As representações midiáticas e culturais no Brasil, como consequência da estruturação de uma sociedade fundada em bases escravocratas e racistas, ajudaram a construir, alimentar e perpetuar um imaginário muito específico a respeito da mulher negra e seu corpo. Aos corpos femininos negros foram historicamente associados os significados e símbolos da sexualização, da disponibilidade sexual, da lascívia e do pecado. Às mulheres negras, reservaram-se o sexo, a marginalidade afetiva e o lugar do relacionamento exótico; às mulheres brancas, o afeto, a pureza e o casamento. Embora esse imaginário venha sendo paulatinamente desconstruído à medida que se amplia a consciência sobre suas origens e implicações, é fato que permanece tão profundamente arraigado que não é raro, em que pese o evidente caráter racista dessas expressões, encontrarmos diferentes gerações reproduzindo termos como “cor do pecado” ou “morena tipo exportação”, que remetem ao lugar de hiperssexualização atribuída à mulher negra.
O cinema, como expressão artística e manifestação cultural e política de seu tempo, também contribuiu para a construção desse imaginário estereotipado que afetou e ainda afeta a vida de tantas mulheres negras. Compreender as origens dessa representação é primordial para a desconstrução e a reelaboração das imagens que habitam nosso inconsciente, de modo a consolidar uma percepção coletiva antirracista. Aos familiarizados com a luta, isso pode soar como uma obviedade. Entretanto, surpreende a quantidade de pessoas que ainda desconhecem os alicerces sobre os quais foi erguido nosso país.
Nesse sentido, nenhum didatismo é excessivo, nenhuma explicação será demasiada quando se trata de antirracismo. É preciso lembrar que a hiperssexualização da mulher negra remonta ao período colonial e à exploração de nossas antepassadas escravizadas, obrigadas a servir aos desejos sexuais dos senhores de escravos brancos, como se objetos fossem. Cumpre recordar, ainda, que a escravidão no Brasil perdurou por quase 400 anos e que foi há menos de 140 que ocorreu o que se convencionou chamar de “abolição”. Noutras palavras, o Brasil acumula, em sua história posterior à invasão portuguesa, mais tempo de vigência de práticas profundamente racistas do que de sua abolição formal. Não é necessário dizer que as marcas deixadas por esse longo período de crime contra a humanidade ainda persistem de forma profunda em nossa sociedade.
Chegamos, assim, a Minas Gerais, à região do antigo Arraial do Tijuco, posteriormente denominada Diamantina, onde encontramos Francisca “Chica” da Silva de Oliveira — ou apenas Chica da Silva, ou mesmo Xica da Silva. Mulher escravizada, ela ficou conhecida por ascender à elite após viver durante 17 anos com o desembargador português e contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Segundo os estudos e os relatos históricos, João Fernandes a teria adquirido e alforriado pouco tempo depois, assumindo-a publicamente como sua companheira, com quem teve 13 filhos. Chica da Silva acumulou riquezas, administrou, herdou e adquiriu propriedades, podendo proporcionar aos filhos uma educação de elite, além de privilégios e um status absolutamente incomuns para pessoas negras à época. Essa condição despertou grande atenção e se tornou terreno fértil para o surgimento dos diversos mitos que passaram a cercar sua figura.
Sedutora, feiticeira, extravagante, aquela que teria lançado encantos sobre o tido como homem mais rico do Brasil. Essa foi a imagem deturpada e mitológica de Chica da Silva que, por muitos anos, prevaleceu em detrimento do reconhecimento de sua capacidade de administrar patrimônios, ocupar espaços de prestígio e exercer autonomia em uma sociedade escravocrata. Veja-se que, diante da condição de mulher negra escravizada, era quase como se fosse impossível concebê-la como parte de uma relação afetiva genuína. Não por acaso, a historiografia mais recente tem demonstrado que grande parte dessas narrativas é falaciosa, dizendo muito mais sobre os estereótipos raciais e de hiperssexualização projetados sobre as mulheres negras do que sobre a própria Chica.
No filme Xica da Silva, de 1976, Cacá Diegues abraça o mito, consciente de sua extravagância e erotismo, para posicionar a personagem em um lugar de poder e influência exercida através da sedução e do sexo, e a partir dai construir pontes em prol da luta antiescravista. Há, portanto, aqui, dois posicionamentos conflitantes em termos de representatividade: de um lado, o reforço imagético da hiperssexualização e objetificação da mulher negra e, de outro, a valorização da história de uma das mulheres negras mais poderosas de nosso país, e consequentemente, do prestígio do protagonismo e poder negro nos cinemas e na construção do Brasil.
Por certo, há de se considerar que Xica da Silva é fruto de seu tempo – tempos de censura e pornochanchada. A grandiosa e soberba Zezé Motta ganhou reconhecimento internacional por seu trabalho no filme de Diegues, assumindo com garras o papel construído na exuberância. Se extravagante é a personagem, excêntrica também é a obra em sua totalidade, e portanto, não há desproporção.

Da mesma maneira, Xica da Silva é representativo de um tempo, mas realizado em outro, quando a consciência antirracista no Brasil ainda era incipiente, à pele negra se atribuía um caráter de exotismo e o imaginário coletivo ainda se estruturava sobre o mito da democracia racial. É difícil não se incomodar com a profusão de expressões racistas lançadas abertamente contra os personagens negros e, sobretudo, contra Xica.
Em contraponto, Cacá Diegues impõe aos personagens brancos uma ridicularização absolutamente bem-vinda ao tom irônico do filme. Mesmo João Fernandes (Walmor Chagas) assume contornos cômicos em seu papel submisso aos encantos de Xica. A ironia e o exagero também servem para satirizar, de forma contundente, os homens brancos, e não deixa de ser satisfatório vê-los sendo enganados e explorados dentro dos limites do que era possível naquele contexto.
Há de se pensar, ainda, no quão impactante foi, para a época – e, em certa medida, ainda hoje, visto que pessoas negras em posição de poder é incômodo aos privilegiados – vislumbrar em tela pessoas negras usufruindo do luxo, do requinte e da abundância que a riqueza pode proporcionar em suas formas mais opulentas e inimagináveis. Banquetes, vestimentas finíssimas, ouro, diamantes, perucas suntuosas e até navios em Minas Gerais: tudo para Chica e, sim, para seus escravizados, já que os registros históricos documentam que ela possuía pessoas escravizadas, como era costume entre aqueles que detinham riqueza e poder naquele período.
Quiçá o maior pecado de Xica da Silva seja afastar-se da própria história, em descompasso, inclusive, com a atmosfera de opulência que o filme constrói, ao transformar sua protagonista em uma figura cuja manifestação de poder e status depende integralmente de João Fernandes, quando, ao que tudo indica, não foi isso o que ocorreu. Após o retorno do companheiro a Portugal, Xica permaneceu administrando seus bens e usufruindo de uma vida luxuosa até sua morte. Diegues a recoloca, ao final, praticamente no mesmo lugar em que a apresenta no início, com a diferença de que agora ela carrega o sofrimento da separação e a consciência de sua dependência em relação ao rico português.
O testamento de Francisca da Silva, documento que ajudou a elucidar diversos aspectos de sua trajetória, só foi redescoberto em 2025, posteriormente ao lançamento do filme. Não se sabe, portanto, até que ponto as informações hoje disponíveis já eram conhecidas à época. De todo modo, a ficcionalização é um caminho de permissivos e liberdades, e o escolhido por Diegues foi o de reconduzir Xica a uma condição de humildade.
Xica da Silva acaba por revelar muito sobre o Brasil que o produziu. Ao passo que subverte convenções, concede protagonismo a uma mulher negra e satiriza as estruturas coloniais de poder, também reproduz imaginários que hoje reconhecemos como frutos do racismo estrutural. É possível, portanto, que observemos, de forma concomitante, os avanços e as limitações de uma obra que foi revolucionária para seu tempo, mas que, revisitada à luz das discussões contemporâneas, evidencia como até mesmo os gestos mais progressistas são maculados pelo contexto em que nasceram. É fato que artes como tais precisam ser revisitadas para que possamos reconhecer, desconstruir e transformar os imaginários que ela ajudou a produzir.
O filme foi restaurado e estreia novamente nos cinemas pelo projeto Vitrine Petrobrás, e foi exibido, já em sua nova cópia, na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).



