A estreia de Carol Rodrigues em longas-metragens, Criadas, insere-se em espaço inexplorado dentro do cinema brasileiro. As produções nacionais frequentemente abordam o racismo estrutural ou as suas consequências, mas é raro investigarem as hierarquias criadas por esse sistema dentro da comunidade negra, a segregação entre negros de pele clara e os de pele escura e a discriminação que atravessa relações familiares e classes sociais.
O roteiro de Carol Rodrigues tem início com o reencontro entre Sandra (Mawusi Tulani) e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), primas criadas sob o mesmo teto, mas separadas por experiências radicalmente distintas daquele espaço doméstico. Este drama, enquanto um esforço de reconciliação e reaproximação, é também uma reflexão sobre herança colonial, memória e colorismo, contada a partir de uma linguagem que se aproxima do fantástico menos como escapismo, mais para acessar aquilo que a realidade às vezes não é capaz de expressar.
Sandra retorna à casa da família em busca de fotografias da mãe, Ivone, uma empregada doméstica que trabalhou e viveu durante anos naquele espaço. Mariana, a filha da patroa com um homem branco e funcionário público, permanece ligada ao imóvel e às lembranças que ele abriga. Embora ambas sejam mulheres negras, o filme demonstra como suas trajetórias foram moldadas por experiências distintas. Enquanto Sandra cresceu assistindo à mãe ocupar uma posição de subalterna, Mariana usufruiu de privilégios que jamais lhe pareceram assim. A violência não é física, mas está presente nos silêncios e na rotina diária, e também na memória que as personagens escolhem preservar (Sandra) ou esquecer (Mariana).

É por isso que a decisão de Carol Rodrigues de abandonar o realismo estrito é certeira. Ela compreende que determinadas feridas dificilmente poderiam ser traduzidas só através de diálogos ou confrontos convencionais. A fantasia é a extensão e manifestação de memórias reprimidas. Neste cenário, Sandra, criança, aparece inicialmente como um resíduo do passado, uma figura que lembra Mariana e, especialmente, os espectadores de que os traumas permanecem irresolvidos sob o teto daquela casa. Aos poucos, essa criança passa a interferir diretamente nos acontecimentos, escondendo alguns objetos por exemplo. A narrativa habita um território de instabilidade, no qual passado e presente e real e fantástico deixam de existir como categorias apartadas.
Essa escolha narrativa e formal encontra o seu complemento na construção da casa: as paredes, os corredores e cômodos carregam as marcas invisíveis daqueles que os habitaram. E, em Criadas, a residência funciona como um arquivo histórico, onde as relações de poder que estruturaram aquela família permanecem inscritas e vivas mesmo após o desaparecimento de seus agentes originais (os pais). O racismo permanece nos ambientes que naturalizam determinadas posições sociais e determinados modos de existência, e a casa é a memória viva disso.
Essa lógica se torna mais evidente porque a narrativa é construída inteiramente a partir de perspectivas femininas. Não se trata apenas do protagonismo de Sandra e Mariana. A memória de Ivone, a presença da mãe de Mariana ou até mesmo a figura de Raquel (Rudmira Fula), a imigrante angolana responsável por manter a casa, ajudam na construção de uma rede de olhares, vivências e experiências da experiência negra feminina. É importante que seja assim, porque os homens, ainda quando ausentes, ainda assombram a vida daquelas mulheres: o pai branco de Mariana ou os chefes das coprotagonistas reforçam como as estruturas de poder operam mesmo quando ausentes ou invisíveis. os rumos de suas vidas.

O problema é que o filme nem sempre confia na potência de suas imagens. Durante parte da narrativa, Carol Rodrigues demonstra habilidade para converter questões sociais complexas em experiências sensoriais. Entretanto, em momentos determinantes, o roteiro abandona essa estratégia para adotar uma postura excessivamente didática e explicativa. Assim, quando Mariana identifica explicitamente determinada situação como racismo, ou quando a mãe de Mariana afirma que Ivone deixou de ser irmã no instante em que passou a trabalhar como empregada doméstica, a narrativa interrompe um processo de discussão sofisticado para oferecer conclusões prontas ao espectador. Não discordo da conclusão, mas sim da forma que verbaliza aquilo que suas imagens já haviam conseguido expressar de forma mais rica.
Essa dificuldade está relacionada a uma questão mais ampla. Criadas parece dividido entre diferentes formas de construir sua alegoria. Em alguns momentos, o fantástico funciona como metáfora. Em outros, comporta-se como elemento literal daquela realidade. É uma indefinição mal explorada pela narrativa, ou relegada a um espaço intermediário. Esta hesitação aparece também na maneira como a narrativa aborda o trabalho doméstico. É evidente que o filme pretende denunciar a estrutura histórica que transformou mulheres negras em corpos destinados ao cuidado e ao serviço. A trajetória de Ivone está diretamente ligada a essa discussão. Contudo, Raquel introduz um elemento que complexifica conclusões açodadas. Afinal, se o trabalho doméstico foi instrumento de exploração e apagamento para uma geração, ele também surge como a possibilidade concreta de sobrevivência para outra mulher negra, marcada pelo status de imigrante. A narrativa percebe essa contradição, mas evita enfrentá-la, deixando a discussão suspensa entre diferentes posições, sem que o filme assuma integralmente nenhuma delas.
Ainda assim, mesmo quando suas limitações narrativas se tornam evidentes, Criadas tem as interpretações marcantes de Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti. Elas evitam transformar Sandra e Mariana em abstrações de um debate acadêmico para torná-las em personagens concretas, contraditórias e com ressentimentos ou afetos genuínos. O reencontro entre as duas é uma tentativa dolorosa de reconstrução de uma intimidade corroída por experiências distintas de pertencimento, e que é, também, uma reconstrução de um experimento social.
Quando o filme confia nessa dimensão humana e permite que os símbolos ou as metáforas operem sem uma necessidade constante de explicação, encontra momentos de potência. Falta-lhe, talvez, um refinamento adicional de roteiro que torne algumas de suas discussões menos discursivas, mais cinematográficas. Ainda assim, permanece a sensação de estar diante de uma cineasta interessada em explorar caminhos pouco percorridos pelo cinema brasileiro, utilizando o fantástico como ferramenta para tornar visíveis estruturas que frequentemente permanecem ocultas. Essa disposição já constitui, por si só, uma qualidade considerável.
O filme estreou nos cinemas brasileiros quinta-feira (11/06).
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



