Quando falamos em violência, é de sua modalidade mais explícita e física que nos lembramos, a priori. O fenômeno, todavia, possui vertentes e formas outras que passam despercebidas e são demasiadamente sofisticadas em seu exercício, ao ponto de serem praticadas, por exemplo, contra povos inteiros. O apagamento de culturas e identidades foi a estratégia violenta que possibilitou ao colonialismo a escravização e o controle sobre pessoas em prol da submissão. A pretensão dessa violência cultural diz respeito à descaracterização daquilo que já existia como patrimônio identitário construído para a imposição do outro, tido como dominante – e é crucial, para que a dominação seja eficaz, que a pessoa violentada se veja desprovida de história, vínculos e certezas.
Falar sobre colonização e o apagamento de culturas e identidades certamente não é um assunto do passado. O domínio foi eficaz, é constante, prolonga-se no tempo e tornou-se inerente às nossas existências — eis o nível de sofisticação dessa violência. Tamanho é o esquecimento provocado daquilo que outrora fomos por meio de nossos antepassados que um paradoxo se estabelece: o que foi apagado pode não mais nos pertencer ou não fazer mais sentido em nossa vida atual. Às duras penas, as culturas atingidas pelo estratagema colonial tentam sobreviver. O Pai e o Pajé, documentário vencedor do prêmio Utopia Docs na 6ª edição do Citronela Doc e do Prêmio Abraccine na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, dirigido por Iawarete Kaiabi e codirigido por Felipe Tomazelli e Luís Villaça, retrata justamente esse paradoxo: o choque entre as culturas colonial e originária vivido por um indivíduo diante de sua comunidade e, de modo ainda mais complexo, no seio de sua própria família.
O próprio diretor, Iawarete Kaiabi, é o indivíduo em conflito e em busca da compreensão dessa dualidade que assiste se configurar em seu entorno, no Território Indígena do Xingu: seus familiares dividem-se entre cristãos e não cristãos, entre aqueles que preservam as tradições e os que as rechaçam. Representando esse embate, estão as figuras patriarcais do título que lhe servem de referência: seu pai, convertido ao evangelismo, e o pajé, que carrega em si a cultura ancestral de seu povo. O Pai e o Pajé revela-se tanto um estudo pessoal do codiretor como uma prova cabal de que o processo de colonização permanece vigente e de que é grande o risco de apagamento total do pouco que restou, à medida que Kaiabi testemunha a ocupação gradativa das terras indígenas situadas nas regiões norte e nordeste do estado de Mato Grosso, por missionários evangélicos.
Sendo os saberes ancestrais e originários tradicionalmente transmitidos pela oralidade, O Pai e o Pajé é um filme pertinentemente composto por diálogos intermediados pelo diretor, esse estudioso que deseja avidamente absorver tais conhecimentos, ao mesmo tempo que tenta compreender a evangelização de seu pai e, via de consequência, da sua família nesse espaço patriarcal. O pai, embora recém-convertido ao cristianismo, guarda em si tais saberes e se compromete a transmiti-los ao filho ao longo do registro do longa. Ele o faz, contudo, alegando não mais concordar nem manter intimidade com as tradições, visto que não poderia aderir, segundo o cristianismo, a ambos os costumes simultaneamente. É esse o diálogo estabelecido entre eles que também serve como elo de aproximação.

Já com o pajé, o diretor aprende, mas também reflete e se revolta com a violência da colonização, representando a resistência de séculos que o antecederam. Em que pese a sua boa vontade e a responsabilidade na propagação e manutenção dos costumes de liderança, de rituais, de mediação de conflitos, de cura física e espiritual, atuando em prol da medicina natural e sendo a ponte entre a comunidade e as forças da natureza que o guiam, ele tem seu lugar de confiança questionado diante da dominação ocidental que se impõe.
Esse confronto, focado sobretudo nos métodos de cura e nos assuntos espirituais, constitui parte não dita de O Pai e o Pajé, sendo representado por um acontecimento cotidiano ao qual se atribui grande valor reflexivo. Diante de uma crise de enxaqueca do diretor Iawarete Kaiabi, ele é submetido aos processos curativos de ambos: pai e pajé. O filme contrapõe as rezas proferidas e cantadas, com cada um invocando suas respectivas divindades e espíritos, o uso de ervas em forma de chá pelo cristão em oposição ao fumo assoprado pelo líder indígena e, de maneira ainda mais marcante, as diferenças linguísticas nas invocações necessárias para o alívio da dor.
A língua portuguesa soa violenta naquele contexto. O idioma Kawaiwete, pertencente à família linguística Tupi-Guarani, é predominante em O Pai e o Pajé, possuindo um ritmo próprio no tempo e no tom de sua pronúncia – trata-se de uma cadência que flui, por meio da paciência da fala, de maneira distinta das línguas neolatinas. Quando o pai de Iawarete Kaiabi fala português pela primeira vez no longa, sua voz soa como uma afronta aos nossos ouvidos: é mais alta, impositiva e rápida. É a língua colonial, portanto, agressiva. As discrepâncias entre as culturas são demonstradas de forma bastante sofisticada, na mesma medida em que se revelam os pontos onde elas se aproximam.
E, de fato, elas se repelem, mas também se aproximam, principalmente na espiritualidade. O próprio Iawarete Kaiabi é o centro de convergência desses opostos como alguém que transita entre esses dois mundos. Com o firme propósito de preservar a cultura e a identidade de seu povo para transmiti-las aos seus descendentes, ele não deseja romper o vínculo paterno nem julga suas escolhas em momento algum. O seu olhar volta-se, justamente, para o estudo das consequências da brutalidade colonial e das formas disponíveis de administrá-la nos tempos atuais.
“A imposição da religião não-indígena me trouxe até aqui”, reflete Iawarete Kaiabi, que também é narrador, em determinado ponto do filme, afirmando sentir-se como uma ovelha desgarrada, que concomitantemente vai ao culto e recorre ao pajé. Não há meios de voltar atrás: o apagamento substancial ocorreu, consolidou-se e segue oprimindo. O Pai e o Pajé, entretanto, compreende que, para não deixar morrer aquilo que já sobrevive com dificuldades, restam a coexistência e o diálogo como formas de preservação e resistência.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


