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Apopcalipse segundo Baby

Classificado como 3.5 de 5

Apopcalipse segundo Baby

2026

109 min

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Rafael Saar

Como hippie ou pastora evangélica, o transe sempre foi uma dimensão presente na existência e na expressão artística de Baby do Brasil. A cantora ainda era uma menina quando saiu de casa, aos 17 anos, e relata, em Apopcalipse segundo Baby, documentário narrado em primeira pessoa dirigido por Rafael Saar, que traça sua trajetória entre esses extremos da performance, que seus movimentos e decisões sempre foram guiados por algum tipo de chamado sobrenatural – parece-nos que o que muda é o direcionamento dessa energia transcendental. Baby tem, de fato, algo de inexplicavelmente místico que a torna uma figura fascinante, ainda que, politicamente, não mais represente aquilo que um dia representou.

Integrante da Mostra Competitiva da 21ª Edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto, Apopcalipse segundo Baby adere aos estados transcendentais da artista para compor a atmosfera fílmica. Se cada fase de sua vida possui uma busca interior refletida através da música, essas nuances vão obter seus espaços nas transições do trabalho de Saar, que o faz ao encontrar, para o riquíssimo acervo que o guia, um experimento imagético e sonoro representativo dos diferentes dimensões de consciência e espiritualidade da trajetória da artista.

Crentes ou não, movidos por algum tipo de fé ou negando-a, não há como não se impressionar com os acasos que moldaram a vida de Baby tal como ilustrada no filme de Saar. A impressão que fica é que, em que pese sua imaturidade, esteve no lugar certo e na hora certa para poder expressar seu talento e ser reconhecida, mesmo quando ela mesma, provavelmente, sequer era consciente de sua imensidão artística, que cresceu e amadureceu com o tempo e a experiência. Ela redireciona a energia inquieta e pulsante de menina para a jornada absolutamente imersiva de uma das melhores coisas que já aconteceu ao mundo: Novos Baianos.

Baby foi a única mulher de Novos Baianos. Os integrantes da banda viveram juntos e em comunidade durante 10 anos, no Cantinho do Vovô, em Vargem Grande, no Rio de Janeiro. Dessa vivência, nasceu Acabou Chorare, considerado o melhor disco de música brasileira de todos os tempos, e um dos melhores álbuns musicais do mundo. Ali, burlava-se a ditadura e compartilhava-se tudo. Baby e Pepeu Gomes tiveram os primeiros de seus seis filhos durante esse período. De fato, esse é o ciclo mais vasto em arquivos de Apopcalipe segundo Baby, e talvez por essa razão, o mais intrigante, pois onde o diretor vai se demorar com intensidade.

A pulsão criativa de Baby em Novos Baianos, tão jovem, tão autêntica e livre, é magnética. Ela é uma energia incontrolável, concomitantemente insana e lúcida. Se há uma representação material do que seria a mulher selvagem de Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que Correm com os Lobos, Baby seria um exemplo. O nosso fascínio com essa figura emblemática é tanto uma atração genuína como reflexo do convite à imersão feito pela direção.

Apopcalipse segundo Baby (Imagem: divulgação)

Saar é igualmente fascinado, e também apaixonado pela artista. Apopcalipse segundo Baby é produto de uma aproximação de 18 anos entre ambos, o que necessariamente implica em intimidade e confiança mútua. O documentário é um retrato honesto, vigoroso e respeitoso com todas as fases da lunática Baby, mas ao mesmo tempo notoriamente lapidado. A moderação deixa um gosto agridoce na medida em que, por exemplo, o filme oculta o conhecido consumo de psicotrópicos pela artista, que certamente não seria julgada por essa inserção, uma vez que integrou seu processo criativo e ela mesma fala abertamente sobre isso em entrevistas. É evidente, assim, o compromisso e a paixão do diretor e outrossim, seu esforço para fazer valer o aval que lhe foi dado, ainda que isso tenha um preço em sua obra. 

A vida religiosa de Baby amorna o tom fílmico. Não que não haja carisma, pois essa é uma característica que lhe é inerente, mas ao abrir mão do misticismo, o documentário ganha uma uniformidade e um aspecto protocolar que destoa da própria Baby. Ainda que, durante toda sua vida, ela tenha fugido da caretice, aqui ela se faz presente de uma forma quase constrangedora, pois é amarga a transformação dessa mulher tão afrontadora, símbolo da contracultura, em uma figura associada a discursos conservadores. 

De todo modo, Apopcalipse segundo Baby não deixa dúvidas: Baby é apocalíptica por natureza. Sua expressão artística, seja como vocalista e percussionista de Novos Baianos, seja como pastora, é extrema. Ela é incapaz de se acomodar com a contenção, com a moderação ou com o meio-termo. Essa intensidade que lhe é combustível faz dela, concordemos ou não, absolutamente verdadeira, espontânea e destemida em cada uma de suas reinvenções. Ela se transforma, mas o motor é o mesmo. Rafael Saar traduz em linguagem cinematográfica as variações de uma existência guiada pelo êxtase, organizando seus fragmentos de modo a tornar passado, presente e futuro uma só experiência – e uma experiência hipnotizante. 

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