Essa oscilação pode até revelar, pontualmente, uma indecisão tonal, em momentos pontuais, mas se redime quando Ana abre a porta que alude à sua repressão emocional e encontra uma personagem simultaneamente macabra e frágil. Quando encontra o equilíbrio entre o medo e susto imediatos e a consequência ou ressonância, o resultado é admirável.

A montagem de Daniel Dias e a encenação dos diretores revela uma compreensão do tempo do horror. Longe de buscar a aceleração típica do horror comercial, o tempo é mais dilatado e permite que o horror se infiltre por entre as brechas. Tem um quê de hipnótico e digressivo nisto tudo, como se cada momento guardasse também um segredo adicional para compreendermos a dinâmica desta família imperfeita e cuja relação extravasou o plano material ao espiritual. Essa estratégia culmina no clímax característico do quarto inacessível, que, ao mesmo tempo, é assustador e melancolicamente catártico.

Ao transformar a figura materna, inicialmente associada, no horror, à origem do trauma, em uma figura ambivalente e que carrega uma outra possibilidade, os diretores deslocam o eixo do gênero. Para quê exorcizar o passado se é possível compreendê-lo e conviver com sua herança? Afinal, o que as mães deixam às filhas, para além da matéria, não é algo que Ana pode simplesmente descartar; é parte da mulher que é e que entrou naquela casa. Ao abordar a herança feminina, Herança de Narcisa sugere que o fantasma não é só pessoal, é também histórico e está inscrito em uma cadeia que atravessa o tempo presente. Pois, mais assustador do que as sombras no fundo da imagem, são as sombras que carregamos dentro de nós.

O filme estreia em maio nos cinemas brasileiros.

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1 comentário em “Herança de Narcisa”

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