Brasília é uma cidade planejada e contraditória. O fato de ter nascido do zero, de um projeto, deveria, entretanto, significar o oposto: na verdade, poucas cidades materializam a desigualdade de forma tão manifesta. Concebida como referência de modernidade e progresso, a capital federal é um exemplo de como a arquitetura e o planejamento urbano podem servir à segregação. Seu desenho monumental esconde, nos entornos e nas entrelinhas, uma organização espacial que distribui privilégios de forma muito precisa. Ao passo que determinados corpos ocupam os espaços centrais do poder e da visibilidade, outros são estrategicamente empurrados para as margens geográficas.
Essa composição arquitetônica segregatória está, de fato, submersa nas origens locais. A Vila Amaury, comunidade dos trabalhadores responsáveis pela construção de Brasília na década de 1950, foi posteriormente inundada para dar lugar ao lago Paranoá. Seus moradores foram sendo removidos para outras regiões e passaram a ocupar as margens da cidade. Vê-se, claramente, a expressão das contradições dessa história inserida nesse fato embrionário: milhares de trabalhadores que ergueram o projeto de suposta modernidade e utopia foram invisibilizados e excluídos da narrativa oficial – grande parte dos trabalhadores, invariavelmente, racializados.
Dito isso, é certo que a arquitetura pode determinar quem transita e por onde transita, ditando abismos sociais e hierarquizando existências. É fundamentado no planejamento excludente de Brasília que Mapas, dirigido por Rafael Lobo e integrante da competição da 30ª edição do CinePE, reflete sensorial e imageticamente tal gênese e paradoxo, fabulando a relação entre Júlia (Beta Rangel) e Sérgio (Caique Copque), dois professores e pesquisadores universitários que, pertencentes a classes sociais e modos de vida distintos, se conectam através de um atropelamento e do misterioso caso de desaparecimento da cicloativista Rebeca.
Enquanto Júlia é uma mulher branca que ministra aulas sobre arte abstrata, mora com o pai e a irmã numa casa, muito embora descuidada, notoriamente confortável e representativa de um status financeiro privilegiado, Sérgio é um estrangeiro naquele paraíso de concreto de imponência fria e não convidativa, um homem negro vindo de Salvador para realizar seu mestrado na Universidade de Brasília, residente num apartamento pequeno e quente. Muito embora a moradia dele seja mais acolhedora que a dela, o diretor reforça os abismos sociais pelas minúcias estruturais e decorativas do ambiente, por exemplo, pela presença de um ar condicionado no lar de Júlia.
Ela circula por academias e ambientes climatizados, e desloca-se de carro pelas avenidas largas; ele ocupa quartos pequenos, e desloca-se de bicicleta debaixo do sol – é impossível ignorar a forma como a própria cidade estabelece diferenças entre os dois. O elemento que os vincula ocorre, justamente, nessa via comparativa de mobilidade: Júlia atropela Sérgio ao ultrapassar, por distração, o sinal vermelho.
Pelas circunstâncias do acidente e considerando a disparidade social e divergência racial existente entre eles, a expectativa (ao menos a dessa que vos escreve) era de que, de imediato, houvesse rejeição e não associação mútua, e que tal relação fosse, de algum modo, dialogar com as discrepâncias da própria cidade. Esse diálogo ocorre de forma sutil, mas não é o foco de Mapas, que insere um segundo fator para justificar uma união de esforços dessas personagens: o caso da ciclista Rebeca, cujo desaparecimento está relacionado à estranha lógica espacial de Brasília e certo misticismo relacionado ao seu passado de apagamento.
Lobo traduz essa discussão por meio de uma encenação lynchiana, moldada pela atmosfera onírica, pela lentidão temporal e pela observação, principalmente, dos espaços. Mapas expressa-se pelas formas da cidade, assumindo-se como uma obra de narrativa abstrata, dialogando, assim, com a profissão de Júlia e o elemento crucial das investigações dela e Sérgio: a espiral encontrada num mapa utilizado por Rebeca.
Planos gerais e zenitais transformam os ambientes urbanos em desenhos geométricos contemplativos. Há momentos em que o filme parece abandonar qualquer compromisso com a narrativa convencional para se aproximar de uma experiência sensorial e por vezes hermética, reforçada pela trilha sonora, que advém, inclusive, da própria história, uma vez que composta pela irmã de Júlia no desenrolar fílmico e é descrita como drone music. Mapas, até certo ponto, encontra coerência justamente na recusa de explicar tudo, e permitir que as sensações e imagens construam, em cada espectador, relações e sentimentos específicos.
No entanto, não são poucas as vezes em que a jornada imersiva se perde ao tentar aproximar-se de uma trama familiar ou mesmo das nuances do relacionamento entre os personagens, ocasiões em que assume um caráter oposto ao atmosférico para elucidar-se demais ao buscar uma forma fílmica mais ortodoxa.
O bom e, de certo modo, harmônico laço entre Júlia e Sérgio, vai contra a ideia aparente de Mapas de discutir as desigualdades sociais impostas pela arquitetura capitalista. A sutileza onírica dá lugar ao excesso de símbolos através da repetição de imagens sobrepostas de exames cerebrais, mapas, setas, registros e vestígios que surgem repetidamente como tentativas de localizar aquilo que se perdeu. A busca geográfica converte-se em busca afetiva, o que parece soar deslocado da proposta política do longa.
Mapas pensa Brasília, sua falta de identidade e suas imposições espaciais discriminatórias, mas não deixa de pensar, por seu intermédio, o próprio Brasil. A quais corpos foi destinada a construção da capital federal? Ao fazer da imagem de ruas, edifícios, monumentos e ruínas em extensões de conflitos históricos e sociais, Rafael Lobo faz do cinema arte abstrata, mas que pisa, ainda, com muito receio no experimento que propõe.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


