Quando Anabel bate à porta do apartamento no sexto andar, a sensação é de que bate à nossa própria porta. Pudera, a atriz Bárbara Luz (de Ainda Estou Aqui) está encarando diretamente à câmera e o espectador do outro lado. Através desse gesto cinematográfico, o diretor e roteirista Eduardo Nunes convida silenciosamente o espectador a participar da narrativa. Ou melhor dizendo, Eduardo parece perguntar a cada um de nós quem está disposto a acolher a protagonista que acaba de perder um ente querido, a avó, e deve aprender a elaborar o luto e a memória. Mas, como o espectador não pode abrir a porta, quem o faz é Meiko (Sharon Cho), uma vizinha tão reservada quanto é gentil. Uma figura que oferece à Anabel a própria presença.
É dessa amizade construída sem pressa, sustentada por gestos, silêncios e olhares prolongados que parecem carregar mais significado do que os diálogos, que nasce este Cinco da Tarde. Eduardo Nunes transforma a perda em um espaço de aproximação, nunca de espetáculo. Onde poderia haver explosões emocionais, revelações dramáticas ou elegias sobre a perda, resta a experiência do tempo. Um tempo que mais parece suspenso desde a pandemia da Covid-19, o período que serve de pano de fundo para uma narrativa interessada em registrar uma experiência coletiva de isolamento que ainda ressoa na vida de muitos. Especialmente, daqueles que perderam algum ente querido.
O filme praticamente nos mantém confinados em um aquário, igual aos peixes de estimação de Anabel. Os dois apartamentos onde vivem Anabel e Meiko e se desenrola a maior parte da narrativa se transformam um mesmo prolongamento sensível, separados por dois andares e unidos por uma dor. O mundo exterior apenas aparece em escapulidas breves: a floricultura onde Meiko trabalha, o parque onde Anabel e o namorado se encontram, a igreja que visita em oportunidades distintas. A igreja é ainda onde habita a metáfora que persista na trama: o desejo da avó de o sino badalar às cinco da tarde e não às seis da tarde, quando a noite já caiu. É da compreensão de que não tem nada a fazer para mudar o horário, pois é o estabelecido pela igreja, mas pode mudá-lo simbolicamente que está a elaboração da protagonista a respeito do luto. Um processo que todos nós já passamos ou passaremos, contra o qual não podemos lutar, apesar de podermos mudar nós mesmos.
Essa não é a única metáfora da narrativa, porém. Namorei a ideia de que Anabel e Meiko poderiam ser, simbolicamente, a mesma pessoa. Evidentemente, essa leitura não encontra respaldo na narrativa, embora o filme ofereça alguns indícios que alimentam essa possibilidade. As duas conhecem uma mesma canção em japonês; dramas, diálogos e objetos parecem existir em comum, especialmente a ausência da figura materna; e há uma confusão espacial entre os apartamentos, como se um refletisse o estado emocional do outro. Em determinado momento, imaginei que o apartamento de Meiko pudesse representar um estágio posterior ao luto, um lugar onde os ímãs de geladeira das cidades que a avó jamais conheceu já tivessem sido retirados, e não por esquecimento, mas porque a memória finalmente encontrou outro lugar para existir.

Ainda que essa interpretação permaneça apenas no campo simbólico, reforça uma das ideias mais delicadas do longa: ninguém atravessa o luto sozinho. Mesmo quando as dores são semelhantes, elas nunca são idênticas. Meiko não elimina a ausência, mas pode impedir que ela consuma Anabel. Há uma generosidade na forma como Eduardo Nunes filma essa relação, recusando sentimentalismo e dramas mais fáceis, em favor de um cinema que observa o afeto surgindo lentamente, quase como uma planta que cresce sem que percebamos.
Essa delicadeza também se manifesta na construção visual. Cinco da Tarde parece drenar quase toda a saturação das cores, em um preto e branco que dialoga naturalmente com o estado emocional da protagonista. Quando a cor surge, ela ganha peso dramático. O chá verde, o telefone vermelho e o porta-retrato que inauguram alguns dos capítulos da história funcionam como as âncoras e memórias afetivas em um universo tomado pela ausência. São objetos que insistem em lembrar que a vida continua produzindo significados, mesmo no vazio.
A iluminação trabalha numa mesma direção. Em alguns dos momentos do filme, as luzes do edifício acendem e apagam automaticamente através de sensores de presença, criando uma intermitência que parece traduzir visualmente o estado psicológico de Anabel. Nós estamos o tempo todo entre lugares ao lado dela: entre passado e presente, entre memória e realidade, entre aceitar a perda e conviver com ela. A avó permanece presente em cada ambiente, mesmo quando ausente, habitando os corredores da memória de Anabel com uma força que quase é capaz de revivê-la.
As interpretações acompanham essa ideia de contenção. Bárbara Luz constrói uma protagonista que internaliza a dor. Seu luto raramente é externalizado. Mais parece um peso sobre os seus ombros, uma letargia em seus movimentos e um hábito de transformar o silêncio em linguagem. Sharon Cho responde na mesma frequência, compondo uma Meiko igualmente introspectiva, cuja timidez jamais soa artificial. As duas estabelecem naturalmente uma relação que poderia ser artificial caso mal dirigida ou atuada, e sustentam a credibilidade de um vínculo que nasce justamente da dificuldade de encontrar as palavras certas.
Há, é verdade, momentos em que a atuação parece consciente de si mesma. Em uma sequência, Anabel permanece por tempo demais (1 ou 2 minutos, mas que parecem uma eternidade) sem piscar, tornando perceptível o esforço que destoa da espontaneidade. Felizmente, são exceções em um conjunto sensível, que compreende que nem toda dor precisa ser exteriorizada para ser profundamente sentida.
No fim, o filme compreende que superar uma perda não significa apagar a memória de quem partiu. Mas significa permitir que a ausência encontre um lugar possível dentro da vida presente. Talvez por isso as cinco da tarde permaneçam como uma hora suspensa, um instante em que passado e presente ainda conseguem se encontrar e aflorar a memória de uma saudade. Eduardo Nunes não oferece as respostas para a dor, porque não tem (quem tem?). O diretor nos lembra que ela pode ser compartilhada e, às vezes, basta que alguém abra a porta para que a travessia por esse período deixe de parecer impossível.
Cinco da Tarde estreia quinta-feira nos cinemas.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


