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Aquele Que Viu o Abismo

Classificado como 3.5 de 5

Aquele que viu o abismo

2026

70 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Gregorio Gananian, Negro Leo

Um filme sem pé nem cabeça?

O cinema é uma arte demasiadamente passiva. As imagens constituem os verbetes de um idioma universal, mesmo quando produtos de contextos ou culturas estrangeiros ao espectador. E, quando estruturada em torno de uma história, com conflito dramático e início, meio e fim mais ou menos bem definidos, a experiência do espectador se torna ainda mais passiva, acompanhando o desdobramento enquanto consome imagens. O espectador é mero receptor. Quando muito, é convidado a refletir sobre aspectos formais e narrativos, preencher alguma lacuna. Mas mesmo esse papel minimamente ativo tem sido substituído em larga escala por vídeos explicativos, ou pretensos manuais para compreender os meandros narrativos, quando, na realidade, apenas expressam uma visão de uma só pessoa.

Como alternativa a essa experiência de cinema massificada, capitalista, neoliberal e indulgente à distração, ao raciocínio preguiçoso, às formas convencionais e aos clichês, há um cinema que exige um engajamento participativo do espectador para a criação de sentido ou valor da obra cinematográfica. Na falta de termo melhor, denominaremos este cinema de experimental. Um termo que eu disputo, pois todo filme experimenta narrativa ou formalmente, em maior ou menor escala. Prefiro cinema engajado. Não necessariamente engajado porque convida o espectador a adotar um posicionamento social, político ou ideológico, mas engajado porque estimula o papel ativo e participativo do espectador como uma parte essencial da experiência de cinema. O cinema passivo exaure na tela; já o cinema engajado se multiplica no éter que separa a tela do espectador.

Acredito que tenha sido a primeira oportunidade em que manifestei, em palavras, esse pensamento, mas acredito ser conveniente esse prólogo para falar de Aquele que viu o abismo, codirigido por Gregorio Gananian e Negro Leo, que também interpreta o personagem denominado X, um sujeito que pode ter sido recrutado pela empresa Pro-Life para ter uma vida melhor, embora isso tenha lhe custado muito. Durante algum tempo, pode ser frustrante acompanhar as ruminações de X, em um fundo preto minimalista, no qual imagens néon surgem, de vez em quando, as conversas in off com quem parece ser uma psicóloga ou psiquiatra, ou a viagem dele a um país estrangeiro. A razão para isso é fácil de explicar: Aquele que viu o abismo não tem uma forma narrativa convencional. Ao invés de se revelar ao espectador e expressar a sua história, ofusca-a, enquanto fragmenta – não só estruturalmente – o seu desenvolvimento.

As imagens cinematográficas que, habitualmente, dialogariam facilmente com o espectador, agora parecem equivaler a escutar idiomas estrangeiros e tentar encontrar, em vocábulos e ruídos, alguma forma reconhecível. Deixe-me reformular. Se eu escutar japonês e russo não entenderia bulhufas, mas talvez conseguisse perceber as emoções subjacentes que estão presentes na forma de expressão, melhor, nas bordas. Isto é o que há em toda a arte não narrativa, tipo a dança, em que é a forma do gesto e do movimento dos corpos que nos ensina a apreciar a arte. Aquele que viu o abismo dialoga com essa arte, que é mais expressão do que conteúdo, que convida o público – certamente me convidou – a agarrar-se ao que é reconhecível a fim de modelar os fragmentos fílmicos. Um engajamento incomum se pensarmos na esmagadora maioria do cinema que chega a cada um de nós.

Quando X é apresentado para o espectador, está com uma arma na boca, chorando copiosamente. Esta imagem de um homem negro chorando não é comum em um cinema que habituou a associá-lo à virilidade, à violência, mas não à vulnerabilidade. Já é uma imagem disruptiva, porque convida o espectador a sentir e experimentar o que é relativamente inédito no domínio das imagens. Detrás de X, as imagens em néon sugerem uma distopia futurista, e também podem sugerir os trens de pensamento que passam pela sua cabeça, levando-o até a erguer a sua arma contra as imagens que alternam entre momentos agradáveis (a brincadeira no balanço) ou violentos (o carrasco). Estas imagens dialogam com a dúvida existencial de um homem que não sabe bem quem é: criminoso? Justiceiro? Xamã?

Aquele que viu o abismo, assim, surge para mim como a crise existencial de um homem negro e a tentativa de encontrar o seu papel em um mundo racista. O fato de trabalhar em uma empresa chamada Pro-Life é irônico, já que em um país que explora, maltrata e mata a pele negra, a melhoria da qualidade de vida exigiria uma reformulação completa de um modelo social falido. E não há reformulação sem modificar o sistema capitalista, erguido sobre tantas violências históricas e presentes. Esta reformulação termina passando por alterar o cinema e o papel do espectador. Notem como tudo está conectado à experiência narrativa. A crise existencial materializa-se na fragmentação do indivíduo como matéria fílmica e pensamento de personagem.

Desse modo, a montagem de Gregorio Gananian, Negro Leo e João Dumans tem um papel fundamental em denunciar essa experiência de vida fragmentada, repartindo-se temporal e espacialmente ou mesmo material e psiquicamente. As conversas de X com uma mulher podem sugerir que, na realidade, está internado em uma instituição psiquiátrica, tamanha a fragmentação do ser e a crise do indivíduo. Aliado a isso, a edição sonora e a trilha musical de Henri Daio conferem ritmo que funciona como a força estruturante de uma trajetória errática. Uma na qual não sabemos, exatamente, onde estamos, enquanto tentamos agarrar naquilo que podemos associar ao real e ao convencional, ou simplesmente sentir algo que o cinema comercial, capitalista, normalmente não proporciona.

Isso me leva a uma frase de X: o homem livre é o rei dos marginais. Mas para alcançar a liberdade, primeiro o homem deve reconhecer o sistema no qual está, reunir força e coragem para abandoná-lo e enfrentar as consequências desse movimento de emancipação, tais como a crise existencial e a crise de imaginário. Como imaginar um mundo não capitalista; como imaginar uma sociedade não racista; como imaginar um cinema não comercial. Aquele que viu o abismo, de uma maneira às vezes hesitante, noutras confiante, é um gesto nessa direção.

O filme estreia quinta-feira (30) nos cinemas brasileiros.

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