Identidade, fuga e recomeço no filme de Avelina Prat
Tenho a impressão de que todo mundo já fantasiou em abandonar a própria identidade, assumir a de um estranho, viver a vida dele, enxergar o mundo através de outros olhos e não de olhos já habituados a encarar as coisas da mesma maneira. Ora, essa talvez seja a essência do cinema. Não o prazer de ouvir e contar histórias, mas o de viver vidas que não pertencem a nós, nem que somente por algumas horas. Fugir de si ou do passado é a matéria-prima que A Quinta Portuguesa trabalha com muita segurança até perdê-la em uma conversa em um café… mas chegarei lá no momento apropriado.
Escrito e dirigido por Avelina Prat, o roteiro começa momentos antes de a esposa sérvia de Fernando (Manolo Solo, ator espanhol falecido recentemente) abandoná-lo e retornar para o seu país. Devastado, Fernando abandona o colégio onde ensina geografia e fala sobre mapas e fronteiras para reencontrar o seu norte. Ele para em um hotel costeiro em Portugal, no qual conhece brevemente outro homem e assume a identidade dele, aceitando trabalhar como jardineiro na propriedade de Amalia (Maria de Medeiros). Com o desenvolvimento narrativo, as coisas começam a retornar ao seu devido lugar. E, acredito que, como eu, você deve estar imaginando que o clímax será quando Amalia descobre o segredo de Fernando e o confronta.
O roteiro de Prat, porém, é mais interessante; Amalia não demora muito para perceber que Fernando está passando por outra pessoa e o aceita mesmo assim. Pode ser paralelismo – Amalia também fingiu ser outra pessoa quando retornou a Portugal -, pode ser um romance ou uma amizade florescendo ou, quem sabe, empatia, o motivo não importa. Prat está mais preocupada com o mecanismo emocional e psicológico de fuga de um homem vulnerável, obrigado a encarar a própria pequenez. Não há transformações significativas; Fernando permanecerá o mesmo, afinal não há como fugir verdadeiramente de quem se é. Na melhor das hipóteses, aprenderá a perdoar-se e reconhecer as oportunidades que aparecem diante dele.
Isso se torna especialmente evidente quando ele é colocado diante de uma experiência análoga à sua, embora fundada em outro motivo. Não me refiro à Amalia, mas a uma terceira personagem inteligentemente incluída, apesar de mal desenvolvida na narrativa. Foi nesse ponto que Prat me perdeu, nesta necessidade de mastigar literalmente o passado da personagem. A arte é também saber o momento de parar, e Prat já tinha habilmente obrigado o espectador a refletir que o desenraizamento ou, nas palavras de Fernando quando leciona geografia, a mudança de escala é suficiente para colocar em crise a ideia de uma identidade fixa e imutável. Para falar a verdade, não me sinto seguro para afirmar que a mudança de contexto muda a nossa identidade – é por experiência que afirmo.
O que compreendo é que os personagens anseiam fugir de onde estão ou, mesmo, retornar para onde vieram porque acreditam que é lá onde as suas identidades podem dar frutos. No ônibus, a ex-esposa de Fernando afirma que a Espanha “é igual a qualquer outro lugar”. Eu não acredito que seja, mas suponho que o não pertencimento seja mais uma variável da relação dela com Fernando do que qualquer outra coisa. São as pessoas que fazem os lugares; embora, sim, os lugares provoquem aproximação, distanciamento, familiaridade e estranhamento. E a diretora joga com esses temas sem precisar explicitá-los nos diálogos ou na história, apenas estão presentes, impossíveis de serem ignorados.
Sobretudo porque Prat investe em uma abordagem mais formal, que jamais escorrega em um pretenso naturalismo que poderia arruinar a personalidade quadrada de Fernando com uma espontaneidade artificial. Fernando é como os quadros que adornam a parede de seu apartamento: desenhados diligentemente, em vez de vividos apaixonadamente, os mapas são meras formas estáticas sufocadas dentro de suas molduras – ou de suas fronteiras, se preferir. Os planos estáticos e o movimento escasso e controlado refletem a personalidade do personagem, exigindo de Solo um trabalho de contenção para tornar concreto aquele homem com bolsas espessas sob os olhos e apenas uma mala de roupas a tiracolo.
Eu me sensibilizei mais com ele do que deveria. A ideia de um homem de meia-idade que é dependente de um quarteto de mulheres para reencontrar o norte de sua vida é uma ideia que o cinema precisa, urgentemente, aposentar. A sensibilidade de Prat evita o pior: o olhar condescendente dirigido a um homem maduro, que já deveria ter aprendido a assumir responsabilidade pela escala que desenhou o traçado de sua vida.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



