Brasília, uma cidade alienígena
De muitas maneiras, Brasília é uma cidade alienígena. Uma característica mais acentuada na metade da década de 80, quando só estava ocupada por imigrantes vindos dos quatro cantos do Brasil, para habitar uma visão futurista, modernista e em concreto armado de uma cidade sonhada para representar o amanhã. Dentre tais imigrantes, estão Helena (Carolina Dieckmann) e os filhos, André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello), que mal chegaram e enquanto estão desempacotando sua mudança, já foram abandonados pelo pai e marido interpretado por Michel Melamed, que viajou a trabalho, talvez para sempre.
Pequenas Criaturas é um filme sobre uma família reaprendendo a ser família em uma cidade que, se não é hostil, é somente indiferente. A Brasília recordada pela diretora e roteirista Anne Pinheiro Guimarães é o cenário apropriado para que os dramas de amadurecimento, familiares e existenciais caminhem paralelamente ao desenvolvimento da identidade de uma cidade cuja natureza acentua uma falta de propósito e de pertencimento. Para piorar esse cenário, Brasília, durante as férias escolares, é uma cidade praticamente fantasma. O céu azul é paradoxalmente opressivo e sufocante; os planos abertos do Cerrado, das vias urbanas e dos prédios institucionais inferiorizam o drama que cada personagem engole e engasga, em vez de compartilhar.

Helena descobriu que o marido a está traindo e, ansiosa, atropelou uma cadelinha; André teve a sua bicicleta furada por um grupo de adolescentes; Dudu está solitário, e se torna um alvo para um vizinho bastante esquisito do prédio – o eufemismo para possivelmente pedófilo. Ninguém compartilha nada com ninguém. Helena encontra acolhimento em Ângela (Letícia Sabatella), uma vizinha que sabe exatamente o que está enfrentando, e afeto em Carlos (Caco Ciocler), com quem se permite, não sem algum sentimento de culpa, um reencontro com o amor e o desejo. Já André se torna amigo de Marcão (Acauã Alves), da mesma faixa etária. Finalmente, Dudu brinca sozinho e com um garotinho do condomínio, e é convidado pelo personagem mais velho vivido por Fernando Eiras para ir à sua casa, conhecer a sua coleção de tampinhas de garrafa.
Tais dramas poderiam ser melhor elaborados se houvesse diálogo. É exatamente o contrário. Abandonada e solo, Helena não dá conta de cuidar dos seus sentimentos, o que dirá dos de seus filhos. André e Dudu somente brigam. O segredo se tornou matéria na vida da família, e a direção de arte de Claudia Andrade transforma o interior do apartamento apertado, cheio de paredes e de portas fechadas em uma metáfora da família naquele momento. Enquanto André está escutando música dentro do quarto, Dudu está encontrando seu refúgio na imaginação. No meio, a parede que separa os quartos é também a barreira que impede André de ser um modelo que Dudu procura.
A chegada de um membro na família, a cadela Cacau, que Helena cuida para expiar a sua culpa por tê-la atropelado, até modificaria a dinâmica familiar, caso o animal pudesse exercer um papel de conforto que habitualmente assume em filmes dramáticos semelhantes. Em vez de levá-la ao veterinário, por exemplo, Helena assume a responsabilidade pelo cuidado, apenas reforçando a sua inadequação. A intenção, por melhor que seja, não significa o resultado esperado. E Pequenas Criaturas rapidamente se torna sombrio quando Dudu conhece Milton – qualquer espectador adulto é apto a identificar o risco – e André encontra uma arma de fogo. Aqui, o roteiro de Anne é previsível em plantar elementos conhecidos para serem colhidos em consequências idem: já sabemos quando e onde a arma de fogo retornará, embora entenda a discussão trazida pela diretora, a do perigo de a arma de fogo servir como muleta de uma masculinidade ilusória.

Prefiro as decisões imagéticas de Anne: o posicionamento não intuitivo da câmera nas costas de Carolina Dieckmann evita que o choro copioso da atriz seja comunicado ao público, mas me parece a decisão mais correta para retratar uma personagem incapaz ou que tem estado incapaz de comunicar o que está engasgado. Com o espectador, não seria diferente, ainda mais em uma época em que a saúde emocional e psíquica, a depressão e a ansiedade ainda não eram temas abertos à sociedade. Ou também como Anne é capaz de deixar o espectador tenso apenas com um beijo de Dudu no espelho e a lembrança do que Marcão havia comentado sobre o irmão caçula. A direção é segura em contar dramaticamente dores que já estão suficientemente compreendidas pelo espectador.
Ainda que eu não seja o maior entusiasta do desfecho, que tem uma decisão que considero questionável em relação a um personagem – que pode até não ser quem pensávamos ser, mas cujo comportamento simboliza algo sensível – e uma outra que quebra o regime da realidade, Pequenas Criaturas é um drama que contrasta o mundo que temos dentro de nós com o mundo que vivemos do lado de fora e revela as dificuldades de uma família ser família quando abandonadas e desenraizadas. Um filme cheio de afeto só aguardando florir.
Leia também a crítica escrita pela Natália Bocanera em: Pequenas Criaturas • Cinema com Crítica
Pequenas Criaturas estreias nos cinemas quinta-feira 23 de julho.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.
