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Notas sobre um Desterro

Classificado como 3.5 de 5

Notas sobre um Desterro

2025

80 min

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Gustavo Castro

O cinema é uma arte que também se descobre durante o processo de sua feitura, o que nem sempre decorre das escolhas e decisões criativas de seu realizador. Um filme pode se emoldurar de acordo com o contexto histórico e político que o cerca, sendo fato que essa mesma conjuntura pode motivar ou modificar o propósito primeiro para o qual um filme se dedica. 

Ao iniciar as filmagens de Notas sobre um Desterro, há oito anos, em meados de 2018, o diretor Gustavo Castro, após visitar a região com um grupo turístico religioso, tinha em vista permanecer na Palestina por um determinado período e realizar uma obra documental que desse conta de registrar o modo de vida e a cultura do povo palestino para além das camadas de conflito que atravessam sua existência desde o final do século XIX, objetivando expressar uma história que não se limita às consequências do sionismo. 

Desde 2018, porém, o cenário sofreu drástica alteração, culminando no massacre e genocídio gradativo e explícito do povo palestino por Israel a partir de 2023, o que modificou, consequente e obrigatoriamente, o percurso do filme. Castro, então, tomou a importante decisão de transformar seus registros – e os de outras pessoas – em denúncia e reflexão a respeito da tragédia humanitária que ocorre diante de nossos olhos, oportunamente cegos.

Notas sobre um Desterro não propõe apenas o exercício de voltar nossos olhares à catástrofe, mas, talvez principalmente, a expor a nossa inércia, distanciamento e cegueira. O diretor, que é também o narrador que costura o fio fílmico, faz uso de uma conceituação que bem define o entorpecimento provocado pelas redes sociais em nossas vidas: vivemos em tempos onde o apagamento se dá através da abundância de informações, da superexposição, do excesso. Escolhemos esquecer o sofrimento alheio, ou apenas o lamentamos brevemente, antes de mergulharmos no abismo da rolagem de vídeos que nos mantêm em estado de letargia.

Notas sobre um Desterro (Imagem: divulgação)

Obviamente que o torpor é confortável. Em verdade, Gustavo Castro, antes de questionar nossa dormência, nos leva para dentro da Palestina através de sua convivência com uma família de raízes brasileiras que lá reside. Composta por pai, mãe e filho, a mulher é brasileira. Ela nos conta que a decisão de voltar à terra de seu pai veio acompanhada dos relatos dele a respeito das maravilhas que outrora fizeram parte da região. O retrato afetivo que se formou através da visão do pai dissolve diante da brutalidade da invasão local.

O documentário, portanto, nos atrai e nos engaja à causa ao recordar que, por meio daquela família, o conflito também nos pertence. O diretor trabalha nossa atenção por duas vias. A primeira advém da proximidade, através da individualização das consequências – vemos os projetos de futuro do mais jovem serem desintegrados pela guerra, assistimos às dificuldades de deslocamento no próprio território palestino pelos controles de acesso (os checkpoints) dominados pelo exército israelense. O segundo ponto de vista é o de terceiros, em destaque aqui ao trabalho de resistência e persistência da imprensa palestina. Notas sobre um Desterro intercala as imagens feitas pelo próprio diretor com registros de redes sociais feitos por aqueles  que lidam com a linha de frente – e é justamente essa a perspectiva que nos tira de nossas zonas de conforto.

Para além de nos levar para dentro do conflito, Castro atribui a seu filme, ainda, um caráter educacional e didático importante. Somos convidados não apenas a nos indignar com o hoje, mas a compreender suas origens, diretas e indiretas. O diretor atravessa a história, desde o surgimento do sionismo, passando pela divisão da Palestina em dois territórios (um judeu e um árabe) em 1947, pela criação do Estado de Israel em 1948, e reflete, outrossim, a formação da imagem caricatural, preconceitosa e vilanesca no retrato do Oriente pelo Ocidente através, inclusive, do cinema, que coloca o outro como primitivo e irracional.

Tal como nas redes sociais, o aviso de imagens sensíveis está presente em Notas sobre um Desterro, cumprindo, aqui, dupla função: avisar e despertar o espectador. De uma forma muito pessoal, o diretor busca respostas sobre o terror de hoje no filme que antes havia sido planejado, confrontando as imagens de 2018 e os registros a partir de 2023, como se ali estivessem escondidos sinais que ele não consegue compreender. Se a morte, por si só, é incompreensível, a prática manifesta e declarada de um genocídio, ou seja, da aniquilação de um povo por motivos étnicos e religiosos, principalmente mulheres e crianças, é um horror que desafia a própria capacidade de representação, fazendo com que as imagens deixem de apenas registrar a violência para desafiar o espectador com aquilo que parece impossível de assimilar. 

O desterro pressupõe a ruptura com a terra, o afastamento forçado de um lugar de pertencimento. Notas sobre um Desterro evidencia que, para o povo palestino, permanecer é existir, ainda que isso implique a morte, pois desistir significaria ceder ao apagamento – e a continuidade de um povo depende da preservação de suas histórias, seus vínculos e sua memória coletiva. 

O filme foi exibido na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, na Mostra Competitiva “Arquivos em Questão”.

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