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Andariega

Classificado como 3 de 5

Andariega

2025

94 min

Classificado como 3 de 5

Diretor: Raúl Soto Rodriguez

Uma mulher deixa seu filho pequeno para trás, no ambiente urbano, e toma um ônibus para o trabalho. Ela revela, em anotações num caderno cujos dizeres são rabiscados na tela, que seu sonho é que seu pai não precise mais trabalhar na colheita de café. Conforme percorre pequenas cidades, a paisagem além das janelas dá conta da aproximação da zona rural.

Após um longo percurso, ela parece ter chegado ao seu destino — até subir no pau de arara que a esperava. A despeito do desconforto desse transporte, a mulher segue adiante. Ao descer, percebe-se que ainda não chegou: um veículo 4×4 é seu próximo meio de locomoção. Às duras penas e sob o risco constante de atolamento, o utilitário atravessa a estrada lamacenta, sacolejando os trabalhadores a bordo.

Finalmente, ela chega a um local, embora seu destino exato ainda não seja claro. Assistimos a essa mulher se preparar para a jornada de trabalho com paramentos improvisados e uma capa de chuva feita de saco plástico frágil. A contradição então se estabelece: em que pese seu sonho, lá está ela colhendo café, com mãos habilidosas que rapidamente selecionam os grãos maduros e deixam ilesos os verdes.

Essa é María Yessenia Herrera, mais conhecida como “Chena”, de 26 anos, que se junta aos tantos trabalhadores rurais da diáspora itinerante da colheita de café na Colômbia. Andariega, filme dirigido por Raúl Soto Rodriguez e que integra a primeira Mostra Internacional FICCI (Festival Internacional de Cinema de Cartagena) da 6ª Edição do Citronela Doc – Festival de Documentários de Ilhabela (SP), carrega em sua protagonista a representação não só do ciclo aprisionador do trabalhador submetido ao labor análogo à escravidão naquela região, mas principalmente das mulheres trabalhadoras, mães solos e jovens que doam seus corpos ao adoecimento precoce em troca de um sustento insuficiente, que sequer confere dignidade de vida às suas famílias. 

Soto Rodríguez acompanha os passos de Chena com intimidade, seja pela proximidade de sua câmera – fascinada e, ao mesmo tempo, denunciante das mazelas que perseguem aquela mulher -, seja pela complexidade que lhe atribui ao revelar seus pensamentos, registrados no caderno-diário que a acompanha na labuta. Andariega denuncia o processo de desumanização provocado pela exploração de um trabalho que exige forças além do suportável, sem perder de vista a humanidade de María Yessenia nas inúmeras facetas que a compõem, assumindo esse paradoxo de forma bela e melancólica. 

Mantendo-se próximo, o diretor faz uso de planos longos para nos tornar testemunhas incômodas do desgaste físico e da exploração extrema sofridas por Chena. Sobre o pescoço e os ombros, ela carrega sacas com dezenas de quilos de café – um esforço que sobrecarrega os joelhos enfaixados para conter a dor intensa das articulações. Tão jovem, Chena diz se sentir uma “velhinha”: toda a sua jovialidade e saúde esvaem-se, junto com o suor, para alimentar o lucro dos mais fortes. Ao final da temporada, ela recebe 679.700 pesos colombianos (cerca de 1.100 reais), quantia que envia integralmente para a família. 

María Yessenia Herrera em Andariega (Imagem: divulgação)

Soto Rodríguez, inclusive, sabe explorar com precisão os acasos daquela rotina, transformando-os em paradoxos imagéticos interessantes e bastante significativos. Em particular, há um plano longo no qual acompanhamos a personagem carregar a saca de café em uma subida interminável. Enquanto ela caminha a passos lentos, a sua respiração ofegante e cansada ganha volume, e o diretor insere, pontualmente, uma trilha sonora progressiva e discreta, mas suficiente para causar o impacto almejado. Nessa caminhada infinita, em que o tempo parece se suspender diante do esforço extremo, um cachorro já idoso a acompanha, com dificuldade para andar. As duas figuras tragicamente se complementam e se espelham. Outros espelhamentos tornar-se-ão presentes no decorrer do longa, traçando paralelos animalescos desse abuso laboral.

Quando a colheita de café termina, o trajeto de retorno ainda demanda pausas para a realização de outros trabalhos. A protagonista venderá sua força de trabalho tão preciosa, agora, em uma fazenda de piscicultura. Ali se estabelece, quiçá, a maior metáfora e o mais significativo paralelo sobre a exploração em Andariega. Os trabalhadores atraem os peixes com excesso de ração para, logo em seguida, lançar a rede e aprisioná-los. Colocados aos montes em espaços minúsculos, os peixes debatem-se em uma morte lenta e progressiva. Com frieza, o diretor nos mostra o olhar vago de Chena diante dos animais morrendo – as bocas desesperadas em busca de ar e as barbatanas se movendo devagar sobre o gelo, onde encontram seu destino mórbido. Todos ali, peixes e seres humanos, são explorados pelo capitalismo.

Em que pese toda a violência do trabalho que nos é exposta, Soto Rodríguez não reduz a protagonista aos seus inúmeros ofícios. Como mãe solo, Chena sofre pela distância do filho, Totoi, cuja criação acaba sendo relegada à avó e à tia maternas. Nas páginas de seu diário, ela registra seus paradoxos: a vontade de ir embora e o amor pelo filho, que a faz permanecer e superar os sofrimentos – “por mais raiva que sinta, espero ela passar”, anota em suas reflexões. Ao mesmo tempo que revela ao papel a saudade do menino e a angústia de não conseguir se comunicar com ele, mostra-se, frequentemente, rígida e de poucos afetos durante as breves chamadas de vídeo: é vítima evidente de um ciclo de relacionamentos duros e violentos herdado da própria família. 

Como mulher, Chena abandona as vestimentas precárias de trabalho para assumir sua feminilidade – aquela que cuida dos cabelos mesmo sem acesso a um chuveiro, que é vaidosa, passa maquiagem e gosta de sair para dançar, flertar e beber uma cerveja. Andariega nos lembra o tempo todo que estamos diante de uma protagonista muito jovem que, como qualquer pessoa de sua idade, nutre desejos comuns a outras mulheres. 

Soto Rodríguez perde um pouco a poesia nas cenas domésticas, quando a jornada infinita de trabalho de Chena assume os contornos da maternidade e dos afazeres domésticos. Muito embora, aqui, o tom e a atmosfera fílmica sejam mais leves e novos acasos enriqueçam o filme – como quando um bebê que chora insistentemente cessa o lamento ao encontrar Chena fazendo fisioterapia no quarto – , elementos menos genuínos se inserem de modo a tornar o documentário mais artificial. No mais, a despeito de toda a construção narrativa, Andariega encerra-se de forma surpreendentemente abrupta, deixando dúvidas a respeito do desfecho de alguns caminhos trazidos pelo longa. 

Andariega é, no fim das contas, um documentário-denúncia sobre a invisibilidade dos corpos humanos tratados como meros animais de carga, em constante processo de desumanização e poucos alívios. Como a própria Chena escreve em suas letras, cujo tom acompanha a oscilação de seu humor, no universo dos andarilhos, imperam as regras da sobrevivência: ver, ouvir e calar, marchando em silêncio para garantir a subsistência do dia seguinte. 

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