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Anatomia do Caos

Classificado como 3.5 de 5

Anatomia do Caos

2026

91 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Dandara Ferreira

A imagem do Senado Federal vazio transforma Anatomia do Caos em algo que não pretende ser, mas que inevitavelmente se torna por alguns instantes: uma distopia. Uma oriunda da lembrança. Hoje sabemos por que aqueles corredores estavam desertos, mas também sabemos que boa parte daquele vazio foi consequência de decisões que poderiam ter sido diferentes. Antes mesmo que a CPI da Covid comece a ocupar o centro da narrativa, a diretora Dandara Ferreira estabelece o sentimento que irá atravessar o seu documentário: o de um país obrigado a revisitar uma tragédia que talvez pudesse ter sido menor.

Confesso que saí do filme até um pouco irritado com a diretora. Não por discordar de suas escolhas narrativas ou formais, mas porque me obrigou a reviver um período que eu preferiria ter esquecido. Esse é o maior mérito do documentário, retirar-nos do estágio de alienação. E, em um país que rapidamente transforma acontecimentos traumáticos em disputas de versões, lembrar passa a ser um gesto político ou uma obrigação cidadã. Anatomia do Caos integra, assim, uma série de filmes contemporâneos que investiga a memória do povo brasileiro sobre sua história.

Em vez de transformar a CPI em só um espetáculo de confrontos ideológicos, Dandara demonstra interesse pelo funcionamento daquela engrenagem legislativa. E o filme rapidamente elimina as diferenças partidárias entre os senadores a partir do encontro improvável entre Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Humberto Costa e Omar Aziz para encontrar um eixo comum: o esforço de responsabilizar os atos e as omissões durante a pandemia. E gosto que a diretora evite o impulso imediato de atribuir a legenda partidária a cada um dos membros da CPI. Pois o que a interessa é acompanhar a investigação: a coleta de documentos, os depoimentos contraditórios, os requerimentos, as estratégias para confirmar ou desmontar narrativas.

É uma escolha funcional porque impede que o documentário envelheça rapidamente. Enquanto determinados discursos podem pertencer ao noticiário de ontem – afinal, assim funciona a memória -, o funcionamento da investigação permanece relevante. A tentativa de alterar a bula da cloroquina, as negociações ignoradas com a Pfizer, o colapso do sistema de saúde em Manaus durante a crise do oxigênio, tudo vai surgindo como as peças de um quebra-cabeça cuja montagem interessa mais do que a enumeração dos fatos, a fim de que possamos compreender o que os noticiários fragmentaram dia após dia.

A encenação reforça essa ideia. Dandara acompanha os Senadores pelos corredores estreitos do Congresso Nacional. E essas imagens se tornam uma síntese visual da narrativa, como se a investigação avançasse por corredores labirínticos, ou como se a arquitetura do poder refletisse os caminhos sinuosos que qualquer comissão parlamentar de inquérito precisa percorrer até conseguir estabelecer uma versão sólida dos acontecimentos. Não existe linha reta quando a verdade depende de interesses políticos.

Em contrapartida, a abordagem de Dandara, que confina o documentário quase todo na CPI – as reuniões, o funcionamento propriamente dito, as coletivas de imprensa -, também confina a narrativa por inteira, perdendo a oportunidade de explorar algumas oportunidades. Por exemplo, há rápidas incursões pela Polícia Federal, mas elas desaparecem tão rapidamente quanto surgem. O palco da narrativa continua sendo o mesmo. Não porque todas as respostas estejam no Senado, mas porque lá é onde está concentrada um esforço e uma tentativa institucional de produzi-las.

Ao mesmo tempo, a diretora demonstra um olhar atento para as ironias que escapam dos acontecimentos. Bolsonaro tosse logo depois de repetir um de seus bordões, enquanto Humberto Costa e Renan Calheiros aparecem conversando sem máscara enquanto tomam café – uma contradição diante do que defendem o filme inteiro. Um médico defensor da cloroquina é introduzido pela montagem de maneira ironicamente trágica, deixando que a legenda na tela produza o comentário. Tais ironias não mudam o fato de que existe muita dor sob a história da Covid. E muita crueldade também!

Carlos Wizard sorri em momentos absolutamente incompatíveis com a gravidade do momento que o país passava. Luciano Hang surge como um bobo da corte – que de bobo não tem nada – e uma figura central quando o filme aborda a Prevent Senior e a distribuição dos denominados kits Covid. Luís Miranda oferece uma das frases mais reveladoras de todo o documentário ao afirmar que, encerrada a CPI, todos ali continuariam amigos. É uma síntese da política brasileira, onde adversários públicos frequentemente preservam relações privadas enquanto o restante do país permanece dividido.

Existe ainda outro aspecto que Dandara trabalha sem precisar sublinhá-lo. A questão de gênero atravessa alguns dos depoimentos de maneira bastante evidente. Simone Tebet chama atenção para o tratamento que recebe em determinados momentos da CPI, enquanto Nise Yamaguchi – com a qual não concordo nem em uma vírgula – também é submetida a uma hostilidade cuja intensidade parece até desaguar no machismo estrutural. O jogo político é também um jogo de poder, e quem o representa, em geral, são os homens brancos.

Mas sempre que o risco de a CPI transformar-se somente em um duelo entre políticos e poderes aumenta, a montagem lembra o público das consequências concretas do que está sendo investigado. Os planos aéreos dos caixões. Os familiares chorando seus mortos. Cidadãos comuns contam histórias semelhantes às de milhares de brasileiros que perderam pais, mães, irmãos, filhos ou amigos. O filme recupera o peso humano do que poderiam ser números que, repetidos diariamente durante meses, acabaram adquirindo uma assustadora aparência de normalidade.

Já a fotografia de Roberto Stuckert merece destaque. Em vez de buscar uma estética chamativa para um ambiente imediatamente pouco cinematográfico, ela encontra força justamente na observação dos espaços institucionais e do peso simbólico que esses lugares carregam consigo. Da mesma maneira, a montagem de Lara Beck e Renato Sircilli trabalha com o fato de que muitos de nós já conhecemos qual é o desfecho daquela investigação, então se preocupa com as conexões políticas e as de causa e consequências que vão sendo deduzidas.

Então, a CPI acaba. O relatório é entregue com a sugestão de indiciamento dos envolvidos. As provas são reunidas. O documentário é concluído. Permanece a pergunta: o que mudou? Dandara não formula essa questão diretamente porque a realidade responde por ela. A falta de responsabilização administrativa, civil e criminal foi substituída, em alguns casos, pela via eleitoral, e isso nem alcançou todos. E é essa a razão de existir do documentário, que não pretende convencer quem pensa diferente do que os fatos apresentados – cada um tem a sua versão dos fatos, apesar de não poder negá-los -, mas sim algo maior: que o esquecimento e a impunidade andam de mãos juntas.

Anatomia do Caos estreia quinta-feira nos cinemas.

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1 comentário em “Anatomia do Caos”

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