O lixo nuclear que os Estados Unidos não conseguem resolver
Em algum momento, o governo dos Estados Unidos decidiu cuidar do rejeito radioativo produzido no país. Neste mesmo ato, decidiu que algumas comunidades são suficientemente remotas, pobres ou apenas invisíveis para receber esse lixo que o restante do país não quer perto de si. A partir desse ponto de partida, Casey Carter explora um tema menos conhecido da história nuclear estadunidense: a busca, iniciada na década de 80, por um território capaz de armazenar permanentemente os resíduos radioativos. E depois de avaliar 5 comunidades candidatas, o governo chegou à Yucca Mountain, no Nevada, um território originário não cedido pela etnia Shoshone. E, mais de 4 década depois de Ronald Reagan ter assinado a Lei de Política de Resíduos Nucleares, a procura por um território permanece inconcluso e o país continua sem solução para mais de 90 mil toneladas de lixo nuclear.
Além da conscientização de um tema que desconhecia, o que considero mais interessante no documentário é que Carter percorre os mesmos caminhos da investigação institucional, embora humanizando cada parada. Depois do prólogo estabelecer a dimensão desse problema, a narrativa percorre cada ponto do mapa que chegou a ser considerado para a armazenagem nuclear. Em cada um desses locais, o diretor procura gente. Caçadores, religiosos, agricultores, mineradores, cientistas, líderes indígenas e famílias que habitam os territórios há gerações. A cena inicial, após os letreiros nos contextualizarem, deveria dizer muito: a câmera começa com um close-up no rosto de um desses habitantes, já quebrando o que, para o governo, é apenas burocracia. Onde o Estado enxerga uma área menos povoada e adequada para o descarte, o diretor encontra comunidades ligadas àquelas regiões, seja porque subsistem do que a terra oferece (o salmão), seja porque criaram ali as suas raízes (a exploração turística da região).
Essa escolha é importante porque To Use a Mountain não está interessado em como os resíduos radioativos devem ser armazenados, mas em revelar quem paga o preço de decisões tomadas mais de meio século atrás quando os Estados Unidos participaram da corrida nuclear. A ausência do governo é um paradoxo dentro da narrativa. Embora vejamos Reagan no início do filme, a ausência se torna um tipo de presença que provoca consequências sobre a água, a terra e as pessoas. Comunidades negras, herdeiras de escravizadas; povos originários, cuja relação com a terra antecede em muito a chegada dos primeiros colonos; pessoas que nasceram, filhos de famílias que prosperaram quando havia atividade industrial; pessoas que estavam de passagem e decidiram ficar.
Carter registra os territórios não como espaços vazios, mas como paisagens carregadas de história e memória, de gente que buscou o tal do “sonho americano” ou apenas um canto na Terra para chamar de seu. A estrutura episódica, organizada em seis regiões visitadas, dá ao filme uma aparência de road movie. A exploração não resulta em uma grande revelação, mas essa sucessão de encontros amplia a percepção e conscientização do problema. Ao lado de Carter, conhecemos algumas pessoas e as suas histórias, criamos uma conexão superficial mas bastante para compreender pelo que lutam.
No lugar de uma linguagem fria, como a dos mapas ou dos relatórios governamentais, uma abordagem humanista, explorando não só as paisagens naturais como as paisagens humanas. Enquanto o governo transforma estas comunidades em coordenadas em um mapa; Carter encontra os rostos, as vozes, memórias e histórias desses lugares.
O filme também se torna relevante quando lembramos que o problema não terminou com a escolha de Yucca Mountain, mesmo que a decisão esteja embargada. É que o projeto enfrenta décadas de oposição política e continua sem conclusão. Enquanto isso, os resíduos radioativos permanecem armazenados e espalhados em diferentes instalações. Carter não oferece qualquer solução; tampouco deveria. Ele é uma artista lançando luz em uma situação que o governo deveria ter cuidado de uma maneira adequada. Ele é o investigador que os funcionários do governo deveriam ter sido, um que procura nos cidadãos ou mesmo na natureza as respostas porque aqueles locais seriam impróprios. Ele é também o provocador perguntando quem tem o direito de decidir sobre 10 mil anos no futuro.
To Use a Mountain é um documentário sobre território e propriedade. Sobre o dever de reconhecer o direito de quem ocupa a terra. Um governo pode transformar uma comunidade em uma estatística, uma montanha em um depósito de lixo nuclear e uma pergunta válida em uma decisão burocrática; o cinema tenta devolver humanidade a isso.

The Nuclear Waste the United States Cannot Solve
At some point, the United States government decided to deal with the radioactive waste produced in the country. In doing so, it also decided that some communities were remote, poor, or simply invisible enough to receive the waste that the rest of the country did not want in its own backyard. From this starting point, Casey Carter explores a lesser-known chapter of American nuclear history: the search, which began in the 1980s, for a territory capable of permanently storing radioactive waste. After evaluating five candidate communities, the government settled on Yucca Mountain, in Nevada, an unceded Indigenous territory of the Shoshone people. And more than four decades after Ronald Reagan signed the Nuclear Waste Policy Act, the search for a suitable territory remains unresolved, and the country still has no solution for more than 90,000 tons of nuclear waste.
Beyond raising awareness of a subject I knew little about, what I find most interesting about the documentary is that Carter follows the same paths as the institutional investigation, while humanizing each stop along the way. After the prologue establishes the scale of the problem, the narrative travels through each location that was considered for nuclear storage. At each of these places, the director looks for people. Hunters, religious communities, farmers, miners, scientists, Indigenous leaders, and families who have inhabited these territories for generations. The opening scene, after the titles have provided the necessary context, says a great deal: the camera begins with a close-up of one of these inhabitants, immediately breaking through what, to the government, is merely bureaucracy. Where the state sees a sparsely populated area suitable for disposal, the director finds communities connected to these regions, whether because they depend on what the land provides (salmon), or because they have put down roots there (the region’s tourism industry).
This choice is important because To Use a Mountain is not interested in explaining how radioactive waste should be stored, but in revealing who pays the price for decisions made more than half a century ago, when the United States took part in the nuclear arms race. The government’s absence becomes a paradox within the narrative. Although we see Reagan at the beginning of the film, that absence becomes a form of presence that produces consequences for water, land, and people. Black communities, descendants of enslaved people; Indigenous peoples, whose relationship with the land long predates the arrival of the first colonists; people born into families that prospered when industrial activity was present; people who were merely passing through and decided to stay.
Carter records these territories not as empty spaces, but as landscapes filled with history and memory, populated by people who sought the so-called American Dream, or simply a corner of the Earth they could call their own. The episodic structure, organized around six regions the filmmaker visits, gives the film the appearance of a road movie. The journey does not lead to a great revelation, but this succession of encounters broadens our perception and awareness of the problem. Alongside Carter, we meet some of these people and hear their stories, forming a superficial connection, but one that is sufficient to understand what they are fighting for.
In place of a cold language, like that of maps or government reports, Carter adopts a humanistic approach, exploring not only natural landscapes but human ones as well. While the government turns these communities into coordinates on a map, Carter finds the faces, voices, memories, and stories of these places.
The film also becomes relevant when we remember that the problem did not end with the selection of Yucca Mountain, even though the decision remains stalled. The project has faced decades of political opposition and remains unfinished. Meanwhile, radioactive waste remains scattered across different storage facilities. Carter offers no solution; nor should he. He is an artist shedding light on a situation that the government should have handled properly. He is the investigator that government officials should have been, one who looks to citizens and even to nature for answers about why these locations would be unsuitable. He is also the provocateur asking who has the right to make decisions about the next 10,000 years.
To Use a Mountain is a documentary about territory and ownership. About the responsibility to recognize the rights of those who inhabit the land. A government can turn a community into a statistic, a mountain into a nuclear waste dump, and a legitimate question into a bureaucratic decision; cinema tries to restore the humanity that was lost in the process.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



